terça-feira, outubro 6, 2026
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Virou à direita?

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Entre a tradição operária de esquerda e a virada eleitoral das últimas décadas

Mateus Gusmão 

Volta Redonda nasceu para ser uma cidade operária. Virou berço de um sindicalismo historicamente combativo e foi palco de uma das greves mais emblemáticas da história recente do país. Acabou passando por uma verdadeira metamorfose política. Berço da CSN e de D. Waldyr Calheiros, o chamado “bispo vermelho”, que enfrentou os militares da ditadura, na época em que era considerada área de Segurança Nacional, e cuja história se entrelaça com a luta pela redemocratização.

A greve de 1988, que terminou com três operários mortos por soldados do Exército, ecoou nacionalmente e ocorreu no mesmo ano em que Luiza Erundina, do PT, foi eleita prefeita de São Paulo. Em 2010 e 2014, Volta Redonda deu mais votos à petista Dilma Rousseff do que aos adversários da direita. Em 2018 e 2022, porém, Jair Bolsonaro virou o jogo e conquistou a maioria dos votos da Cidade do Aço, tanto contra Fernando Haddad quanto contra Lula.

Uma mudança que não passa despercebida e que gera uma questão incômoda: a Cidade do Aço, que já foi referência de mobilização operária e resistência política, endireitou de vez? Ou a história construída nas ruas e nas fábricas já não encontra correspondência nas urnas? Afinal, entre a memória da greve de 88 e o voto de direita nas últimas eleições, o que aconteceu com Volta Redonda?

Para tentar entender o fenômeno, o aQui procurou o conselheiro do Movimento Ética na Política (MEP) e professor Raphael Lima, doutor em Sociologia. Entre as reflexões do pesquisador está a de que Volta Redonda não se tornaria necessariamente uma cidade de esquerda apenas por ser operária e ter um sindicalismo forte. É preciso, segundo ele, considerar os contextos históricos e locais.

“O fato de ser uma cidade industrial, operária, não faz necessariamente dela uma cidade de esquerda. Isso não muda o fato de estarmos em um estado conservador, em um país conservador. O Sul Fluminense tem a tradição antiga das fazendas de café e leite, o que carrega, de certo modo, um conservadorismo”, destacou o professor. “A partir da década de 80, tivemos, sim, influência de setores progressistas na sociedade, como segmentos da base da Igreja Católica, o sindicalismo, entre outros. Foi até eleito um prefeito de esquerda: Juarez Antunes”, comentou Raphael.

O professor também chama atenção para as transformações econômicas e políticas que atravessaram a cidade nas últimas décadas, como a privatização da CSN e a implantação de políticas neoliberais. “Depois vieram os governos Lula. Em 2010, Dilma venceu Serra na cidade com 61% dos votos. Já em 2014, contra Aécio Neves, a porcentagem caiu um pouco. Logo após veio o impeachment e o crescimento de uma direita”, comentou.

“Em 2018, veio a onda do bolsonarismo. Bolsonaro venceu Haddad com uma vantagem grande naquela eleição. Mas, em 2022, contra Lula, ele venceu, mas a vantagem diminuiu”, disse.

Doutor em Sociologia, Raphael vai além da relação entre a origem operária da cidade e o comportamento eleitoral. Para ele, não existe uma associação automática entre ser trabalhador e votar em partidos de esquerda. “Na literatura, a gente pode até ver essa ligação direta de um operário votar no PT, no PCdoB, entre outros. Mas não é isso. Temos operários que votam em todos os partidos, no centro, na direita”, acrescentou.

O professor observa ainda que Volta Redonda já está na quarta geração de trabalhadores da CSN e que parte dos filhos de metalúrgicos seguiu outras profissões. “A gente também costuma ver muitos profissionais liberais que são filhos de metalúrgicos na cidade. Os pais até poderiam votar na esquerda. Mas essas pessoas, como profissionais liberais, têm outras demandas e acabam optando pelo centro ou pela direita”, pondera.

Ao olhar para a eleição deste ano, Raphael avalia que a tendência é de Flávio Bolsonaro receber mais votos do que Lula em Volta Redonda. “O Rio de Janeiro, vale lembrar, é a base do bolsonarismo. Foi aqui que o bolsonarismo nasceu. As pesquisas apontam uma vitória do Flávio no Rio, mas com um percentual de votos menor do que o pai, Jair, teve em 2022”, prevê.

 

Movimento veio para ficar

Se, para o professor, a mudança passa por uma série de fatores históricos, sociais e econômicos, para o empresário Hermiton Moura, criador do movimento ‘Vem Pra Direita’, em 2015, a transformação também é resultado da organização política da direita na cidade. Ele acredita que a tendência de crescimento desse campo político veio para ficar. “Acredito que, em algum momento, a verdade venha à tona. Ninguém consegue enganar muita gente por muito tempo. A população passou a questionar uma doutrina que, na minha visão, promete uma sociedade ideal, mas não entrega os resultados anunciados. Esse processo começou antes de 2018. Em março de 2015, fundamos o movimento ‘Vem Pra Direita’ em Volta Redonda, quando ainda era difícil defender publicamente essas ideias. Fomos às ruas, promovemos manifestações e levamos informação para a população”, comentou.

Para Hermiton, a liderança política de Jair Bolsonaro já vinha fortalecendo a direita, mas 2018 foi o grande ponto de inflexão. “Sua eleição multiplicou uma onda que já estava em formação. Bolsonaro se tornou o maior líder que a direita já produziu na América Latina e mudou definitivamente o cenário político brasileiro. Volta Redonda acompanhou esse movimento, e o ‘Vem Pra Direita’ teve participação ativa nessa transformação”, acrescentou.

O empresário acredita que a direita chega à eleição deste ano mais organizada e consolidada. “A onda que começou em 2015 ganhou escala nacional com Bolsonaro em 2018 e se transformou em um movimento político permanente”, disse. Para ele, o eleitor está mais informado e atento ao histórico, às posições e às propostas de cada candidato.

“Hoje, a escolha política está menos condicionada à tradição e mais à convicção individual. Por isso, acredito que esse movimento continuará crescendo este ano e nos próximos. A onda começou em Volta Redonda, ganhou o Brasil e não parou”, opinou. Hermiton reconhece que Volta Redonda tem uma história política fortemente ligada à esquerda, especialmente pela trajetória da CSN, do movimento sindical e da classe trabalhadora. Mas, na avaliação dele, a cidade mudou, e o eleitor também.

“Quando fundamos o movimento ‘Vem Pra Direita’, em 2015, começamos a romper essa hegemonia, levando às ruas um debate que até então tinha pouco espaço. Bolsonaro já vinha fortalecendo a direita, e sua eleição, em 2018, foi o grande ponto de inflexão”, completou.

O empresário também atribui às redes sociais parte dessa transformação. “As redes sociais democratizaram o acesso à informação e permitiram que o cidadão conhecesse outras ideias, confrontasse discursos com resultados e formasse sua própria opinião”, pontuou. Na avaliação de Hermiton, essa mudança representa um processo de amadurecimento político. “O eleitor de Volta Redonda percebeu que não precisa votar como sempre votou. Pode escolher de acordo com suas convicções. O movimento que começamos em 2015 cresceu, se multiplicou em 2018 e continua avançando”, concluiu.

Seja o que Deus quiser!

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Balieiro, Rodrigo Furtado, Albertassi, Jari, Munir e Drable revelam como pretendem conquistar os votos dos indecisos

A menos de 48 horas das eleições de 4 de outubro, a quantidade de eleitores indecisos ainda é impressionante. Dados da pesquisa Vetor Arrow divulgada em 14 de setembro, feita de forma espontânea – isto é, sem apresentar uma lista de candidatos –, mostraram que o grau de indefinição no estado do Rio estava muito alto. Para deputado federal, 80,1% não citaram espontaneamente um candidato ou partido, e apenas 19,9% deram uma resposta válida. Para deputado estadual, o percentual é quase idêntico: 81,8% não citaram espontaneamente nenhum candidato ou partido, e 18,2% deram uma resposta válida. 

A indefinição dos eleitores torna incerta a eleição para a Câmara e para a Alerj. Baseada nessa realidade, o aQui fez a pergunta “Como o senhor espera obter os votos dos eleitores indecisos?” a alguns políticos da região que têm se destacado na apresentação de suas propostas, que têm muitas chances de se eleger. É o caso do ex-prefeito de Resende, Diogo Balieiro, e do vereador Rodrigo Furtado, de Volta Redonda, que conta com o apoio de Flávio Bolsonaro, candidato a presidente da República. 

Quanto aos candidatos para a Assembleia Legislativa, o aQui procurou dois políticos que buscam a reeleição: Jari Oliveira e Munir Neto. Ambos estão muito fortes. E ainda Edson Albertassi e Rodrigo Drable. O primeiro busca repetir sua votação, da ordem de 60 mil votos (em 2014), tendo sido votado praticamente em todos os 92 municípios fluminenses. Já Rodrigo Drable conta com o apoio ostensivo do prefeito Luiz Furlani, que adotou nas ruas a campanha ‘Barra Mansa precisa ter um deputado para chamar de seu’, referindo-se a Drable. 

Veja a seguir as revelações que fizeram, de forma exclusiva ao aQui, sobre como pretendem obter o voto dos indecisos.       

Para a Câmara Federal 

Diogo Balieiro – ex-prefeito de Resende, candidato a deputado federal pelo PL 

“Minha trajetória e minhas propostas estão à disposição de todos os eleitores. Ao escolher um deputado federal, considero fundamental avaliar a conduta, a reputação e a capacidade de transformar compromissos em resultados. O eleitor de Barra Mansa e Volta Redonda, por exemplo, tem facilidade de pesquisar o período em que fui prefeito de Resende por dois mandatos. Quero levar essa experiência para Brasília, para buscar recursos e investimentos para o estado do Rio de Janeiro, com um olhar especial para o Sul Fluminense, o Centro-Sul Fluminense e a Costa Verde.”

 

Rodrigo Furtado – Vereador em Volta Redonda, candidato a deputado federal pelo PL
“Nossa estratégia é fazer com que o eleitor conheça melhor quem é Rodrigo Furtado. E eu gosto de fazer uma comparação com o futebol. Para jogar bem, não basta saber chutar. Tem que conhecer o campo, ler o jogo e saber o que fazer. A política também é assim.
Eu não quero ser um deputado de uma pauta só. Quero chegar a Brasília preparado para jogar em várias posições quando os interesses de Volta Redonda e do Sul Fluminense estiverem em campo, especialmente na defesa da geração de empregos e dos condomínios industriais. Ou ainda na saúde, educação, defesa da valorização dos profissionais e nas cobranças por melhorias nas nossas rodovias.


Temos propostas para levar para o debate nacional, como permitir que o jovem comece o seu processo de habilitação aos 16 anos, com formação, avaliações e responsabilidade.
Vamos buscar recursos federais para ajudar a concluir e equipar o novo anexo do Hospital São João Batista e ampliar a capacidade regional de atendimento. Queremos um Hospital Regional funcionando de verdade como referência de média e alta complexidade para as cidades do Sul Fluminense e ampliar o acesso a especialidades que ainda obrigam muitas famílias a procurar atendimento longe de casa.
Quero atrair empresas, aproveitar melhor a força da nossa cadeia siderúrgica, estimular tecnologia e startups e ampliar a formação profissional. Volta Redonda está entre Rio e São Paulo, tem indústria, conhecimento e trabalhadores qualificados. Precisamos transformar essas vantagens em emprego e renda.
Também precisamos melhorar nossa infraestrutura. A BR-393, a Rodovia do Contorno, a RJ-155 e a Via Dutra são fundamentais para a nossa economia e para milhares de pessoas que passam por elas todos os dias. Quando falta investimento numa rodovia, não perdemos apenas tempo. Perdemos competitividade e, em acidentes, perdemos vidas.
E quero defender quem vive do próprio trabalho. Isso passa pela valorização dos profissionais da saúde e da educação, pela discussão do salário mínimo e por políticas de inclusão que permitam às pessoas com deficiência buscar autonomia sem que o medo de perder sua proteção social se transforme numa barreira ao trabalho.
É por isso que nossa campanha está ampliando a presença nas redes e apresentando essas diferentes pautas. O eleitor pode me conhecer por uma delas e descobrir as outras. Quero mostrar que experiência política não é decorar um discurso. É conhecer os problemas, estudar as soluções e saber onde buscar os recursos para realizá-las.
Voltando ao futebol, eleição não se ganha dizendo que é craque. É o desempenho em campo que mostra isso. Tenho três mandatos, propostas e uma história em Volta Redonda. Quero mostrar tudo isso ao eleitor que ainda está indeciso; que ele faça a comparação e escolha certo!”

Para a Assembleia Legislativa

Edson Albertassi – ex-deputado estadual, candidato a deputado estadual pelo MDB 

“Depois de ter passado por uma longa tempestade, disputar uma eleição não é apenas a busca por uma cadeira. É a confirmação de que a fé vence qualquer adversidade.
Fui eleito seis vezes, mas este meu retorno é marcado por uma motivação que nunca tive antes. Passei por experiências que mudaram completamente a minha forma de enxergar a vida.
Os anos que fiquei fora não foram perdidos. Acumulei experiência, amadureci o olhar e enxerguei realidades que de dentro do mandato eu não via. Isso vai me permitir fazer ainda mais por Volta Redonda e pela nossa região.

Não volto para recomeçar, mas volto porque o trabalho não está terminado. Sei o quanto podemos construir! É com essa disposição que estou pronto para escrever um novo capítulo dessa história.”

 

Jari Oliveira – deputado estadual, candidato à reeleição pelo PSB

“Acreditamos que a melhor forma de conquistar o apoio dos eleitores indecisos é conversando com eles. Nosso mandato foi construído, desde 2013, nas ruas, junto das pessoas. E nossa campanha também tem sido assim.
Estamos percorrendo os municípios, ouvindo as demandas da população, apresentando o trabalho que realizamos e falando sobre o que ainda queremos fazer. Acredito que o eleitor precisa conhecer a trajetória de quem pede seu voto, saber o que já foi feito e quais são os compromissos para o futuro.

Nossa candidatura é pautada pela proximidade com as pessoas, pela independência e pelo compromisso de continuar trabalhando pelo Sul Fluminense. É olho no olho, com diálogo, transparência e muito trabalho.” 

 

Munir Neto – deputado estadual, candidato à reeleição pelo Solidariedade


“Acredito que a melhor forma de pedir a confiança dos eleitores é mostrar o trabalho realizado nos últimos quatro anos. Ajudamos a viabilizar o asfaltamento da Estrada Roma – Getulândia e a chegada do Batalhão de Ações com Cães, e estamos trabalhando para entregar ainda este mês o Batalhão de Policiamento Ambiental. Conseguimos espalhar o programa Segurança Presente por Volta Redonda e o Sul Fluminense. Também propusemos e aprovamos pautas importantes, como os estatutos do Motoboy e das Doenças Raras. Agora, queremos dar continuidade a esse trabalho, avançando com o Hospital Veterinário, levando mais asfalto aos bairros e ampliando os equipamentos das unidades de Saúde. Tenho resultados para apresentar e disposição para fazer ainda mais. Isso sem falar das parcerias com os prefeitos da região, que têm no meu gabinete um porto seguro no Rio.”

 

Rodrigo Drable – ex-prefeito de Barra Mansa, candidato a deputado estadual pelo Solidariedade

“Sou candidato a deputado estadual para garantir que os recursos da saúde pública cheguem aos municípios, que o hospital do câncer que construímos, o Oncobarra, não fique sem recursos, e que cada doente tenha acesso a tratamento aqui na região; que a educação seja levada a sério e nossos jovens tenham oportunidade de receber educação técnica profissionalizante dentro das escolas, afinal já gastamos bilhões de reais com as Faetecs. Quero lutar para que a CSN não seja vendida e não feche as portas.
Temos muitas necessidades e precisamos de deputados que cumpram seus mandatos de verdade. Fui prefeito por 8 anos e nunca tive apoio de Deputado Estadual para ajudar nas principais dificuldades da cidade. Nunca vi deputado colocando o pé na lama nas enchentes ou trazendo recursos para as famílias afetadas; não lembro de deputado entrando comigo em hospital na época do Covid-19 em que atendemos a região inteira em Barra Mansa.
Quero ser o seu deputado para fazer a diferença na vida de quem vive no Sul Fluminense. E meu compromisso é ser o melhor deputado que essa região já teve! Peço seu voto e seu apoio e chegaremos lá juntos!”

‘Esquerda volver’

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Como os petistas da terra de Flávio Bolsonaro explicam a preferência dos eleitores pela direita 

Walter Barros

Adélice Maria Modesto e Flávio Bolsonaro têm uma coisa em comum: ambos nasceram em Resende. No mais, o presidenciável de direita e a militante de esquerda podem ser comparados a água e óleo: ele, a água; ela, o óleo. Afinal, a vida da petista não é nada fácil, já que a cidade é tradicionalmente conservadora. Não por acaso, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) recebeu 44.732 votos (61,86%) no segundo turno das eleições de 2022, ante 27.584 votos (38,14%) conferidos ao presidente Lula (PT). Mas Adélice não está sozinha. Ela faz parte de um grupo que vai às ruas todos os dias para tentar virar o jogo.

“Ser mulher negra, periférica e militante de esquerda em uma cidade onde o conservadorismo ainda é forte é enfrentar barreiras gigantes todos os dias. É ocupar espaços onde muitas vezes somos vistas como ‘cota’, e não como mulheres capazes e preparadas. É sentir o peso do racismo e do preconceito político, mas também transformar resistência em voz. Estar na política é afirmar que lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive decidindo os rumos da nossa cidade e do nosso país. É também defender a democracia, os direitos conquistados e a participação popular, porque sem democracia não há justiça social nem liberdade para todas e todos”, desabafa.

A integrante do grupo ‘Mulheres Negras de Resende’ atribui o conservadorismo da cidade e da região das Agulhas Negras a fatores históricos, culturais, econômicos e à forte presença de instituições tradicionais. Uma delas é a Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), onde Jair Bolsonaro servia quando os filhos Flávio (1981), Carlos (1982) e Eduardo (1984) nasceram. Apesar disso, ela acredita que “a região está mudando, e o diálogo e a participação social são fundamentais para ampliar esse debate”.

Na linha de frente com Adélice está Cloves Alves, que assumiu a presidência do diretório do PT em Resende sabendo que não seria fácil ampliar o espaço do partido entre o eleitorado local, que, segundo ele, sofre forte influência dos grandes latifundiários, de famílias ricas e poderosas. “Eu sou um homem preto, periférico, financeiramente pobre, com consciência de classe. Enfrentar essas pseudoelites da sociedade e tentar construir uma Resende mais igualitária, mais saudável a todas as pessoas, é sempre um desafio”, explica o líder comunitário.

Bacharel em Direito, Cloves argumenta que as pessoas, em geral, não fazem ideia do que é ser conservador. “Eu pergunto se elas querem conservar a miséria, a desigualdade, o racismo, a misoginia. Todas são unânimes em dizer que não querem, então eu digo que elas não são conservadoras”, explica.

Ele vai além. Diz que também vê na esquerda um caminho para a conquista de representatividade. “Ser um líder comunitário e estar envolvido com movimentos sociais é minha paixão, minha razão de ser. É a gente poder lutar por algo que a gente acredita. Essas são as ferramentas que a gente tem, participando dos movimentos sociais, ser um presidente de associação de moradores, poder cobrar do poder público, seja o gestor de direita ou de esquerda”, acrescenta.

Derik Roberto é outro que enxerga na esquerda uma alternativa para ‘remar contra a maré’. “Sou filho de pedreiro e empregada doméstica, nascido e criado na Fazenda da Barra 3. Estudei a vida toda em escola pública e cheguei à faculdade de Direito da UFRRJ. Desde cedo, vi de perto como a pobreza pode humilhar e limitar as possibilidades de uma pessoa. Decidi militar porque acredito que a política é um dos principais caminhos para enfrentar a desigualdade social”, conta.

Derik, advogado, reconhece que ser petista em Resende não é fácil. “É desafiador ser de esquerda aqui, mas nunca foi fácil lutar contra a desigualdade e os privilégios. Ser de esquerda exige coragem. Meus antepassados tiveram essa coragem quando ela podia custar a própria vida. Graças à luta deles, hoje ela custa apenas alguns olhares atravessados. E, graças à nossa luta, espero que um dia possamos manifestar nossa ideologia sem qualquer receio”, desabafa o secretário de Organização do PT no município.

Hostilidade

Os petistas da terra dos Bolsonaros acreditam na melhora do desempenho de Lula nas urnas em Resende este ano, mas reconhecem a força da extrema direita no município. Comparando com campanhas anteriores, “quando as pessoas tinham medo de se mostrar de esquerda”, Adélice diz que a aceitação do PT e de Lula tem apresentando um aumento expressivo, embora a desaprovação bolsonarista ainda seja muito forte. “Na última semana uma senhora veio em nossa direção e, ao passar, falou para um amigo: se juntar mais alguns é formação de quadrilha; ao ser rebatida, fechou a cara e continuou sua caminhada. O diálogo quase nunca surte efeito, mas estamos rebatendo mostrando a verdade dos fatos, embora não aceitem”, conta a integrante do grupo de Jongo ‘Dona Aparecida’ e do grupo de capoeira ‘Raiz Negra’.

Cloves acrescenta que o diretório se mantém aberto durante a campanha, que a aceitação ao PT tem sido “maravilhosa” e que o perfil da sigla no município acaba de superar 7 mil seguidores. Mas ele não esconde a força da extrema direita na cidade. “Tem acontecido muita hostilidade comigo e com minha equipe. Por exemplo, uma senhora pensionista vitalícia de militar chegou a uma de nossas apoiadoras, na feira, xingando, agredindo, dizendo estar decepcionada, porque sempre gostou dela, mas que era um absurdo ela apoiar o Lula, gritando. A madame se achando no direito de chegar numa mulher preta, periférica, pobre, a ponto de querer obrigar a apoiar ou votar em quem ela quer”, dispara.

Derik Roberto, no entanto, protagonizou o caso mais emblemático enfrentado pela militância petista de Resende durante a campanha deste ano, através de um bate-boca acalorado com um vereador bolsonarista. A briga, que precisou ser contida pela Polícia Militar, viralizou nas redes sociais, já que o oponente do advogado também disse que foi provocado pelo petista. “Naquele dia, estávamos no Calçadão fazendo uma atividade de campanha, quando o vereador chegou e interrompeu a nossa banquinha. Eu respondi às provocações e cobrei questões trabalhistas relacionadas a ele. A partir daí, ele perdeu a compostura, e a situação precisou ser contida”, rebate Derik.

Escala global

Apesar das peculiaridades de Resende, o avanço da extrema direita é um fenômeno global. Foi o que explicou o professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo, Amâncio Jorge Silva, em entrevista recente ao Jornal da USP.

“A ascensão dos partidos de direita tem sido responsiva ou derivada principalmente de uma insatisfação com relação à sociedade reagindo ao que entende ser os efeitos da globalização, ou seja, o não atendimento a políticas públicas, políticas de bem-estar (…) começam a surgir esses partidos anti-globalização, anti-imigração, anti-estrangeiros, anti-integração regional, como acontece na Europa. Então, o significado desses partidos são crises de fato da democracia, do ponto de vista de representação, mas também de qualidade de vida”, observou.

Para o pesquisador, o avanço das tecnologias também facilitou o processo de integração social, cultural e econômica. O que, por outro lado, inflamou movimentos e ideias protecionistas e anti-migratórios, característica notável e muito presente em partidos de extrema direita.

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