Nubank compra banco de investimentos e negociação pode guardar informações reveladoras
Pollyanna Xavier
Quem passa por Porto Real dificilmente imagina que o pequeno município, de 23 mil habitantes, fundado por italianos, já abrigou um banco criado há mais de três décadas e que agora será incorporado por uma das maiores instituições financeiras digitais da América Latina. É que o Nubank anunciou, no início da semana, a compra do Banco Porto Real de Investimentos S/A – instituição criada em 1992 para atuar na concessão de crédito no mercado atacadista. Nunca houve, na verdade, um banco físico, para atendimento ao público. Seus ativos, porém, nunca deixaram de existir. A operação ainda depende da aprovação do Banco Central.
Embora pouco conhecido do grande público, o Banco Porto Real possui uma licença bancária que interessa ao Nubank. Na prática, a aquisição faz parte da estratégia da fintech para atender às exigências da Resolução Conjunta nº 17, editada pelo Banco Central e pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Essa normativa reorganizou a forma como as instituições financeiras podem utilizar a nomenclatura ‘banco’.
No caso do Nubank, a instituição já havia sido notificada pelo Banco Central, em novembro de 2025, sobre a necessidade de adequação às novas regras. Agora, com a aquisição, o Nubank passa a incorporar uma licença bancária ao seu conglomerado, sem alterar a operação dos serviços oferecidos aos seus clientes.
Por falar em clientes, o Nubank anunciou em 2026 ter ultrapassado 115 milhões de clientes brasileiros, tornando-se a maior instituição financeira privada do país em número de clientes. Também neste ano, a marca roxinha passou a integrar a Febraban (entidade que reúne os principais bancos brasileiros) e ainda anunciou R$ 45 bilhões em investimentos no mercado nacional.
No caso da aquisição do Banco Porto Real, os valores envolvidos na negociação não foram divulgados. Segundo apurado pelo aQui, o Banco Porto Real é uma instituição de pequeno porte, que em março deste ano possuía cerca de R$ 6,2 milhões em ativos. O patrimônio líquido era de apenas R$ 6 milhões, o que prova que a ‘joia’ não está no tamanho do banco, mas na licença bancária que o Porto Real detém junto ao Banco Central.
Em nota divulgada ao mercado, o Nubank reafirmou que todas as obrigações assumidas pelo Banco Porto Real de Investimentos serão mantidas conforme previsto no acordo de aquisição. Para os clientes da fintech, não haverá qualquer mudança no relacionamento. “A inclusão desta nova licença ao conglomerado prudencial da Nu Pagamentos S.A. não impõe exigências adicionais de capital ou liquidez, preservando sua solidez e resiliência financeira. Para os 115 milhões de clientes do Nubank no Brasil, nada muda: o aplicativo, os produtos, os serviços, a marca e o nome da instituição permanecem os mesmos”, informou a empresa.
Confusão
A compra do Banco Porto Real pelo Nubank também resgata uma lembrança de muitos moradores do Sul Fluminense. Durante anos, Porto Real, Volta Redonda e outras cidades da região tiveram agências identificadas como Banco Porto Real. Em Volta Redonda, por exemplo, a agência ficava na Vila, e o imóvel acabou virando um templo da Igreja Universal. Com o passar do tempo, essas unidades foram encerradas e acabaram sendo confundidas com as antigas agências do Banco Real, incorporado depois ao Santander.
Apesar da semelhança dos nomes, o Banco Porto Real de Investimentos adquirido pelo Nubank é uma instituição voltada ao mercado corporativo, que atua no mercado de crédito para empresas, especialmente no segmento conhecido como atacado (wholesale banking) e não mantém atendimento ao público em agências. Essa característica ajuda a explicar por que, embora tenha permanecido ativo por mais de 30 anos, o banco acabou ficando praticamente desconhecido da maior parte da população.
A verdade é que o banco comprado pelo Nubank foi fundado no distrito de Porto Real, no dia 14 de abril de 1992, antes mesmo de sua emancipação da cidade de Resende, em 1995. Porto Real, hoje, é reconhecida como a primeira colônia italiana no Brasil e o banco, considerado pelo mercado um daqueles chamados ‘bancos de prateleira’, que sobreviveu durante décadas justamente por manter uma licença bancária ativa, concedida pelo Banco Central.
Segundo apurado pelo aQui, tanto a Prefeitura de Porto Real quanto a Junta Comercial do Estado do Rio (Jucerja) mantêm registros de que o Banco Porto Real de Investimento continua ativo. Um fato, porém, chamou a atenção da reportagem. Em 14 de julho do ano passado, o Banco Central publicou o Comunicado número 43.497 informando que havia recebido um pedido de autorização para mudança do controle societário da instituição. O aQui teve acesso ao documento.
O comunicado informa que o controle direto passou a ser exercido pela LPGR Participações S.A (leia-se Luiz Eduardo Tarquinio Monteiro da Costa), tendo como controlador final o empresário Luiz Phillippe Gomes Rubini, cujo nome não é desconhecido do noticiário econômico. Rubini é ex-sócio do Grupo Fictor, que chegou a controlar as granjas da Rica, empresa tema de uma série de reportagens publicadas pelo aQui entre dezembro do ano passado e março deste ano (quase todas as filiais já fecharam, grifo nosso). Luiz Phillippe também ganhou destaque ao tentar comprar o Banco Master e semanas depois ajuizar uma ação de recuperação judicial no Tribunal de Justiça de São Paulo.
Em março deste ano, o empresário teve, ainda, o nome associado à Operação Fallax, deflagrada pela Polícia Federal para apurar um suposto esquema de fraudes bancárias e lavagem de dinheiro. Até o momento, não há qualquer informação pública que relacione essa investigação à aquisição ou à posterior venda do Banco Porto Real ao Nubank. Ainda de acordo com o apurado pelo aQui, a mudança no controle do Banco Porto Real de Investimentos, registrada em documento oficial do Banco Central, revela que a instituição mudou de dono apenas um ano antes de ser vendida ao Nubank.
Coincidência? Talvez. Mas também é possível que a aquisição tenha ocorrido de olho no valor estratégico da licença bancária. Não há elementos que permitam ao aQui afirmar isso. O fato é que a cronologia chama atenção. Seja como for, o endereço do Banco Porto Real de Investimentos S.A. continua na cidade de Porto Real.
A sede administrativa funciona em uma rua simples do bairro Imperial Center, em uma área predominantemente residencial, onde há mais casas do que comércios. Tudo indica que o imóvel – uma sala – abriga apenas a estrutura administrativa da instituição.
Na Classificação Nacional de Atividades Econômicas (Cnae), o Banco Porto Real de Investimentos está registrado como banco de investimento. Isso significa que pode realizar operações financeiras voltadas ao mercado corporativo, mas não está autorizado a captar recursos por meio de contas correntes, nem a atuar diretamente no financiamento de empreendimentos imobiliários. Traduzindo para o bom português: o Banco Porto Real de Investimentos nunca pôde funcionar como um banco tradicional. Não podia abrir contas correntes para pessoas físicas, receber salários, manter depósitos à vista ou oferecer os serviços que o consumidor encontra em uma agência bancária convencional. Ainda assim, possuía uma licença bancária emitida pelo Banco Central. E é justamente essa licença que o Nubank foi buscar em Porto Real. Instigante.
Stellantis vai investir R$ 30 bilhões no Brasil
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou na quarta, 22, de uma reunião com o CEO e diretor-executivo da Stellantis, Antonio Filosa, na qual foi apresentado um plano de investimentos R$ 30 bilhões no Brasil, entre 2025 e 2030, em novos produtos, tecnologias e ampliação da geração de empregos, tanto nas fábricas quanto na cadeia de fornecedores. Também foi anunciada a contratação de 2 mil novos empregados como resultado dos investimentos e da ampliação da produção no Brasil. Na planta de Porto Real serão gerados cerca de 500 novos empregos – 1,5 mil serão abertas em Betim (MG) – impulsionados pela produção do modelo Avenger, que será fabricado pela primeira vez no estado do Rio. Tem mais. A ampliação da capacidade industrial inclui a implantação do segundo turno na unidade do Rio de Janeiro e do terceiro turno na fábrica de Betim.

