BBB (Bom, bonito e barato)



Por Pollyana Xavier

Quando as primeiras tendas foram esticadas no gramado do Estádio Raulino de Oliveira, o prefeito Samuca Silva não imaginava a chuva de críticas que receberia por montar um Hospital de Campanha. O tom das críticas digladia com a calculadora do Palácio 17 de Julho. É que, enquanto as pessoas reclamam dos valores para montar o hospital provisório, a prefeitura garante que a unidade tem o menor custo dentre todos os que estão sendo montados no estado do Rio. Sem exageros, o menor até do Brasil. O valor, de fato, espanta: serão investidos R$ 2,5 milhões. Para efeito de comparação, o Hospital de Campanha de Nova Iguaçu, o mais caro do Estado, está orçado em R$ 181 milhões.

O aQui teve acesso a documentos e notas fiscais do Hospital de Campanha de Volta Redonda. Em um deles, observa-se que a prefeitura investiu R$ 1.632.000,28 pela contratação da empresa que fez a montagem das salas em octanorm (sistema modulado utilizado na montagem de estandes), onde funcionarão as áreas de acolhimento, classificação de risco, atendimento ambulatorial, isolamento para unidade intermediária de estabilização e a própria enfermaria. O valor refere-se ao pagamento total de seis salas, com capacidade para 114 leitos e garantirá o atendimento de baixa e média complexidade dos pacientes com a Covid-19.

Em pesquisa junto às empresas que trabalham com salas em sistema octanorm, o aQui descobriu que o valor médio da diária de uma sala 4×4, com apenas uma tomada, equipada com sofá e mesa de apoio, custa R$ 31 mil. Em um mês, a sala sai por R$ 930 mil. Em três meses – que é o prazo previsto para o funcionamento do Hospital de Campanha – o valor de locação das seis salas seria da ordem de R$ 2,790 milhões. Com a diferença de que as salas do Hospital de Campanha possuem um total de 1 mil metros quadrados e estão equipadas com mobiliário hospitalar?

Os recursos para erguer o Hospital de Campanha não saíram apenas dos cofres da prefeitura. A CSN, por exemplo, teria doado boa parte de um total de R$ 800 mil. Grandes grupos locais, por sua vez, entraram com valores que foram de R$ 10 mil a R$ 50 mil. A unidade – prevista para funcionar nos próximos dias – possui 114 leitos e foi montada no campo do Estádio Raulino de Oliveira, numa escolha inteligente. O local dispõe de infraestrutura e logística perfeitas: tem cinco entradas e possui um centro de imagens com tomógrafo e raios-X. Além de banheiros, copa, cozinha e salas que podem ser usadas pelo pessoal da área administrativa.

Todo esse aparato é para atendimentos de baixa e média complexidade. Segundo Samuca, a ideia é oferecer atendimento médico às vítimas da Covid-19, sem precisar superlotar os hospitais públicos da cidade do aço. “A ideia é centralizar os atendimentos leves e moderados da Covid-19 no Raulino e aliviar os nossos profissionais de Saúde que atuam nos hospitais, até para que eles consigam fazer outros atendimentos que não sejam relacionados ao corona-vírus”, explicou o prefeito. Casos mais graves que exigem leitos de UTI serão encaminhados para unidades permanentes. Ou para o Hospital Regional, dependendo do caso.

Nas lives que faz, Samuca reforça a ideia. “Estamos realizando um grande planejamento, principalmente para que os hospitais São João Batista e Retiro, além do Cais Conforto e Aterrado, não fiquem superlotados por conta da Covid. Então criamos o Hospital de Campanha, com 114 leitos de média complexidade, e ainda temos o Hospital do Idoso e estamos preparando o Santa Margarida”, explicou. Sobre o Santa Margarida – alvo das críticas de quem não concorda com os investimentos do Hospital de Campanha –, Samuca é enfático: “O Santa Margarida será para atendimento de alta complexidade”, dispara.

Samuca explica que a prefeitura está preparando as redes de atenção à Saúde conforme a complexidade dos casos que surgirem. As instalações do Santa Margarida – que no futuro terá um Centro Municipal de Saúde – vão acomodar de 40 a 52 leitos de UTI, com respiradores artificiais para atendimento a pacientes graves. A diferença no número de leitos deve-se à própria prefeitura, que a cada dia diz uma coisa. Já foram 52, 49, 44 e 40 leitos. Coisas da vida.

Sobre o Hospital de Campanha, Samuca detalha que a unidade provisória vai custar de R$ 800 mil a R$ 850 mil por mês. O valor inclui pagamento das equipes de profissionais de Saúde, compra de medicamentos, insumos, custos com a energia e a manutenção do local. “A montagem foi com verba municipal. Nós pedimos autorização orçamentária à Câmara e os valores são oriundos de outras pastas, de outras áreas, que nós estamos direcionando para a Saúde. Eu creio que se as coisas piorarem por aqui, tenho certeza de que as autoridades olharão pra cá de uma forma diferente. Ao mesmo tempo, eu não espero por isto, prefiro adotar medidas para estruturar a nossa rede”, comentou.

SALVAR VIDAS

Em entrevista exclusiva ao aQui, o prefeito Samuca Silva detalhou alguns gastos que a prefeitura de Volta Redonda  teve e terá com o Hospital de Campanha. Em resposta indireta aos que o criticam, em especial aos políticos da oposição, o chefe do executivo foi curto e grosso. “Não queremos fazer política, queremos é salvar vidas”, disparou.  

aQui: O custeio do Hospital de Campanha será mesmo de R$ 800 mil mensais? O que está incluído nas despesas?

Samuca Silva: Estão incluídas as despesas com a estrutura física, medicamentos, insumos e profissionais. Em um primeiro momento, no Hospital de Campanha irão atuar os profissionais que já são da nossa rede de Saúde, portanto, não haverá aumento de gastos com pessoal. Mas estaremos avaliando, diariamente, a necessidade de, em algum momento, aumentar o quadro de profissionais (médicos e enfermeiros, grifo nosso).

aQui:  Em uma das lives o senhor chegou a dizer que o hospital ficaria em R$ 2 milhões e 500 mil, mas logo depois disse que seriam R$ 800 mil mensais.  Como o senhor chegou a esse número. Espera que o hospital fique montado por três meses? É isso?

Samuca: Três meses vezes R$ 800 mil dá R$ 2,4 milhão em três meses. Esta é a conta.  Estudos da secretaria de Saúde apontam esse pico de contaminados nos próximos três meses. Então a princípio o hospital será utilizado nesse período. Mas esperamos que não seja necessário utilizar por todo esse tempo.

aQui:  A oposição diz que o senhor vai pagar isso e aquilo pelo aluguel de uma cama com colchão? Quanto custará afinal?

Samuca:  Estão politizando uma questão técnica e de saúde pública com o único objetivo de desestabilizar a cidade. Para se ter uma ideia, todos os jogos de cama com o colchão e a fronha, foram doados. Estamos alugando as estruturas das camas, com valor de R$ 90 cada, um valor abaixo de mercado. Os empresários doaram o colchão e jogos de cama.

aQui: A oposição diz que o senhor vai pagar uma fortuna pelo aluguel das tendas, qual o valor certo?

Samuca: Toda a estrutura física hospitalar terá um gasto mensal de cerca de R$ 270 mil. Mas não é um contrato longo; vamos pagar somente enquanto usarmos. É um valor muito barato para algo que não tem preço: salvar vidas. Até agora pagamos apenas R$ 20 mil com compras para combater a Covid-19. Será o hospital mais barato do Brasil, conforme comparação feita com outros hospitais de campanha que estão sendo anunciados. 

aQui:- Quando o hospital deverá receber o primeiro paciente?

Samuca:  Nós queríamos que nunca recebesse, que a cidade não tivesse nenhum contaminado nessa situação. Mas, infelizmente, teremos que utilizar o Hospital de Campanha. Acredito que a partir da próxima quarta-feira, dia 22, já tenha paciente na unidade.

Comparando

No final de março, o governador Witzel anunciou a construção de nove hospitais de campanha (veja lista abaixo) em todo o estado do Rio. A empresa contratada para cuidar da implantação e gestão das unidades provisórias foi o Instituto de Atenção Básica e Avançada à Saúde (Iabas) – uma Organização Social que está proibida de disputar (licitação) na cidade do Rio por dois anos, em razão de irregularidades financeiras e administrativas em UPAs da capital.

O contrato do Estado com a Iabas, para a gestão de dois mil leitos nos nove hospitais de campanha é de R$ 835,8 milhões. O valor, convenhamos, é mais que suficiente para construir nove hospitais permanentes em vários pontos do estado. O contrato emergencial foi realizado, sem licitação, por conta da declaração de calamidade pública e está na mira do Ministério Público. Aliás, o Estado tem até segunda, 20, para prestar contas ao MP sobre o contrato com a Iabas. Todos os hospitais têm previsão de inauguração no dia 30 de abril. Confira a lista:

* Hospital de Campanha do Maracanã, no Rio: 400 leitos, sendo 80 de CTI – valor não divulgado    

* Hospital de Campanha do Leblon, no Rio: 200 leitos, sendo 100 de UTI – R$ 45 milhões

* Hospital de Campanha de Jacarepaguá, no Rio: 200 leitos, sendo 50 de UTI – R$ 50 milhões

* Hospital de Campanha de Duque de Caxias: 200 leitos, sendo 60 de UTI – R$ 119 milhões



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