Barraco virtual

Vídeo de médico sobre pandemia abre polêmica na cidade

Por Roberto Marinho

A pandemia do novo coronavírus – que já dura praticamente nove meses no Brasil – com certeza está mexendo com os nervos de todo mundo. E o aumento no número de casos, que gerou o medo de estarmos enfrentando uma segunda onda de infecções – embora grande parte dos especialistas afirme que não saímos da primeira onda –, tornou tudo ainda mais tenso. Pode-se dizer que os nervos estão à flor da pele. Que o digam as autoridades de saúde de Barra Mansa.
O primeiro sintoma partiu, inclusive, do prefeito Rodrigo Drable que, para surpresa geral, atacou oficialmente o governo Samuca pela sobrecarga na rede de emergência da cidade. Só que não apresentou números que comprovam a sua teoria. O segundo foi pior. Envolveu um conceituado médico de Barra Mansa, o próprio secretário de Saúde da prefeitura local e uma funcionária do segundo escalão da pasta. Tudo por conta da segunda onda da Covid-19, que as autoridades negam estar ocorrendo.
O médico cardiologista Maurício Suckow Amaral Filho, filho do ex-prefeito Luiz Amaral, gravou um vídeo no dia 2 de dezembro alertando a população de Barra Mansa e região para o aumento nos casos da Covid-19. Pior. Da falta de vagas nos hospitais. O médico se referiu – nesta primeira postagem nas redes sociais, que viralizou – a pacientes de planos de saúde, que estariam tendo dificuldades para conseguir vagas nos hospitais da capital e outros locais do estado do Rio, e estariam sendo transferidos para Barra Mansa. Supostamente – a situação não ficou muito clara – ele estaria se referindo somente a pacientes e hospitais particulares. Embora tenha viralizado, não gerou tanto bafafá.
Quatro dias depois (6 de dezembro), o cardiologista gravou um novo vídeo, afirmando que a postagem seria uma continuação do alerta dado por ele mesmo dias antes. Desta vez, em tom ainda mais grave, o médico afirmou que pacientes estariam sendo transferidos “de uma UTI para outra, porque nem todas têm um respirador para cada leito”. Tem mais. Afirmou que a transferência dos pacientes estaria sendo dificultada porque não haveria ambulâncias suficientes em Barra Mansa para fazer a remoção dos internados.
Não satisfeito, o cardiologista afirmou que muitos hospitais da região estariam com “um furo grande” na escala de plantonistas, porque muitos médicos estariam doentes da Covid-19. Estariam se tratando nos hospitais, em casa, ou mesmo nas UTIs.
A questão é que em nenhum momento o profissional especificou de qual cidade, hospital ou rede – particular ou pública – ele estaria falando no novo vídeo. É como se alguém saísse gritando pelas ruas que está havendo um enorme incêndio, mas sem revelar onde seria, para que o fogo fosse controlado.
As postagens atin-giram em cheio o estômago de alguns integrantes do governo Rodrigo Drable. Responsável pela regulação das vagas do SUS (Sistema Único de Saúde) em Barra Mansa, Fernanda Chiesse, também de uma tradicional família local, deu o primeiro troco ao gravar um vídeo onde afirmou, entre outras, que estaria sendo procurada por familiares e amigos, desesperados com os alertas deixados pelo doutor Maurício Amaral, e querendo saber qual era a real situação dos leitos da rede pública na cidade. Segundo a servidora, a situação não seria nada desesperadora.
“Nós (Barra Mansa) temos 21 leitos de UTI, 7 leitos ocupados e 14 leitos disponíveis. Temos 69 leitos clínicos, 29 leitos ocupados e 40 leitos disponíveis. Temos 31 respiradores, dois ocupados e 29 disponíveis”, afirmou ela, completando que os esclarecimentos estariam sendo dados por causa do vídeo postado pelo cardiologista de Barra Mansa. “Eu decidi vir falar com vocês, pois foi postado um vídeo mais cedo por um médico, que eu tenho um respeito muito grande, falando sobre dados, né? Falando sobre o que está acontecendo, mas ele não explica se é da rede particular, se é da rede SUS”, disse ela, deixando claro que estava se referindo a todo momento à rede do SUS.
“A Covid tá aí, tá pegando todo mundo mesmo, mas eu não podia deixar de vir aqui falar com vocês, pra tentar dar uma apaziguada na situação, porque tá todo mundo nesse desespero, achando que não tem respirador. Foi falado até de transferência que não tem ambulância. Nós do município nunca deixamos de atender ninguém que precisasse de ambulância, nós temos ambulância sim”, finalizou.
Se a responsável pelas vagas do SUS em Barra Mansa tentou ser polida e didática em relação à mensagem de Maurício Amaral, este não foi o caso do médico Sérgio Gomes, secretário de Saúde de Barra Mansa. Em um áudio – recebido pelo aQui –, Gomes vai direto na jugular do cardiologista, afirmando que Maurício, que já foi ou ainda é seu amigo, teria feito parte do governo do ex-prefeito Jonas Marins. Ou seja, o alerta desesperado teria fins políticos.
“Em momento algum faltou ambulância ou respirador no município. Esse doutor aí, maluco e inconsequente, fdp (sic), pra não dizer outras coisas, não tem o direito de fazer isso, porque ele fez parte do governo do Jonas, onde não tinha monitor, respirador, não tinha mamografia, não tinha pré-natal, não tinha preventivo”, atacou Sérgio Gomes, afirmando ainda que o governo Jonas Marins, do qual Maurício teria feito parte, “destruiu a saúde do nosso município”.
Os “elogios” do secretário para o doutor Maurício não pararam. “No município não faltou respirador e muito menos ambulância. Isso é opinião de canalha, desse cidadão canalha, vagabundo e que não tem o que fazer!”, esbravejou o titular da Saúde, em tom destemperado. Pelo visto, não tem azitromicina, ivermectina ou vacina que dê jeito. O pessoal está precisando mesmo é de um bom chazinho de camomila.

‘Tudo tranquilo’
Para amenizar o arroubo do secretário de Saúde contra Maurício Amaral, a assessoria de imprensa do governo Rodrigo Drable atualizou os dados da Covid-19, para mostrar que Barra Mansa está conseguindo manter os leitos e equipamentos disponíveis para tratamento dos cidadãos acometidos pela Covid-19. Até a noite de domingo, 6, dos 12 leitos de UTI da Santa Casa, seis estavam ocupados. Dos 44 leitos clínicos, 16 estavam sendo utilizados e 28 permaneciam disponíveis. Já com relação aos respiradores, dois estavam sendo utilizados e 20 estavam à disposição.
No Centro de Triagem e Tratamento da Covid, na Região Leste, dos quatro leitos de UTI, apenas um estava em uso. Já dos 14 leitos clínicos, 12 estavam ocupados e dois disponíveis. “Exis-tem quatro respiradores na unidade. Todos estavam disponíveis”, frisou, anunciando que no hospital da Mulher, o único leito de UTI existente, ‘permanecia disponível’, sendo que outro leito, o clínico, estava ocupado. “A unidade é dotada de um respirador para pacientes com Covid ou suspeitos da doença. O aparelho estava disponível”, informou a assessoria. “Na UPA Centro, os quatro leitos de UTI existentes permaneciam disponíveis, assim como os 10 leitos clínicos e os quatro respiradores”, destacou.
“Traduzindo esses números, Barra Mansa tem 67% dos leitos de UTI vagos, 58% dos leitos clínicos disponíveis e 94% dos respiradores à disposição. Estes resultados são frutos de muito trabalho, dedicação e preocupação. Para se ter ideia, nossa cidade é a única no Sul Fluminense a realizar a testagem em massa. São cerca de 300 exames realizados a cada edição do evento. Nós já levamos os testes para os bairros mais afastados do Centro e vamos continuar este trabalho como forma, principalmente, de colocar em distancia-mento social aquelas pessoas que estão assintomáticas para a doença, mas transmitindo o vírus”, disse Sérgio Gomes no release enviado aos jornais.
O secretário ainda frisou que o transporte de pacientes em ambulâncias não teria sido afetado no município. “A secretaria de Saúde é a responsável pela regulação do transporte de pacientes do Sistema único de Saúde e, até o momento, o serviço está sendo realizado sem qualquer transtorno”, afirmou.
Detalhe: a rede de saúde de Barra Mansa realizou até o momento 25.199 testes para a Covid-19. Deste total, 5.109 deram resultados positivos e 19.713 foram descartados. Há 377 casos suspeitos da doença, 4.611 pessoas curadas e 190 óbitos.
Campanha de vacinação em março
Até o próximo domingo, 20, o estado vai receber oito milhões de seringas para aplicação da vacina contra o vírus da Covid-19, garantindo assim a primeira fase da vacinação. A estimativa é de imunizar 3,4 milhões de pessoas no estado. A informação foi divulgada pelo secretário de Estado de Saúde, Carlos Chaves, na quinta, 10, durante audiência pública da Comissão de Saúde da Alerj. Esta foi a segunda reunião realizada este mês para discutir ações de enfrentamento à pandemia. O secretário também antecipou que o governo já comprou, ao todo, 16 milhões de seringas.
“Em janeiro, devem chegar as outras oito milhões de seringas. A nossa previsão é começar a campanha de vacinação em março. Ela ocorrerá em quatro fases, e, neste primeiro momento, vamos priorizar os profissionais da saúde, idosos, população indígena, pessoas com comorbidades, professores, forças de segurança, funcionários do sistema prisional e população privada de liberdade”, pontuou. O secretário lembrou que as oito milhões de seringas serão o suficiente para aplicar duas doses para esta população prioritária.
A presidente da Comissão, deputada Martha Rocha (PDT), quis saber qual será a vacina comprada pelo estado. Em resposta, o secretário esclareceu que o governo está seguindo as orientações do Ministério da Saúde e aguardando a homologação da Anvisa. “A princípio, vamos usar a vacina produzida pela AstraZeneca, e ela deve chegar no Rio em janeiro. Se isso acontecer, vamos começar a campanha de vacinação ainda no primeiro mês do ano, mas o Ministério da Saúde trabalha com a previsão de entrega para março, por isso temos esses dois cenários possíveis”, justificou.
A deputada ainda questionou sobre o armazenamento da vacina. “Precisamos saber se o Rio já tem estrutura para receber esse medicamento, que precisa ser acondicionado em um local com baixíssima temperatura”, afirmou. Segundo o superintendente de Vigilância Epidemiológica da (SES), Mário Ribeiro, as vacinas da AstraZene
ca/Oxford precisam ser mantidas na mesma temperatura das vacinas já distribuídas no Brasil. Com isso, as geladeiras comuns já são suficientes. Caso seja a vacina da Pfizer, será preciso ter uma refrigeração especial.
“Ela (da Pfizer) exige um freezer que chegue a – 70 graus. Nenhuma vacina era preparada para ser armazenada nessa temperatura no Brasil. Então, nesse caso, teremos que encomendar espaços de armazenamento. Mas alguns representantes dizem que a Pfizer já está estudando uma forma de viabilizar também esse armazenamento”, justificou Ribeiro. Ele também informou que não há nenhuma indicação do Ministério da Saúde para vacinação de crianças. “Hoje, não seria possível vacinar menores de 18 anos e gestantes”, disse.
Durante a reunião, a coordenadora-geral de Articulação Estratégica de Vigilância da Secretaria Municipal de Saúde do Rio (SMS), Patrícia Guttman, antecipou que a prefeitura já tem um plano alinhado com o Ministério da Saúde. “Estamos acostumados com grandes vacinações, como a do vírus influenza. Só estamos aguardando receber as doses de vacina”, disse. Patrícia também explicou que o município só irá aderir ao plano nacional. “Nesse primeiro momento, a previsão é que sejam fornecidas, na capital, vacinas para 1,2 milhão de pessoas”, concluiu.
Leitos e atendimento
O estado do Rio conta com 17 milhões de habitantes e, atualmente, 91% dos leitos para Covid já estão ocupados, segundo a presidente da comissão. Sobre a oferta de vagas para internação, o secretário explicou que não há como funcionar sem um Sistema Único de Regulação.
“Descobrimos 380 leitos vazios nas unidades. Eles são do SUS, não dos hospitais. Estamos levantando também a quantidade de leitos nas unidades privadas”, informou. O secretário também anunciou a reformulação do Hospital Eduardo Rabelo, em Senador Vasconcelos, especializado em idosos. “A secretaria pretende reaparelhar e mudar a condução da gestão para atendimento global”, concluiu.

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