“Assédio moral: o que justificamos com a pandemia?”

Passada a mobilização inicial do início da pandemia, inúmeras empresas reinventaram seu modo de operação para não se perceberem estacionadas no tempo. Diante das mais diversificadas tecnologias, muitos aproveitaram o novo contexto, inicialmente inóspito, como alavanca para o ingresso na era digital. Home office, reuniões por aplicativos e e-mails se tornaram ferramentas cada vez mais amigáveis para os empreendimentos atuais.
Se a lógica que seguimos é a da produtividade, mais do que nunca, em uma época de crise, foi percebida a necessidade não parar.  Subordinados, com temor da dispensa, sentiram-se impulsionados a aumentar sua dedicação no serviço.  Patrões, receando o fechamento, foram estimulados a agir mais do que nunca. E os números confirmam tamanho empenho: grande parte dos negócios se sustentou. Mas a que custo?
Com a justificativa de manterem-se ativos, muitos colaboradores passaram a ignorar as barreiras de horário de trabalho. Se outrora considerávamos a jornada de oito horas diárias algo intenso, atualmente iniciamos ainda mais cedo e possivelmente não sabemos o momento certo de findar. Reuniões se multiplicam e se estendem. E-mails e mensagens são enviados a qualquer momento do dia.
De algum modo,o limite físico e cronológico que existia no emprego presencial se dissipou. A culpa e o medo geraram uma elasticidade laboral sem precedentes e, ao mesmo tempo em que encontramos desenvolvimento, percebemos também sujeitos consumidos e fatigados diante de uma rotina tão severa. Ao contrário do que se imaginava,trabalhar em casa exauriu ainda mais.
Nesse contexto, aumentaram os casos noticiados de burnout, ou seja, pessoas que sofrem de esgotamento físico e emocional relacionado ao excesso de afazeres. As crescentes cobranças e responsabilidades resultam em aumento do estresse e da depressão. O efeito observado pode ser oposto às expectativas exigentes e entusiasmadas dos meios de produção, e assim, surgem mais pessoas beirando o colapso.
Em meio ao cenário singular que desponta, se faz necessário que empregadores e empregados descubram novos meios de atuação. O olhar voltado para o lucro não pode se sobrepor a saúde física e mental daqueles que contribuem para o funcionamento da instituição. Da mesma maneira como incentivamos o engajamento no mercado de trabalho, é preciso não perder de vista o equilíbrio, e com ele, a necessidade de saber quando pausar.
Bruna Richter, é graduada em Psicologia pelo IBMR e em Ciências Biológicas pela UFRJ, pós graduanda no curso de Psicologia Positiva e em Psicologia Clínica, ambas pela PUC. Escreveu os livros infantis: “A noite de Nina – Sobre a Solidão”, “A Música de Dentro – Sobre a Tristeza” e “ A Dúvida de Luca – Sobre o Medo”. Bruna é ainda uma das fundadoras do Grupo Grão, projeto que surgiu com a mobilização voluntária em torno de pessoas socialmente vulneráveis, através de eventos lúdicos, buscando a livre expressão de sentimentos por meio da arte. Também formada em Artes Cênicas, pelo SATED, o que a ajuda a desenvolver esse trabalho de forma mais eficiente.

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