Arco-íris de sangue

Levantamento mostra que ataques contra LGBTs aumentaram com a Covid-19

Vinicius de Oliveira

No dia 10 de setembro de 2020, Leandro, de 37 anos, foi encontrado boiando nas águas do Rio Paraíba, nas margens que compreendem Volta Redonda. Na época, a Polícia chegou a ventilar a hipótese de que ele teria se suicidado, mas a família e os amigos mais próximos contestaram a teoria. Para o coordenador do ‘Volta Redonda Sem Homofobia (VRSH)’, Natã Teixeira Amorim, a história de Leandro é um caso clássico de homofobia que foi levado às últimas consequências: o assassinato. “Leandro não era depressivo, não tinha intenções suicidas e poucos dias antes de sua morte esteve com familiares, amigos e todos dizem que ele estava bem. Isso nos leva a crer que ele foi vítima de um ataque homofóbico”, avaliou Natã.
Um detalhe importante: Leandro mantinha um perfil no site pornográfico ‘X-Vídeos’ sob o pseudônimo de Lew Moreno, onde postava trechos de relações sexuais que mantinha com outros homens de Volta Redonda. Em um dos vídeos, que teve mais de 25 mil visualizações, um seguidor postou o seguinte comentário: “Gente, infelizmente o Lew morreu. Foi assassinado na cidade dele”. Uma dica e tanto para a Polícia começar a investigar, mas, cinco meses depois, nenhuma resposta foi dada. Até hoje, a família e os amigos não sabem por que exatamente Leandro foi encontrado sem vida nas águas do Paraíba.
Essa história é só mais uma que engrossa as estatísticas violentas contra a população LGBTQIA+. E nem o isolamento social, imposto pela pandemia, arrefeceu a violência. Ao contrário. Os números dispararam. A própria Organização das Nações Unidas (ONU) soltou em abril do ano passado um comunicado reconhecendo que a pandemia do corona-vírus “está exacerbando as dificuldades da população LGBT” e que essa minoria “muitas vezes encontra discriminação e estigmatização ao buscar serviços de saúde e é mais vulnerável à violência e outras violações de direitos humanos”.
No Sul Fluminense, o VRSH chegou a conclusões parecidas. Pela primeira vez na história desde sua criação, a ONG elaborou e apresentou um mapeamento preliminar da violência contra a comunidade LGBTQIA+ na região. O relatório chamou a atenção para o número de casos. Segundo o documento, no período entre 1º de janeiro de 2018 e 31 de dezembro de 2020, ao todo, foram registradas 18 ocorrências violentas. Dessas, 47,4% aconteceram em 2020. E o de Leandro está entre esses casos.
O método de pesquisa adotado pelo VRSH é parecido com o de outras instituições com abrangência nacional, como a ONG Gays da Bahia, por exemplo, que desde 1980 faz relatórios sobre a escalada da violência contra LGBTs a partir de notícias de jornais. “Todos os dados incluídos nesse relatório foram construídos de forma voluntária por meio de notícias publicadas em jornais e outros meios de comunicação, além de outras fontes de caráter sigiloso. Ressaltamos que os dados podem não refletir exatamente a realidade da violência homotransfóbica em nossa região, uma vez que nossa metodologia de trabalho possui limitações de capturar apenas aquilo que de alguma maneira se torna visível. É provável que os números reais sejam bem superiores”, pondera Natã.
Segundo o levantamento do VRSH, 2020 foi o ano mais violento para os homossexuais e transsexuais. “O Sul Fluminense registrou no período de 01 de janeiro de 2018 a 31 de dezembro de 2020, de acordo com dados apurados, cerca de 18 registros. Além do aumento dos casos de 2019 para 2020, nota-se que 2020 foi o ano mais violento com 8 vítimas (47,4%), sendo 5 assassinatos e 3 agressões se colocando na frente com 50% das vítimas fatais de todo período do mapeamento”, completou o coordenador da ONG, salientando que Volta Redonda é campeã de crimes contra a comunidade queer. “Nossa região é constituída por 15 municípios geograficamente e destaca-se no ranking o município de Volta Redonda com o maior número de ocorrências (44,4%), seguido de Resende (22,2%) e Barra Mansa (16,7%)”.
O mapeamento apontou ainda que 50% das vítimas possuem entre 15 e 29 anos. Ou seja, metade dos ataques homofóbicos são contra jovens e adolescentes. É o caso de Gregory, um barramansense que vem sofrendo ataques homofóbicos desde o Natal do ano passado por parte de um casal de vizinhos. “De manhã cedo, a dona da casa liga o rádio nas alturas, faz muito barulho e atrapalha o meu trabalho, que tem sido feito em home office. E nossa casa é geminada. Ou seja, qualquer ruído fica muito alto. Eu preciso até contar esse caso para você em voz baixa, pois eles podem me ouvir do outro lado”, contou Gregory.
“Resolvi conversar com a mulher e pedir para ela não fazer tanto barulho tão cedo. Mas ela não gostou do que ouviu e começou a me ofender, me chamando de ‘bichinha’, ‘viadinho’. E o pior é que, depois desse ocorrido, ela disse para o marido que eu a estava agredindo, ameaçando etc, e na época do Natal ele veio atrás de mim. Levei pedrada, empurrões e mais xingamento. Fui parar no chão. Ninguém arrancou sangue de mim, mas arrancaram a minha dignidade”, continuou Gregory, afirmando ter medo de permanecer no bairro. “Eles passam me encarando. Não tive coragem de fazer um boletim de ocorrência, mas hoje entendo a importância de não me calar”, avalia.
Embora o caso de Gregory não tenha entrado nas estatísticas do VRSH, pois a história estava no anonimato até então, ele corrobora os números apresentados por Natã. Segundo o mapa, as vítimas declaradas gays foram as que mais sofreram com a homofobia. “Os gays ainda representam o maior número de ocorrências em nossa região. Foram 66,7% dos casos, seguido das pessoas trans com 22,2% das ocorrências”, comentou Natã.
As agressões físicas do tipo sofrida por Gregory e outras piores, como o espancamento, são as principais formas de ataque contra os LGBTQIA+ (41,7%). Em seguida, armas de fogo (33,3%). Ainda se soma às estatísticas casos de facada (8,3%). “Os tipos de violência contra as vítimas refletem a mesma tendência de anos anteriores, predominando os assassinatos e outras formas brutais de agressão. Além disso, os ataques verbais também continuam em alta. Houve um aumento de 60% do ano passado para cá. Destaca-se também o crescimento das agressões via rede sociais”, informou Natã.

Velhices ignoradas: a longevidade dos LGBTQIA+ no Brasil

O gay idoso é mais solitário. Os heterossexuais ficam mais tempo casados; têm filhos e netos. Nós somos mais sozinhos. Sobre a idade, sofro mais preconceito por ser idoso do que pela homossexualidade”, afirmou José Victor, empreendedor, criador da Blue Space, em uma entrevista concedida em 2018 ao programa Chá dos Cinco. Como pesquisadora de Longevidade e Economia Prateada, estou sempre alerta a temas que permeiam o universo do envelhecimento populacional, sobretudo, os que envolvem análises de comportamentos sociais. E, esse depoimento, dá margem para muitas reflexões relevantes para o país.
Há anos tenho pensado sobre as velhices ignoradas. Quando analisamos o Brasil, vemos que o ageísmo – preconceito baseado na idade e que atinge, especialmente, os 60+ – tem comprometido a qualidade de vida, a saúde (física e mental), a empregabilidade e as políticas públicas voltadas aos maduros. Temos um contingente considerável de excluídos pela nossa fixação, como sociedade, pela juventude. Enquanto gastamos um tempo precioso de vida e de planejamento, falando sobre os Millennials, o mundo envelhece. E, nesse contexto, há os que são ainda mais prejudicados por essa miopia social. Estou falando dos LGBTQIA+.
Hoje, a população LGBTQIA+ reúne 3,1 milhões de brasileiros sessentões. Muitos, inclusive, vivem o que chamam de “a volta para o armário”. Depois de lutarem arduamente por direitos e serem aceitos na sociedade, ao envelhecer, esses indivíduos precisam se calar. Para se ter uma ideia da gravidade da situação, existem residenciais que não os aceitam; há famílias que os abandonam e serviços públicos que não os entendem. O criador da série Corpos que Resistem, Yuri Fernandes afirma, em entrevista à Folha de S.Paulo, que as gerações mais novas tendem a se afastar. “A juventude, tão cultuada, coloca a população idosa à margem dos círculos sociais. Ironia. Logo o grupo pioneiro na luta pelos direitos LGBT+ no Brasil e que, justamente por estar focado na própria sobrevivência, pouco pode pensar no futuro. Viveram uma ditadura. E, hoje, vivem outra velada”.
Em contrapartida, há os que saem do armário justamente na maturidade. A inglesa Barbara Hosking é um desses casos. Ela decidiu assumir a homossexualidade aos 91 anos. Funcionária pública durante décadas, ela viveu os tempos do conservadorismo e optou por se esconder; por viver uma vida que não era a dela para não sofrer ainda mais. O exemplo que oferece ao mundo, hoje, é extremamente poderoso e corajoso. Isso porque o idoso LGBTQIA+ sofre um duplo preconceito: são vistos como imorais e incapazes de realizar tarefas pela sociedade conservadora. Sofrer com esse preconceito é devastador de diferentes maneiras – o impacto é direto na saúde física e emocional. A solidão é a companheira de muitos diante desse cenário.
Ressalto que os homossexuais idosos estão assimilando crenças sociais negativas causadas pela opressão de desvalorização da sociedade. Em um momento de profundo questionamento social, temos o dever de repensar esses mecanismos de exclusão. Espero, em 2021, que a Hype50+ – empresa que fundei – possa trazer para o centro do debate as velhices excluídas, assim como outros atores do ecossistema. Como cidadã, espero pessoalmente contribuir para um debate propositivo que aponte caminhos inovadores e luminosos para uma nova geração de idosos LGBTQIA+ que vai surgir. A longevidade é para todos!
Layla Vallias – eleita em 2020 pela Forbes Under 30 como uma das jovens brasileiras mais influentes com menos de 30 anos, é mercadóloga de formação, com especialização em marketing digital pela Universidade de Nova York, e trabalhou com desenvolvimento de produto na Endeavor Brasil

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