Amargo remédio


Polyanna e Emanueli Porfírio

Não bastasse o aumento exponencial dos casos suspeitos e confirmados do novo coronavírus em Volta Redonda, o prefeito Samuca Silva está às voltas com um problemão para resolver. Envolve a gestão dos leitos para pacientes com Covid-19 nos hospitais São João Batista, Retiro, Idoso e até no Hospital de Campanha. Desde a última segunda, 27, a secretaria de Saúde perdeu o controle desses leitos, que passou a ser administrado pelo Estado. Na prática, isto significa que se tiver pacientes no Rio, ou em qualquer outra cidade fluminense, necessitando de internação e não houver oferta de leitos nessas localidades, eles poderão ser transferidos para os hospitais públicos de Volta Redonda. O voltarredondense, certamente, será prejudicado. 


O problema começou no final de março, quando o governo Federal prometeu pagar R$ 1.700,00 de diária por leito usado por pacientes com a Covid-19, em todos os hospitais públicos do Brasil. Para se ter uma ideia, o SUS paga apenas R$ 400 de diária. O aporte, na visão da União, seria para que cada prefeito equipasse seus leitos para atender as vítimas da Covid-19. Coube aos Estados fazer a relação de leitos por cidades, para que o financiamento fosse garantido aos municípios. Volta Redonda declarou possuir 161 leitos nos três hospitais públicos e ainda no de Campanha. O que Samuca não esperava era que o governador Witzel baixasse uma normativa tirando dos prefeitos fluminenses o controle da gestão dos leitos disponibilizados. 


  Na prática, Volta Redonda tem e não tem leitos para os pacientes da Covid-19. Isto porque a Central de Regulação do gabinete de crise para o enfrentamento do Coronavírus, recém-criada pelo governo do Estado, vai gerir os leitos do SUS nos hospitais públicos existentes em todo o território fluminense. Se os leitos da cidade do aço, por exemplo, forem todos ocupados por pacientes de fora, a Central de Regulação deverá encontrar leitos em outros municípios para atender o paciente de Volta Redonda que precisar de internação. Pode ser que seja em Barra Mansa, ou em Campos. 
​Para não ouvir reclamações, o governo do Estado garante que ninguém ficará descoberto. Mas é bom lembrar que existe uma fila de cerca de 300 pessoas suspeitas de infecção por coronavírus no Rio e na região metropolitana aguardando um leito de UTI. Eles até são transferidos, em casos graves, para o Hospital Regional. Mas, quando este ficar cheio, os pacientes serão transferidos para o São João Batista, Retiro e de Campanha.
           

Em entrevista ao programa Dário de Paulo, Samuca falou sobre o assunto. Disse que o governo equipou leitos para pacientes com a Covid-19, montou o Hospital de Campanha para o munícipe que precisar e vai brigar para que não perca a gestão destes leitos. “A nossa situação de ofertas de leitos ainda é confortável frente aos índices de confirmação e notificação do coronavírus. Mas nós estamos muito preocupados com as últimas decisões do comitê de crise do Estado, que possibilitou a ocupação de leitos com gestão estadual. Já estamos verificando a adoção de medidas (jurídicas), porque Volta Redonda fez a sua parte, e muito bem feita, em termos de planejamento e não pode ser penalizada pela ocupação de leitos com pacientes de outras cidades. Falo isto com todo o respeito aos outros municípios. Mas eu sou o prefeito de Volta Redonda”, disse.

Visivelmente aborrecido com a normativa estadual, Samuca diz não concordar que o Estado assuma a gestão dos leitos municipais. “Estamos blindando Volta Redonda para evitar o recebimento de pacientes de outras regiões. Queremos que nossos leitos sejam para os moradores de Volta Redonda. Vamos tomar medidas judiciais para proteger a nossa rede de Saúde. Vamos fortalecer as barreiras nas entradas da cidade com vistas a proteger o nosso cidadão”, avisou.


​O esforço, porém, pode ser em vão. É que uma fonte ouvida pelo aQui disse que uma vez que os gestores municipais declararam um quantitativo de leitos para atendimento da Covid-19, recebendo recursos do SUS para equipar esses leitos, o controle pelo uso sai das mãos do município. Ou melhor, do prefeito.

“O problema é global. Estamos diante de uma pandemia que atingiu o mundo. Determinado município recebeu recursos para equipar os leitos que o gestor declarou que tem. Só que, no momento, você não tem doentes suficientes para ocupar esses leitos. É lógico que se teu vizinho tem uma fila de pacientes lutando para sobreviver, necessitando de um respirador, ele vai ocupar o teu leito. Juiz nenhum tomará uma decisão contrária a isto. O SUS não tem fronteira dentro do Brasil. Ele é pra todos e município nenhum vai poder negar atendimento, principalmente se ele recebeu recursos para isto”, avalia a fonte. 

Ela foi além. Disse que muitos gestores, no desespero de receber os recursos do SUS, declararam uma quantidade enorme de leitos, considerando até os dos Hospitais de Campanha. “Não sei se passou pela cabeça deles esta possibilidade, de perder o controle da gestão, o fato é que isto aconteceu. É um tiro no pé. Você não morre, mas sai mancando”, comparou. 


​Procurado pela reportagem do aQui, Samuca disse que os números do coronavírus na cidade do aço estão aumentando e a preocupação em não conseguir ofertar um leito para o munícipe cresce, na mesma proporção da doença. Até o fechamento desta edição, a secretaria de Saúde havia confirmado 395 casos e registrado outros 1.203 suspeitos. Há ainda 184 curados e 74 pacientes internados nos hospitais públicos e privados. 

Sobre óbitos, os números do município não batem com os da SES: 11 mortes foram confirmadas pelo Estado, mas a estatística revela que os números podem ser bem maiores. Um levantamento feito pelo aQui, com dados oficias da prefeitura, mostra que, só no Hospital Regional, 18 pessoas morreram durante o mês de abril – o quantitativo refere-se a pessoas que foram sepultadas em Volta Redonda. A unidade, vale lembrar, é referência no estado no atendimento a pacientes com Covid-19. Logo, os óbitos registrados no Regional têm grandes chances de serem em decorrência da doença.   

Volta Redonda declarou 161 leitos para Covid-19, na rede pública de saúde. São 25 leitos de UTI e/ou Sala Vermelha e 156 leitos de enfermaria, distribuídos da seguinte maneira:

Escondendo geral

​A falta de transparência sobre o que acontece no Hospital Estadual (Regional de Volta Redonda) anda provocando desconforto em políticos, familiares de pacientes internados, prefeitos e até no Ministério Público. Essa semana, duas ações isoladas envolvendo a unidade do Roma ganharam espaço nas redes sociais e na imprensa. A primeira foi a instalação de uma central de atendimento telefônico, dentro da unidade, para manter chamadas de parentes dos internados. A segunda foi uma visita surpresa do deputado estadual Marcelo Cabeleireiro. “Encontrei um ambiente tranquilo, sem aglomerações”, relatou o parlamentar de Barra Mansa. 

​Segundo Cabeleireiro, os profissionais de saúde que atendem no Hospital Regional estavam equipados com EPIs e as baixas ocorridas pelos pedidos de demissões no início da abril já teriam sido solucionadas com novas contratações. Ele contou ainda que os pacientes que morrem são levados para os morgues (necrotério do hospital) até a chegada dos carros funerários e que a espera fez com que a capacidade ficasse acima da média. “O hospital é gerido pelo governo do Estado (…) Não se pode rejeitar atendimento a alguém que necessita só porque não mora na região. Estamos lidando com vidas”, postou no Facebook. 

​Sobre a central de atendimento telefônico, o serviço foi pedido pelo Ministério Público à 3ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva de Volta Redonda, que obrigou a criação da central. A partir daí o Hospital instalou seis linhas telefônicas para atender os parentes dos internados, das 14 às 18 horas, com os seguintes telefones: (24) 3341-8614, (24) 3339-6845 e (24) 99238-7696, caso não consigam contato, outras linhas disponibilizadas aos parentes dos pacientes são as seguintes: Assistente Social (24) 3339-6159, Ouvidoria (24) 3339-6841 e Recepção (24) 3339-6844.

Cismepa

Em busca de informações oficiais sobre o Hospital Regional, o aQui entrou em contato com representantes do Cismepa – o Consórcio Intermunicipal de Saúde do Médio Paraíba. E pedimos o número de internados em enfermarias, nas UTIs, números de óbitos, média diária de internação, participação dos 12 municípios no financiamento do hospital e ainda a oferta de leitos para pacientes não Covid-19. De um total de 12 perguntas, só 7 foram respondidas, sempre da mesma maneira: “A responsabilidade de emissão dos informes oficiais é da Secretaria de Estado da Saúde, gestor do HRZA”. 

​As demais perguntas foram respondidas de forma rasa. Como, por exemplo, a que questionou sobre o financiamento do Hospital Regional e o que tem sido feito para resolver o problema dos pacientes portadores de outras doenças que necessitam de atendimento de média e alta complexidade no Hospital Regional. Sobre o financiamento, a resposta foi de que a Secretaria de Estado de Saúde realiza, sozinha, a manutenção da unidade. E sobre a oferta de leitos para pacientes que não têm Covid-19, o Cismepa informou que o secretário de Estado da Saúde, Edmar Santos, na última visita à região, “prometeu a publicação de outro edital para a contratação de leitos de terapia intensiva para pacientes com outras patologias não Covid-19”, e que, até a presente data, não havia respostas. 

​Outro questionamento ao Cismepa foi sobre a ocupação de leitos no Hospital Regional por moradores do grande Rio e outras regiões do estado. O consórcio tem ciência da importância do hospital para a região e se preocupa com a ocupação da unidade por pacientes de outras regiões fluminense. “Obviamente, existe uma preocupação sobre a ocupação do hospital com pacientes oriundos de outras regiões do Estado, mas mantemos um compromisso com a Secretaria de Estado da Saúde para uma reserva técnica de leitos para os pacientes da região. Paralelamente, temos participado de outros fóruns técnicos e estamos acompanhando os processos de implantação de novos leitos em outras regiões do Estado do Rio, que, por conseguinte, irá diminuir a demanda de outras regiões para o HRZA”, informou.

‘Cumprimos o nosso papel’

Procurado para falar a respeito da normativa do Estado, o prefeito Samuca Silva contou que Volta Redonda tem apenas 18 leitos específicos para tratamento da Covid-19. Ou seja, não considera outros 143 leitos distribuídos em vários pontos da atenção à saúde local, dentre eles o próprio Hospital de Campanha, cujos 114 leitos são para casos de média complexidade.


Confira a entrevista na íntegra.
aQui: O Estado baixou uma normativa criando uma central de regulação para pacientes com Covid-19 e pediu um levantamento de leitos aos municípios. Quantos Volta Redonda declarou?
Samuca: Volta Redonda tem 18 leitos específicos para tratamento de Covid-19. Mas estamos avaliando diariamente e dependendo do andamento da doença podemos avançar mais e abrir novos leitos.


aQui: O senhor está ciente de que esses leitos serão regulados pelo Estado e o município corre o risco de receber pacientes de outras cidades Fluminense?
Samuca: Nossa cidade cumpriu seu papel e preparou a rede de saúde. E diante disso digo que nossos leitos serão destinados ao nosso morador, ao povo de Volta Redonda.


aQui: Muitos gestores foram atraídos pelos valores oferecidos pelo governo Federal por cada leito. Mas não pensaram nas consequências. Isto aconteceu em VR?
Samuca: Solicitamos leitos adicionais ao Ministério da Saúde, entretanto não responderam na totalidade dos leitos. Desta forma, nossa capacidade de atendimento médico e de leitos são oriundos da gestão municipal, ou seja, da prefeitura de Volta Redonda.


aQui: Hoje, existiria uma média de 300 pacientes no Rio aguardando vaga em leito de UTI. Como garantir que os leitos de VR serão usados apenas por voltarredondenses?
Samuca: A questão legal está sendo verificada pela Procuradoria Geral do Município para garantir que o planejamento da cidade possa continuar, privilegiando sempre nossos moradores de Volta Redonda.

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