A infância (des) respeitada

A morte de uma criança sempre nos choca. Ainda assim, a história está repleta de casos de crianças que foram mortas pelos seus genitores ou por seus companheiros. Algumas sofrem anos de abusos e maus tratos que vão desde a violência física e psicológica, até a privação do alimento. São deixadas a própria sorte até que desistem de viver.
No Brasil, as estatísticas sobre essas ocorrências de violência infantil ainda são muito falhas. A Sociedade Brasileira de Pediatria informa que do total de casos notificados na saúde sobre violência contra crianças e adolescentes, 69,5% (59.293) são decorrentes de violência física; 27,1% (23.110) de violência psicológica; e 3,3% (2.890) de episódios de tortura. A pesquisa não considerou variações como violência e assédio sexual, abandono, negligência, trabalho infantil, entre outros tipos de agressão. São agressões contínuas que só são levadas aos locais de atendimento “quando a violência assume proporções graves”.
O certo é que esse tipo de violência nem sempre acontece em ambiente familiar, não começou no dia em que a morte se concretizou e, quase sempre, a criança emite sinais de que alguma coisa não vai bem. O Guia de atuação frente a maus-tratos na infância e na adolescência, publicado pela Fiocruz em 2001, destaca alguns sintomas típicos de crianças vítimas de violência e maus-tratos, que podem identificar sinais de maus-tratos ou violência infantil. Pais e responsáveis devem estar atentos a alguns sinais como manchas na pele, hematomas, cabelos arrancados, mordidas, ferimentos, fraturas constantes, entre outros.
Muitas vezes, a criança faz repetidas queixas contra alguém ou sobre alguma situação e são rotuladas como “birrentas”, “malcriadas” ou “sem educação”. Os pais e responsáveis devem levar em consideração o que a criança diz!  Ouvir com respeito a sua queixa, dar atenção e verificar a veracidade ou não dos fatos relatados e, se for necessário, levá-la ao médico, mas nunca desconsiderar o seu relato nessas situações.
O abuso sexual também é uma grande preocupação dos pais e responsáveis. Segundo dados da Agência Brasil em 2019 foram mais de 17 mil denúncias de violência sexual contra menores de idade. A maioria desses abusos ocorreu na casa do abusador ou da vítima. Esse tipo de violência traz consequências físicas, emocionais, sociais e comportamentais trágicas para a criança. Por isso, estejam atentos às mudanças súbitas no comportamento como dificuldades de aprendizado, fugas de casa, queixas psicossomáticas, fobias, pesadelos e rituais compulsivos, entre outros. São alguns sinais de que algo não vai bem.
Ainda existem os maus-tratos psicológicos, tão ou mais graves que a violência física e que podem acarretar resultados desastrosos na vida de uma criança.  Os sintomas e transtornos que aparecem não são específicos e podem se manifestar em longo prazo, em casa ou na escola, a partir de outros distúrbios físicos e emocionais. Nesse sentido, a família e a criança precisam de ajuda e tratamento o quanto antes, junto com profissionais habilitados.
A infância deve ser protegida, sim! E cabe a nós, adultos, pais, mães, tios, vizinhos, educadores, legisladores, proteger, ouvir, acolher e repudiar toda forma de abuso e maus-tratos que possam tirar o brilho de uma fase tão importante da nossa existência! Temos a obrigação de criar todas as condições para que cada criança tenha o seu direito à vida protegido e mantido, a fim de garantirmos uma sociedade melhor e mais justa no futuro.
(*) Maristela dos Reis Sathler Gripp é doutora em Estudos Linguísticos e professora do Curso de Letras  do Centro Universitário UNINTER

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