A crise na mesa do trabalhador

A inflação voltou a assombrar os brasileiros. Elevada e persistente, ela corrói o poder de compra do consumidor e alimenta uma mudança de comportamento. Para driblar o aumento dos preços, as pessoas estão adotando novos hábitos de compra, priorizando o essencial.
O consumo de carne bovina, por exemplo, atingiu o menor nível dos últimos 25 anos. Uma queda de mais de 4% de consumo per capita de carne bovina só nos primeiros quatro meses deste ano, comparado com o ano passado. Os brasileiros estão comprando menos, mas gastando mais. É o aumento do custo de vida que atinge em cheio os mais pobres.
A variação cambial e o aumento do preço das commodities explicam a alta dos alimentos, entre outros fatores. E a queda na renda provocada pela pandemia só agrava a situação de famílias vulneráveis, que não têm o suficiente para se alimentar.
O auxílio-emergencial tem sido o socorro para muitas famílias. Mas com seus valores baixos, que atualmente não passam de R$ 375,00, o benefício ajuda pouco na compra de alimentos e gás necessários para o sustento familiar.
}Garantir o acesso de todos a uma alimentação equilibrada passa longe de simplesmente aproveitar a comida desperdiçada pela classe média. É necessário um consistente pacote de medidas econômicas para conter os impactos no preço dos alimentos, formado a partir da influência de diversos fatores externos, como a compra de produtos em dólar.
Por outro lado, a recuperação da economia e a abertura de novos postos de trabalho são o caminho para garantir mais renda ao trabalhador. Principais afetados pela alta dos preços, os mais pobres também sofrem com o desemprego recorde: o país tem hoje mais de 14 milhões de desocupados. E os principais afetados são os que têm menos escolaridade e que atuam na informalidade.
O acesso ao mercado de trabalho é umas das principais formas de combate à pobreza. E a retomada da economia é fundamental nesse processo. Com a pandemia ainda fora de controle, é preciso priorizar a vacinação para garantir o funcionamento pleno das atividades econômicas.
Para diminuir as desigualdades sociais é necessário fazer mais do que garantir emprego. Sem dúvida o trabalho contribui com a redução da pobreza, mas é preciso um compromisso fundamentado em metas e objetivos para promover a redução da desigualdade a longo prazo.
Rogério Araújo é gestor e consultor financeiro, especialista em investimentos e fundador da Roar Educacional Consultoria
“Como chamar de bala perdida, se ela sempre encontra o mesmo endereço”, por Bruna Richter, psicóloga
Dia após dia escutamos notícias, provenientes das mais diversas fontes, de mortes oriundas de balas perdidas. É algo que já ouvimos com uma constância tão elevada que tendemos a naturalizar. Já não nos escandalizamos ou hor-rorizamos frente àbarbárie que é a perda daexistência diante de um fim tão cruel. E o que mais chama atenção, de forma alarmante, é que esses tiros parecem ser guiados sempre para os mesmos corpos – pretos e pobres.
A inequidade no Brasil não parece espantar, mas a forma como diferentes grupos são tratados historicamente se torna cada vez mais difícil de entender. Em meio às mais inescrupulosas desculpas – de diminuição da criminalidade, da busca pelo bem comum, da eliminação de todo o mal – justifica-se a selvageria sem medidas. Autoriza-se o extermínio de pessoas já tão marginalizadas e segregadas do convívio social.
É autorizado veladamente que essa minoria seja abafada em detrimento de algo maior – como se houvesse, de fato, algo mais grandioso do que as próprias vidas que estão em questão. Sucessivamente nos deparamos com o aumento grotesco de homicídios, que apesar de serem chamados de fatalidades em geral, têm notadamentesua prevalência nas mesmas classes menos favorecidas.
A hierarquização da existência é extremamente desumana e impõe um fim trágico e precoce a histórias lindas e potentes. Ignorar a diferença de tratamento destinada aos que vivem em comunidades é mantê-los realmente na periferia da sociedade. É sentencia-los ainda mais. Já não há mais a possibilidade de fechar os olhos para a forma inescrupulosamente desigual com que esses sujeitos são tratados.
É preciso não se conformar. Buscar ativamente, na prática cotidiana, formas de retratação com aqueles que já são tão privados do que há de mais básico. Respeitar direitos primários na tentativa de minimizar o pavor e a angústia que enovela quem vive essa realidade. Não se acovardar diante do que parece imposto e levantar a voz, fazendo ecoar a noção da necessidade de valorização da vida, nas suas mais diversas formas.
Sobre a autora
Bruna Richter é graduada em Psicologia pelo IBMR e em Ciências Biológicas pela UFRJ, pós graduanda no curso de Psicologia Positiva e em Psicologia Clínica, ambas pela PUC.

 

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