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Nem todo branco é racista

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*Du Prazeres

A sociedade brasileira é extremamente machista. Eu tenho dois filhos, meninos, que procuro educar mostrando que homens e mulheres são iguais e como iguais devem ser tratados. A manutenção de uma estrutura sexista, no mercado de trabalho, amplia a possibilidade de conseguirem bons cargos. Terão privilégios nos processos seletivos — ninguém pergunta, ainda que de forma indireta, a homens em uma entrevista de emprego se pretendem engravidar. Ensinar que este favorecimento é desleal e antiético é minha função como pai — e como homem — preocupado com a melhoria das condições sociais. Eles vão perder privilégios, mas a sociedade será mais justa.

Com o racismo é a mesma coisa. Durante muito tempo, a luta contra o preconceito racial foi equivocadamente vista, por muitos, como uma pauta identitária exagerada, comumente chamada de mimimi. No entanto, o racismo não é um fenômeno natural; é uma construção social e sistêmica que estrutura privilégios e desvantagens.

É uma instância de poder criada e sustentada pelos brancos que, por isso, têm o dever ético de atuarem ativamente na sua desconstrução. Não basta mais se ancorar em frases feitas e ridículas como: “tenho amigos negros” ou “os negros são mais racistas que os brancos”. Em uma sociedade estruturalmente desigual, a neutralidade acaba sendo uma forma de conivência. Não ser racista, mas ser cúmplice de racismo, ao final, é a mesma coisa.

Abraçar o discurso antirracista exige que o indivíduo branco saia da zona de conforto e reconheça sua branquitude como um lugar de privilégio simbólico e material. O antirracismo não é sobre culpa, que é um sentimento paralisante, mas sobre responsabilidade, que funciona como um motor para a mudança real.

O primeiro passo nessa jornada é a escuta ativa. É fundamental ceder o protagonismo, ler autores negros e compreender que a vivência branca não é o padrão universal. No entanto, esse compromisso deve transbordar para a prática cotidiana através de ações concretas, como interromper o silêncio ao questionar piadas racistas, promover a equidade ao cobrar diversidade em cargos de liderança no ambiente de trabalho, buscar entender como o racismo opera de forma velada em processos de contratação, no acesso a espaços públicos e no nosso dia a dia.

Reconhecer o próprio privilégio e usá-lo para abrir portas e derrubar muros é o ato mais honesto e corajoso que uma pessoa branca pode realizar hoje. Nós negros precisamos de vocês brancos nesta batalha. Mexam-se.

* Du Prazeres é autor do livro “Quilombo: contos e receitas”, professor universitário, pós-doutor em Letras

 

O sorriso de Trump

Precisa ser bem tupiniquim para se orgulhar de pegar uma comitiva federal, com despesas de milhões, atravessar um oceano para forçar um sorriso de um presidente, mesmo que seja o dos Estados Unidos.
O noticiário de todas as redes de televisão, até daquelas que detêm o monopólio, gira em torno do sorriso, de como ocorreu o aperto de mão e do tour da comitiva brasileira na Casa Branca.
Fica secundário o fato de que nada foi tratado nem acordado sobre as terras raras, que o Brasil ainda não explora em nenhum palmo de seu território; sobre as denominações de organizações criminosas brasileiras como terroristas pelos Estados Unidos; e sobre a forte atuação da Polícia Federal, uma mentira deslavada, na prisão de Alexandre Ramagem. Mesmo que fosse, o que sempre tem sido, não foi elaborado nenhum mero manuscrito de intenções.

Agiu com o folclore de sempre. Ninguém lembra quando o presidente da República se juntou a alguns chefes de Poderes para anunciar um pacto contra os feminicídios. Não havia nada, absolutamente nada, de concreto a ser apresentado na hora e, até agora, nada foi feito, além das fotos para tentar ganhar votos.

Agora, empolgado, como sempre, com suas lorotas presidenciais e com seus asseclas da imprensa de sempre, promete acabar com o crime organizado. Nem se dá conta de que está, sozinho, no poder há 12 anos, com mais seis de seu poste feminino e dois do vice dela. São vinte anos administrando a União, e ainda faz promessa como se fosse tentar o governo pela primeira vez.

Se houvesse combate ao crime comum, acredito que ele nunca se tornaria organizado.
Essa violência descontrolada vem crescendo desde governos anteriores aos do atual presidente. Foi nessa crescente que, em 1997, o Brasil ultrapassou os 40 mil assassinatos por ano e, até 2023, ininterruptamente, ainda estava acima disso. Acompanho o número de assassinatos no Brasil pelo Atlas da Violência, do IPEA, que parece que não vai divulgar os números de 2024 até passar as eleições.

Até a última publicação, de 2023, no total dos nove anos de governos Lula, tinham sido assassinadas 447.997 pessoas. O ano de menor número foi exatamente 2023, com 45.747. Ainda assim, o presidente se sente autorizado a falar sobre os genocídios de outras guerras, que matam bem menos do que o Brasil em sua plena paz. Os números de outros crimes graves são igualmente assombrosos.
Nada disso foi tratado com o presidente americano, e toda a preocupação é que a classificação das organizações criminosas não passe a ser a de grupos terroristas pelos Estados Unidos, o que poderia possibilitar uma intervenção dos americanos no território nacional.
E o argumento é sempre a soberania, especificamente a não intervenção de outros países, já que soberania não existe para mais de 23 milhões de brasileiros dominados e subjugados por organizações criminosas. O gás, a água, a internet, todos os serviços são obrigatoriamente contratados desses grupos criminosos.

E agora vão descobrindo, aos poucos, que algumas empresas de ônibus da maior cidade brasileira também pertenciam ao crime, e as ramificações são infinitas. Faltam apenas serem reveladas. O próprio presidente disse que elas estão ramificadas em todos os Poderes e em todas as instituições públicas.

Mas João Ubaldo Ribeiro perderá a exclusividade de um livro com o título “O Sorriso do Lagarto”, pois terá, em 2026, um concorrente curricular intitulado “O Sorriso de Trump”.
Toda incompetência traz como escudo sempre gracejos sem a menor graça. Mas a imprensa nacional vai além do sorriso inédito e enaltece até como foi assertivo o aperto de mão do americano no presidente brasileiro.

Pedro Cardoso da Costa
“NÃO EXISTE DEMOCRACIA ONDE O VOTO É OBRIGATÓRIO”

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