Entre o “plilin” e o foguete

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Por Ademar Batista Pereira

Há algo profundamente simbólico no fato de que, em poucos dias, o noticiário brasileiro tenha sido ocupado por duas manchetes tão distintas — e, ao mesmo tempo, tão reveladoras sobre o país que estamos construindo.

Enquanto o mundo acompanhava mais um pouso controlado de foguete da empresa de Elon Musk, no Brasil, mais de um milhão de pessoas ficaram sem água após uma égua morta entupir uma adutora. Pouco depois, o Tribunal Superior Eleitoral lançou o mascote das eleições brasileiras: “plilin”. À primeira vista, os episódios parecem apenas curiosidades desconexas do fluxo acelerado de notícias que domina a internet. No entanto, quando observados em conjunto, acabam funcionando quase como um retrato simbólico das prioridades, fragilidades e contradições brasileiras.

Os países revelam muito sobre si não apenas pelos discursos que produzem, mas pelos problemas que toleram, pelas soluções que priorizam e pela maneira como escolhem se comunicar com a população. Em um momento em que boa parte do mundo discute inteligência artificial, produtividade, autonomia energética, integração tecnológica e corrida espacial, o Brasil continua frequentemente preso a questões estruturais básicas, convivendo com infraestrutura precária, baixa capacidade de execução e uma burocracia que muitas vezes reage aos problemas em vez de antecipá-los.

O brasileiro, historicamente, aprendeu a transformar o caos em humor. Memes, ironias e piadas surgem quase instantaneamente diante de qualquer crise nacional. Existe criatividade nisso e até um certo mecanismo coletivo de sobrevivência emocional diante do absurdo cotidiano. O problema começa quando o humor deixa de ser apenas reação e passa a funcionar como anestesia social, criando uma sensação de normalidade diante de situações que deveriam causar indignação mais profunda.

Uma adutora parar porque um animal ficou preso em sua estrutura não representa apenas um acidente isolado ou uma fatalidade improvável. O episódio evidencia falhas de manutenção, ausência de monitoramento eficiente e uma cultura histórica de gestão reativa. O centro do problema não é a égua, mas a fragilidade de sistemas essenciais que seguem funcionando no limite até que algo inevitavelmente colapse.

O mesmo vale para a comunicação pública e política. Não há problema em tornar a linguagem mais acessível ou buscar aproximação com a população. Democracias saudáveis dependem de comunicação eficiente. Mas existe uma diferença importante entre simplificar e infantilizar. Quando o debate político passa a depender excessivamente de mascotes, slogans e linguagem performática, corre-se o risco de transformar cidadania em entretenimento e participação pública em consumo superficial de campanhas.

Enquanto isso, o restante do mundo acelera em ritmo cada vez mais agressivo. Países disputam liderança tecnológica, ampliam investimentos em educação, inteligência artificial, infraestrutura e produtividade, enquanto o Brasil ainda parece frequentemente aprisionado entre improviso, superficialidade e baixa capacidade de planejamento de longo prazo. O nosso maior desafio talvez nem seja tecnológico. Antes disso, é um desafio de mentalidade, organização e visão de futuro.

O futuro das nações dificilmente será definido apenas por território, recursos naturais ou tamanho populacional. Cada vez mais, ele será determinado pela capacidade de organização institucional, qualidade educacional, planejamento estratégico e eficiência na execução de políticas públicas. E talvez essa seja a grande questão brasileira neste momento histórico: queremos ser um país que discute seriamente o futuro ou continuaremos especializados em reagir ao atraso com resignação bem-humorada?

Porque foguetes não pousam de ré por acaso. Existe ciência, investimento, formação técnica, planejamento e obsessão por eficiência por trás de cada avanço tecnológico relevante. E talvez seja justamente isso que ainda falte ao Brasil: menos improviso performático e mais projeto de país.

Nesse contexto, 2026 pode representar uma das janelas mais importantes das últimas décadas. Mais do que uma simples disputa eleitoral, o país terá diante de si a necessidade de decidir qual direção pretende seguir. Permaneceremos presos à lógica da reação permanente, da superficialidade e da gestão improvisada, ou finalmente construiremos uma cultura política e institucional baseada em planejamento, produtividade e visão de longo prazo?

O futuro não será construído por slogans, personagens virais ou discursos vazios. Ele será construído por capacidade técnica, visão estratégica, investimento consistente e liderança preparada para compreender a complexidade do mundo contemporâneo. Afinal, foguetes não pousam de ré por acaso.

Ademar Batista Pereira é presidente do Instituto Destino Brasil

 

O Reality Show da Política Brasileira

No Brasil, ser político é tão simples quanto virar coach motivacional. Não precisa de diploma, não precisa de experiência, não precisa de nada além de uma boa dose de cara de pau. Basta acordar um dia e pensar: “Que tal ser vereador? Ou melhor, presidente? Parece divertido, paga bem e ainda me chamam de excelência!”. É a profissão dos que não passaram em concurso, despreparados e incompetentes, não tiveram coragem de abrir um negócio, ou simplesmente cansaram de ser inúteis sem título. 

Grande parte dos que ingressam na vida pública não o fazem por vocação ou competência, mas por conveniência. Há os que não conseguem se estabelecer em carreiras honestas, os empresários que buscam resolver problemas particulares de suas empresas, os aposentados, advogados, médicos, professores, delegados, militares etc. que buscam o cabide de emprego e as benesses públicas, e aqueles políticos que não largam o osso porque acreditam ser indispensáveis. Esquecem que o cemitério está cheio de ex-políticos cuja ausência jamais foi sentida.  

Se fosse possível, substituiríamos todos por inteligência artificial. Ao menos, a IA não pediria reembolso de gasolina, não faria rachadinha, não pediria dinheiro a banco para financiar filmes de familiares políticos e não confundiria a Constituição com receita de pão de queijo. Mas como ainda não chegamos lá, resta imaginar uma solução mais plausível: criar um curso obrigatória para políticos. Um ano de curso intensivo, com aulas de economia (spoiler: não se governa só com “fé em Deus”), ética (a disciplina mais difícil) e Constituição (não, não é manual de churrasco). 

Para presidenciáveis, o currículo seria ainda mais caprichado: inglês básico (sem direito a popcorn), boas maneiras (como não dar tapinha nas costas da Rainha) e diplomacia internacional (aprender que tratados não se negociam como abacaxi na feira). Também seria necessário um curso de apresentação pessoal.  Afinal, política não é capa de super-herói e faixa presidencial não é fantasia de escola de samba. 

Enquanto essa profissionalização não ocorre, seguiremos elegendo figuras medíocres, mitômanos e oportunistas, reflexo não apenas da incompetência de candidatos, mas também da incapacidade do eleitorado de distinguir liderança de entretenimento. O futuro da política brasileira depende sobretudo da maturidade de seu povo. 

Júlio César Cardoso
Servidor federal aposentado