Antes, vestir a camisa amarela unificava o país. Hoje, a Seleção Brasileira espelha nossa fragmentação política
Por Christian Lohbauer*
A divulgação da lista de convocados da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo sempre provocou debates. É natural que assim seja: trata-se de um momento único em que expectativas esportivas, preferências pessoais e avaliações técnicas se encontram. O que chama atenção neste ano, porém, é que a discussão extrapolou os limites das quatro linhas.
Com Neymar confirmado entre os representantes do Brasil, o debate em torno de seu nome não se encerra. Ao contrário, revela uma transformação mais profunda na sociedade brasileira. Para o torcedor, já não basta apenas saber se o jogador reúne condições técnicas para disputar mais um Mundial. O que está em jogo é o significado atribuído a ele.
Tenho observado que a polarização política no país ultrapassou o ambiente tradicional das disputas eleitorais e começou a entrar em espaços que, historicamente, funcionavam como pontos de convergência nacional. A Seleção Brasileira é, talvez, o exemplo mais emblemático desse processo.
Durante décadas, vestir a camisa amarela foi um gesto que unificava o país. Diferenças políticas, sociais, regionais e até religiosas eram momentaneamente suspensas em prol de um sentimento coletivo. Hoje, esse espaço simbólico também ficou tensionado.
O caso de Neymar é ilustrativo. A partir de seu posicionamento político público, especialmente nos últimos anos, o atleta virou um símbolo associado a determinado campo ideológico. Ou seja, a imagem de jogador ganhou também interpretações políticas além do gramado.
Esse fenômeno não diz respeito somente ao Camisa 10. Ele reflete uma mudança mais ampla: atletas, artistas e outras figuras públicas já são enquadrados automaticamente em espectros ideológicos, independentemente do contexto em que atuam. A consequência é a dificuldade crescente de dissociar a pessoa de suas posições, reais ou até mesmo presumidas.
Portanto a discordância não é mais exclusiva do debate público. Hoje, tornou-se praticamente um marcador de identidade. Isso significa que se aproximar ou se distanciar de um nome como o de Neymar, em muitos casos, é uma forma de afirmar o próprio posicionamento (e pertencimento) político.
Isso ajuda a explicar por que uma decisão que deveria ser essencialmente técnica (a convocação de um jogador, por exemplo) desperta reações tão intensas e, muitas vezes, previsíveis. A avaliação esportiva trocou de lugar com uma leitura ideológica.
O problema, a meu ver, não está em o futebol dialogar com a sociedade. Esse diálogo sempre existiu. O que se observa agora, contudo, é a dificuldade de preservar espaços comuns em um cenário de crescente fragmentação.
A Seleção Brasileira, que por tanto tempo simbolizou um raro encontro entre diferentes, já reflete as mesmas divisões que marcam o restante da vida pública. E isso não é trivial. Quando até mesmo os símbolos nacionais se tornam objeto de disputa identitária, algo relevante mudou na forma como nos relacionamos enquanto sociedade.
*Christian Lohbauer é mestre e doutor em Ciências Políticas pela USP e professor universitário desde 1998, e autor do livro “Fala, professor! Política para a nova geração”.
Fandango Caiçara: uma tradição que permanece (no tempo)

*Rodrigo Fonseca
Poucas manifestações culturais conseguem atravessar séculos sem desaparecer. O Fandango Caiçara é uma delas. Presente no litoral sul e sudeste do Brasil, essa prática segue viva mesmo diante das profundas transformações sociais, econômicas e culturais do país.
Segundo o Diccionario de Autoridades da Real Academia Española, de 1732, o Fandango é descrito como um “baile introduzido por aqueles que vieram dos reinos ‘Las Índias’, realizado ao som de uma melodia muito alegre e festiva”. Essa definição remete ao contexto do início do século XVIII, quando os espanhóis denominavam suas terras colonizadas nas Américas como “Las Índias”, o que indica que o Fandango já era uma prática festiva nas regiões coloniais das Américas.
Já o historiador Luís da Câmara Cascudo, em seu Dicionário do Folclore Brasileiro, descreve o Fandango praticado no Norte e Nordeste como um “auto popular dos marujos”, enquanto nas regiões Sul e Sudeste aparece como uma festa com danças variadas, como o rufado, marcado pelo sapateado, e o valsado, realizado em pares. É esse Fandango do litoral de São Paulo e Paraná que viria a ser reconhecido, em 2012, como patrimônio cultural imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
Caracterizado por instrumentos artesanais como a rabeca, a viola caiçara, o machete, a caixa de folia e o adufe, o Fandango embalou por séculos as festas após os mutirões comunitários. Mais do que música e dança, ele expressa modos de vida, relações comunitárias e saberes tradicionais; é nessa dimensão cultural que habita sua força temporal.
No Brasil, pouco se discute como essas culturas resistem ao tempo. Em um país marcado pela velocidade e pelo consumo, práticas enraizadas em territórios são frequentemente invisibilizadas ou tratadas como vestígios do passado.
Nas últimas décadas, a cultura de massa, a urbanização e as transformações territoriais trouxeram desafios reais. Ainda assim, o Fandango não desapareceu. Ao contrário, se reorganizou e hoje circula entre festas comunitárias, festivais e apresentações institucionais. Entre elas, destacam-se a Festa Nacional do Fandango Caiçara, em Paranaguá, e as festas realizadas em Cananéia e Ubatuba.
Essa permanência revela que culturas populares não são estáticas: elas se transformam e dialogam com o presente sem romper com suas raízes. Mais do que preservar, é preciso reconhecer essas manifestações como formas legítimas de conhecimento e fortalecer as comunidades que as mantêm vivas.
*Rodrigo Fonseca é autor do livro “A Comunicação da Cultura Popular”, artista multimídia, produtor cultural, pesquisador e doutorando em Comunicação e Cultura na Universidade de Sorocaba.

