Roberto Marinho
Obras sempre provocam transtornos, é compreensível. Mas às vezes causam confusão, e o que é pior, poderiam ser evitadas. É o caso da revitalização das calçadas na Vila Santa Cecília, que está infernizando a vida dos moradores e de quem tem que ir a um dos maiores centros comerciais de Volta Redonda, estejam eles a pé, de carro, moto, ônibus ou bicicleta. O projeto de Mobilidade Urbana, orçado em R$ 140 milhões, está sendo bancado pelo governo do Estado e prevê a troca do piso das calçadas de várias avenidas na Vila e no Laranjal, e ainda a construção de ciclovias ao redor da CSN.
A grande questão é que as empreiteiras responsáveis pelas intervenções nos dois bairros parecem seguir uma lógica própria, alheias ao que acontece ao redor. Diversos trechos de calçadas foram destruídos, como no entorno da Cúria, na subida do Laranjal e em vários pontos da Rua 33 – projeto paralelo que é tocado pelo Saae-VR – e já foram deixados para trás. Ficam dias e até semanas “desmontados”, sem ninguém trabalhando neles. Em outros, a empresa larga o material que será usado – bloquetes e areia – bloqueando a passagem dos pedestres.
Por falar nos pedestres, coitados, eles vivem se equilibrando no pouco espaço deixado para eles, isolados por fitas. A passagem é tão apertada que fica difícil duas pessoas transitarem ao mesmo tempo, como ocorre na Rua 18, ao lado da Cúria Diocesana. Se para uma pessoa sem qualquer dificuldade de locomoção a situação já fica complicada, imagine para idosos ou cadeirantes. Para eles, passar só se for no asfalto, correndo riscos. Para piorar, o estado das calçadas, prontas ou inacabadas, dificulta o desembarque de quem vai a uma das centenas de clínicas existentes na Vila. Ao mesmo tempo, o bloqueio atinge a entrada nas ruas transversais da 33, complicando também o trânsito.
A falta de critério para saber o que fechar e quando fechar e quanto tempo ficará ‘abandonado’ à espera de conclusão está transformando qualquer ida à Vila em uma imensa dor de cabeça. Não dá nem para planejar nada contando com o andamento das obras, porque não existem avisos de qual trecho está ou será bloqueado.
Mais confusão
A revitalização da Rua 33 – agora feita pelo Saae-VR – começou a dar errado quando as obras foram paralisadas porque a empreiteira que venceu a licitação pediu um aditivo no contrato. Na época, Neto afirmou que a empresa teria pedido 50% de reajuste. “Ela baixou o preço pra ganhar a concorrência, depois veio com essa conversa fiada, nós não concordamos”, disse ele, prometendo que não só a obra seria retomada, como a prefeitura aproveitaria para fazer, via Saae-VR, a troca de todo o sistema de água e esgoto da via. “É muito antigo”, justificou.
Os moradores e comerciantes também teriam sido consultados pela prefeitura por telefone, de acordo com Neto, e teriam aprovado a substituição das pedras portuguesas da Rua 33, colocadas pela CSN quando a siderúrgica era estatal. Sem manutenção desde então, o piso virou armadilha contra os pedestres, principalmente os idosos que passaram a cair na rua por pisar em falso nas pedras soltas. Em vez de cuidarem da manutenção, as autoridades decidiram pela troca das pedras históricas por um piso de qualidade duvidosa – e feio – adquirido pelo governo do Estado.
Procurada para falar sobre o fato de a empreiteira responsável por trocar o piso das calçadas estar tocando as obras de forma aleatória e sem continuidade, a prefeitura de Volta Redonda respondeu, por meio da secretaria de Comunicação (Secom), que tudo “segue o cronograma do projeto aprovado e licitado”: “Sem dúvida vão gerar alguns transtornos, mas igualmente tornarão Volta Redonda mais moderna e acessível”, completou.
Em relação à pesquisa que teria aprovado a troca das pedras portuguesas, caras, por simples bloquetes, baratos, a prefeitura informou que moradores e comerciantes da Rua 33 teriam sido ouvidos pela administração municipal e que a proposta teria sido detalhada em uma reunião que teria contado com a presença da presidente da Associação de Moradores da Vila Santa Cecília, Quênia Fernanda, em 2021, além de representantes de entidades ligadas ao comércio e da Caixa Econômica, entre outras, incluindo o diretor da empreiteira que venceu a licitação para executar a obra. Só não apresentou os dados da referida pesquisa, que, segundo uma fonte, teria sido por telefone com alguns poucos moradores do bairro.
Aliás, o aQui também perguntou sobre o destino das pedras portuguesas que estão sendo arrancadas na Rua 33, que são caras e bonitas, tanto que fazem parte de diversos cartões postais do Rio de Janeiro, como na Praia de Ipanema (ver foto). De acordo com a atual administração, as pedras serão guardadas para serem “aproveitadas posteriormente”. Não se sabe onde, nem quando. Há informações, por exemplo, que em passado recente, muitas pedras portuguesas teriam sido levadas para sítios próximos a Volta Redonda.
O jornal também quis saber como ficará a manutenção das novas calçadas e se moradores de outros bairros também serão beneficiados com a troca do piso em frente às suas casas sem gastar nada por isso, como ocorre na Vila e no Laranjal. A resposta da prefeitura foi que a manutenção “seguirá a lei vigente”. Ou seja, quem quebrar vai ter que refazer. Quanto à extensão do projeto, a Secom limitou-se a informar que “todas as áreas de grande circulação contempladas pelo projeto terão novas calçadas, integrando viagens a pé com o transporte público, garantindo acesso aos equipamentos urbanos”.

