Por Pollyanna Xavier
Não é preciso muito esforço para perceber que o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, Edimar Miguel, está desorientado. Após ser reconduzido ao cargo por uma decisão provisória (que ainda vai ser decidida pela Justiça), Edimar andou tomando decisões polêmicas. A principal foi a publicação de um edital convocando uma assembleia para ontem, sexta, 3, na Praça Juarez Antunes. Aliás, o evento só reuniu simpatizantes a ele.
Divulgado na terça, 30, o edital contém pelo menos cinco erros. A começar, pelo tipo de assembleia convocada: geral extraordinária. É que, pelo estatuto do Sindicato, o correto seria apenas uma assembleia geral, pois a extraordinária só pode ser convocada para tratar de assuntos específicos. O primeiro erro precede outro bastante confuso: os horários da votação, marcada para começar às 6 horas, em primeira convocação, e 6h30min em segunda, com extensão até às 17h30min. Neste caso, o trabalhador ficou sem saber a que horas deveria passar pela praça para votar: se às 6h, às 6h30min, ou em qualquer outro horário antes das 17h30min.
Uma terceira falha está na escolha do escrutínio secreto como método de votação da ordem do dia. O equívoco está no fato de que a executiva do Sindicato não foi chamada a participar desta decisão, conforme prevê o estatuto. Pior. As votações por escrutínio secreto precisam ser acompanhadas das listas dos possíveis votantes (trabalhadores da base), justamente para afastar qualquer fraude.
Quanto à pauta, há dois assuntos diferentes. No primeiro, Edimar propõe a “revogação, definitiva, do remanejamento de cargos realizado na reunião da diretoria administrativa de 29/02/24, mantendo-se os cargos eleitos no último pleito”, com ele, Edimar, na presidência. O problema é que os trabalhadores não podem decidir sobre essa matéria, uma vez que ela está sub judice, ou seja, nas mãos da Justiça do Trabalho para ser decidida. Em março, o G5 foi obrigado a ajuizar uma ação trabalhista para impedir Edimar de convocar assembleias depois que ele foi afastado da presidência.
Outro ponto trata da revogação do remanejamen- to de cargos no Sindicato. E Edimar cai em contradição ao propor a anulação da reunião do dia 29 de fevereiro, que ele considerou ‘como reunião golpista’. “Como poderia pedir para invalidar algo que para ele não teve valor? Você só revoga o que foi validado por alguém. Quando o Edimar pede a revogação das mudanças que fizemos, ele mesmo reconhece que elas foram legítimas e estatutárias. Do contrário, qual o sentido de revogar?”, questiona o G5.
Há ainda mais um erro na pauta, que é a “liberação de Edimar para dedicação exclusiva no Sindicato, com ônus de pagamento de salários e encargos pelo Sindicato”. Dá a entender que Edimar quer receber o seu salário como metalúrgico da CSN, mais o salário de presidente do Sindicato, acumulando, assim, os dois ganhos. Acontece que, ao ser reconduzido ao cargo de presidente, Edimar pediu licença, sem vencimentos, da CSN, para se dedicar totalmente ao Sindicato. Ou seja, não haveria necessidade de os trabalhadores votarem pela liberação de Edimar da UPV, uma vez que ele mesmo já fez isto.
Segundo o G5, o grande problema, para Edimar – claro, é que a licença dada pela CSN a ele foi sem vencimentos e, ao assumir integralmente o Sindicato, Edimar quer continuar recebendo os dois salários. Para isto, continuou o G5, ele teria incluído a questão na pauta da assembleia de ontem, porque, se conseguisse os votos dos trabalhadores, seu pedido estaria garantido. “Ele quer ganhar às custas do trabalhador”, denuncia o G5.
Transparência nas contas
Pelo que o aQui apurou, o edital teria sido publicado às pressas, depois que o diretor financeiro, Alex Clemente, comunicou, oficialmente, a Edimar que a prestação de contas do Sindicato estava pronta, auditada, e que era preciso convocar uma assembleia para dar transparência tanto ao Conselho Fiscal quanto aos trabalhadores da base. No final de janeiro, Alex foi acusado por Edimar de causar um rombo nas contas do Sindicato, desviando R$ 670 mil em 147 saques diferentes.
Segundo Alex, as contas, além de prontas para serem apresentadas, também foram auditadas por uma empresa especializada, e os resultados serão juntados numa ação que o G5 vai ajuizar contra Edimar, por calúnia e difamação desferidas contra ele. As planilhas provam, segundo o G5, que o rombo não foi causado por Alex. Aliás, o G5 cita acordos assinados com a CTB que, se fossem levados adiante, teriam causado um estrago maior do que aquele que Edimar diz ter sido provocado por Alex.
Ainda sobre as contas, o aQui teve acesso a documentos que mostram que as contas do sindicato estão no vermelho devido ao alto endividamento do órgão junto ao governo Federal, referente a cobrança de tributos e a parcelamentos realizados por gestões anteriores. Alguns estão em dia, outros necessitam de refinanciamento.
Acordo coletivo da CSN
Há ainda outra questão levantada por Edimar e que preocupa, e muito, os trabalhadores da CSN. Trata- se da possibilidade de se tentar anular o acordo coletivo negociado pelo G5. Em áudios a que o aQui teve acesso, o advogado Tarcísio Xavier defende a realização de
um plebiscito para ouvir os trabalhadores da empresa sobre o assunto. “A categoria tem que se manifestar, precisamos chamar os trabalhadores. Tivemos 4 mil e poucos votos e será que estes quatro mil e poucos estão dispostos a lutar pela nulidade do acordo coletivo? Só através de uma assembleia é que a gente tem condições de saber”, argumenta.
Tarcísio vai além. Diz que a sua posição “política e jurídica” enquanto assessor de Edimar é pela nulidade do acordo, mediante a realização de uma consulta coletiva (um plebiscito). “Se a maioria dos trabalhadores entenderem (sic) que o acordo é nulo de pleno direito, aí é a manifestação e vontade da categoria”, incitou Tarcísio, que estaria disposto a levar a ideia adiante. “O sindicato só vai tão somente (sic) encaminhar a decisão da categoria. Vamos aprofundar esse debate”, prometeu. “Quem determina é a base, se a base entender que o acordo é nulo de pleno direito, então nós vamos encaminhar a vontade da base”, garantiu.
A verdade é que, se a ideia for adiante, o impacto social e econômico na cidade será imenso, porque não há possibilidade de os trabalhadores devolverem os valores pagos pela CSN. Em valores reais, estamos falando de cerca de R$ 200 milhões, entre abonos, reajustes de salário, cartão-alimentação e auxílio-creche, além do banco de horas e outros itens. Para uma fonte, uma anulação do acordo coletivo 2024/25 seria o fim da era Edimar.
A solução para o imbróglio – se é que ela existe – seria, segundo a fonte, que os sindicalistas se acertassem pensando no futuro. “Eles estão brincando com fogo… Esse caminho é perigoso. O correto seria, primeiro, eles se ajustarem internamente, terminar essas brigas constantes, unir o sindicato e estruturar uma boa pauta de negociações para debater com aCSNnoanoquevem.Do contrário, seguirão divididos e fragilizados de novo para a próxima data base”, avaliou.
