Vade retro!

Animal sem cabeça e sem patas é deixado em rua do Laranjal, bairro de classe média alta

Roberto Marinho

Os moradores do Laranjal que faziam a costumeira caminhada matinal pelas ruas do bairro no sábado, 8, tomaram um tremendo susto quando deram de cara com uma cena macabra. Digna de filme de terror. Um animal esquartejado, sem as patas e a cabeça, com um lenço vermelho amarrado na barriga, foi largado em uma das calçadas, quase impedindo a passagem das pessoas. O fato chocou tanto, principalmente porque, a princípio, o bicho – de porte médio, com pelo claro e curto – foi confundido com um cachorro. Não era. Era um bode.
Nos grupos de WhatsApp, os moradores ‘soltaram os cachorros’ contra quem teria feito a maldade e muitos lembraram que não seria difícil descobrir o autor do crime. Afinal, há vários meses o bairro, um dos mais elitizados da cidade do aço, passou a contar com câmeras, tipo BBB, para vigiar quem passa pelas suas ruas. “É só pedir a filmagem, o animal foi deixado quase embaixo de uma câmera”, pontuou um dos moradores.
O mautrato se espalhou pelas redes sociais – embora não se saiba como, nem onde, o bode tenha morrido, já que não havia sangue no local. A dúvida que predominava nos comentários era se ele teria sido insensibilizado de alguma forma antes de ser morto, como fazem os matadouros de aves, bovinos e caprinos. Mas o que pesou mesmo foi a cena grotesca do corpo do animal mutilado, abandonado em plena calçada de um bairro residencial.
Tem mais. Como se descobriu que o animal era um bode, as especulações ganharam espaço e para muitos ficou claro que era um caso de ‘magia negra’ envolvendo vingança e ameaça. Tanto que o caso foi parar na 93a DP, levado pela moradora que encontrou a “encomenda macabra” deixada na porta da sua casa. Ela, inclusive, fez questão de registrar um boletim de ocorrência, por ameaça e ainda por maus-tratos a animais. “Não entendo muito bem dessas coisas, mas sei que sacrifício de sangue é para ameaçar alguém de morte”, disse ao aQui um conhecido da família, que pediu para não ser identificado. De acordo com o presidente da Associação de Moradores do Laranjal, André Barroso, a polícia já recebeu imagens do sistema de câmeras de segurança mantido pela entidade em algumas ruas do bairro.
“As imagens já foram repassadas para a polícia, e são bem claras. Mostram um carro passando, por volta de 3h30min de sábado e, logo em seguida, aparece uma mulher, carregando o animal no colo. Inclusive com dificuldade, porque parece que era pesado. Ela depositou o animal em frente à casa da moradora e saiu correndo”, descreveu Barroso.
Segundo ele, a autora já teria sido identificada, mas a vítima da ameaça ainda aguarda outras imagens para comprovar o crime. “Não podemos dar mais detalhes, para não atrapalhar o trabalho da polícia”, justificou o presidente da associação.

Lei permite sacrifício
Algumas religiões realizam sacrifício de animais como parte de seus rituais. No Brasil, o candomblé – religião de matriz africana – é uma delas. A prática é permitida por lei, conforme decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), tomada em 28 de março de 2019. O assunto foi parar na mais alta corte do país depois que o Ministério Público do Rio Grande do Sul apresentou um recurso contra uma decisão do TJ gaúcho que garantia a aplicação de uma lei estadual que liberava o sacrifício de animais, desde que sem excessos ou crueldade. “A oferenda dos alimentos, inclusive com a sacralização dos animais, faz parte indispensável da ritualística das religiões de matriz africana. Impedir a sacralização seria manifestar claramente a interferência na liberdade religiosa”, afirmou o ministro Alexandre de Moraes em seu voto. De acordo com pessoas ligadas ao candomblé, o sacrifício de animais nos rituais religiosos é cercado de cuidados, e é feito de forma que os animais sofram o mínimo possível. Geralmente, é feito um corte no pescoço para a sangria do animal, como se faz até hoje em áreas rurais. O objetivo do sacrifício, de acordo com as crenças do candomblé, é fazer a energia vital circular – o axé, que dá vida a tudo no mundo, segundo os praticantes. Geralmente, os animais que são sacrificados são criados com esse fim específico, e recebem uma série de cuidados não dispensados aos animais comuns, como alimentação e tratamento especial.
Como o ministro Luís Roberto Barroso salientou, durante o julgamento no STF, a tradição e as normas das religiões de matriz africana não admitem nenhum tipo de crueldade com o animal e são empregados procedimentos e técnicas para que sua morte seja rápida e indolor. “Segundo a crença, somente quando a vida animal é extinta sem sofrimento se estabelece a comunicação entre os mundos sagrado e temporal”, pontuou Barroso.
É necessário dizer ainda que os sacrifícios são feitos em locais apropriados, geralmente nos templos onde se realizam os cultos da religião, e todas as partes do animal são utilizadas: o couro vira peles de tambor, a carne em si é usada para alimentar os praticantes, sendo preparada de forma especial, e as vísceras e outras partes não utilizadas são oferecidas para as entidades espirituais, seguindo as tradições ritualísticas. Em alguns locais, a comunidade no entorno dos locais de culto também recebe a carne dos animais abatidos.

Magia negativa
Mas, o caso do bode morto no Laranjal não tem nada a ver com isso. Primeiro, porque a magia negativa – o que parece ser o caso do ‘despacho’ em questão – não é considerada uma religião. Segundo, porque, neste caso, o sofrimento intenso do animal faz parte do ritual, para que, segundo a crença, as energias negativas afetem a pessoa que é “alvo” da magia. Ainda há a questão de o sacrifício ser depositado em via pública, em um claro recado à vítima do ritual. O caso, portanto, se encaixaria em maus-tratos a animais, e o autor, caso seja descoberto, pode pegar uma pena de dois a cinco anos de prisão, além de multa e proibição da guarda de animais.
Sacerdote do candomblé há mais de 20 anos, o babalorixá Fabrício, que mantém um terreiro em Barra Mansa, afirmou que quem fez o ‘despacho’ é “inimigo da religião”. “A nossa religião, assim como todas as de matriz africana, sofre um preconceito imenso. Toda semana há algum caso onde se tenta relacionar uma prática errada a uma dessas religiões. Na minha opinião, quem fez isso é inimigo da nossa religião”, disse Fabrício, lembrando que o sacrifício de animais nunca é feito em áreas urbanas, e há uma grande preparação para o rito, que só é realizado em datas especiais.
Ele vai além. “Desde o animal que vai ser abatido, até a pessoa que vai realizar o abate – e é minuciosamente preparada só para esta função -, tudo segue um ritual. Nós abatemos o animal também com o intuito de alimentação. Só é oferecido às divindades o que nós não comemos: couro ou pele, sangue e vísceras. E isso sempre é feito em meio à natureza, nunca no meio da cidade. Procuramos um local isolado, com vegetação, cursos d’água, e pouca circulação de pessoas. Até para ter um ambiente tranquilo, porque é um ritual religioso”, explicou Fabrício, que ainda acrescentou: “Nós matamos o animal do mesmo jeito que nossos avós ou pessoas em comunidades rurais fazem até hoje, e com o mesmo propósito final: alimentação”. O sacerdote também salientou que só são utilizados animais que são servidos comumente na mesa de jantar de várias famílias: patos, galinhas, cabritos ou coelhos. “Não há hipótese de usar animais domésticos. E se eu vir alguém fazendo isso, serei o primeiro a denunciar”, afirmou.
Ele ainda argumentou que não é a religião que “deseja fazer mal” a alguém, mas as pessoas. “As divindades não desejam mal a ninguém. Independentemente da religião, o mal, a inveja, a ganância, são sentimentos próprios de seres encarnados, dos seres humanos. A religião não tem nada a ver com isso”, dispara.

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