Um caminho sem volta

Saúde mental de Volta Redonda aponta agravamento de transtornos psicológicos no município, mas não tem dados concretos de casos de suicídios

Vinicius de Oliveira

A angustiante pandemia da Covid-19 remodelou forçosamente o modo de vida das pessoas. Acreditando ou não no poder de mortalidade do vírus, todos tiveram a rotina alterada em maior ou menor grau, o que, por si só, seria suficiente para causar aflição psicológica em qualquer um. Para além disso, há a quarentena impondo o isolamento social, para o qual o ser humano não foi feito. A restrição de ir e vir e o constante medo da morte causam sofrimento psíquico grande e podem levar ao aumento das taxas de depressão e transtornos de ansiedade. O resultado dessa equação funesta é, em muitos casos, o suicídio. Nos tempos atuais, mais do que nunca, absolutamente ninguém está imune de ser acometido por algum tipo de transtorno mental desse tipo, entretanto, conforme apontam as estatísticas, jovens e adolescentes têm sido as principais vítimas.
Dados do Ministério da Saúde publicados no ano passado indicam que jovens de 15 a 29 anos concentraram 45,5% das ocorrências de autoagressões, automutilações e tentativas de suicídio de 2011 a 2018. O número passou de 14.490 para 95.061. O que significa que, em média, dois adolescentes tiram a própria vida por dia. Uma escalada mortal que já assustava, mas, agora, por conta dos males causados pela pandemia, especialistas temem que os números possam subir ainda mais.
O aQui tentou descobrir junto à secretaria de Saúde de Volta Redonda a quantas andam os números de suicídios, mas a coordenação de Saúde Mental local não tem dados para fornecer, contudo, conforme explicou Sueli Pinto, coordenadora do programa, “há um sentimento” de que os casos de transtorno mental estariam subindo consideravelmente. “Nós temos um sentimento de que houve aumento, embora não quantificado, de sofrimento mental, que podemos quantificar como: procura maior nas emergências, de psiquiatria, procura de pais para orientação com psicólogo. Nossa demanda aumentou muito”, afirmou Sueli.
Antes da pandemia, a pasta já não tinha o hábito de apresentar dados estatísticos a esse respeito, mas, com o agravamento da crise sanitária que impactou de forma considerável a Saúde de Volta Redonda, a ponto de deixar o município sem médicos e sem atendimento em muitos Centros de Referências (Cras), que antes eram a porta de entrada do doente no sistema público, o trabalho de monitoramento e prevenção de suicídios – de jovens ou não – está ainda mais comprometido. “Você tem razão. Temos na Saúde uma verdadeira destruição, mas agora temos prefeito e vamos pensar nessa reestruturação”, concordou Sueli Pinto, avisando que o município atualmente não dispõe de psicólogos e psiquiatras na Saúde Básica. “Mas temos na Saúde Mental”, completou.
Ainda de acordo com a coordenadora da Saúde Mental, o abuso de drogas e outras substâncias químicas são agravadores dos problemas mentais, além do empobrecimento da população. “Aumentou muito a miséria. Temos atualmente uma população de rua muito grande e todos eles são atendidos no Centro POP, do Aterrado. Lá a gente percebe que tem uma grande quantidade de abusadores de substâncias”, simplificou Sueli, confirmando que a pasta onde atua não tem uma política de prevenção. “A prevenção que estamos fazendo é através dos nossos serviços, que neste momento estamos reestruturando: emergência, Caps, serviços de ambulatórios. Poderíamos fazer nas escolas, mas isso não estamos fazendo ainda”, lamentou.
Sueli disse que não pode afirmar quando começaria a implementar políticas de prevenção ao suicídio, pois uma ação desse tipo leva tempo. “Vai mudar, mas não é a partir de quando. É um processo que não se faz de um momento para outro. Mas temos um novo prefeito, e a política sendo reescrita”, disse a médica, animada.
Para muitos especialistas e estudiosos do tema, embora a Covid-19 e os estragos que a doença causou na população em geral possam influenciar no aumento de suicídios e automutilações, esse não é o principal motivo. Segundo a psicopedagoga Claudineiva Quirino, as desigualdades sociais e econômicas já vinham matando mais gente do que a pandemia. “Um grupo muito específico de pessoas, sobretudo no Brasil, já sofria com as angústias que o coronavírus apresentou para a elite: falta de emprego, educação, moradia digna, isolamento social e acesso limitado ao lazer. É o que o professor Boaventura de Souza defendeu em seu livro ‘A cruel pedagogia do vírus’ que tais grupos compõem o sul da pandemia. Ou seja, estão em situação abaixo daqueles que estão sofrendo atualmente. O que já era ruim em tempos normais para essas pessoas, piorou agora”, avaliou a professora.
Segundo Claudineiva, compõem o grupo do ‘Sul da Pandemia’ principalmente os negros, idosos, mulheres e a comunidade LGBTQIA+. “Essa parte da população enfrenta cotidianamente os riscos de viver pertencendo a esses grupos. São vítimas constantes de preconceitos, da falta de oportunidades e de políticas públicas específicas. São esses cidadãos que, geralmente, precisam se submeter ao subemprego e a condições precárias de moradia, saúde, educação, esporte e lazer. Em um país tão desigual quanto o Brasil, não me surpreende que a cada 46 minutos uma pessoa tira a própria vida”, argumentou.
A psicopedagoga lembrou que, no caso de suicídios, adolescentes estão propensos a cometê-los por não verem sentido na vida. “No Brasil, a maioria dos suicidas é homem, negro, com idade entre 10 e 29 anos, segundo dados do Ministério da Saúde avaliados nos últimos quatro anos e divulgados numa pesquisa no ano passado. Isso tudo está, mais uma vez, relacionado, na maioria dos casos, com a falta de perspectiva com o futuro. Não se encontra mais empregos e a fome assola a população impiedosamente. Aqui em Volta Redonda, por exemplo, muitos postos de saúde de atenção básica ou estão fechados ou estão sem médicos. Sem ter onde pedir ajuda de forma mais facilitada, o potencial suicida acaba executando seu desejo e se joga para a morte. Tudo isso só piorou com a pandemia”, concluiu.

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