Tormento sem fim

Noite de Volta Redonda volta a ser aterrorizada com rolezão de motos, aglomerações e motoristas bêbados

Mateus Gusmão

Nos finais de semana, quem passa pela Praça da Colina – um dos locais mais boêmios de Volta Redonda – tem uma certeza: a pandemia da Covid-19 já acabou. Ou estão distribuindo vacinas na pracinha. É que as cenas de aglomerações, pessoas sem máscaras, som alto e, pasmem, até ‘rolezão de motos’, com mais de 30 motoqueiros participando da idiotice, uma mania ‘importada’ de São Paulo. Detalhe: fazendo com que os sons dos escapamentos acordem os moradores.
Cenas como essa viraram rotina em Volta Redonda, cidade onde as noites no final de semana servem para mostrar que é uma verdadeira ‘terra sem lei’. Como o aQui mostrou em suas redes sociais, uma gravação, feita na noite de sexta, 28 de maio, flagrou dezenas de motociclistas – muitos, sem capacete – circulando por diversos bairros, em uma verdadeira algazarra. “Foi um horror, acordou todos os moradores”, disse Cristiana Ferreira, moradora da Colina.
O ‘rolezão’ de motos, como é conhecido em São Paulo, ou ‘rolezinho’, como foi batizado em Volta Redonda, reúne dezenas de jovens para um ‘simples passeio’. Eles têm se reunido nas imediações do Aeroclube, no bairro de mesmo nome, ou em frente ao Clube Umuarama, na Vila. Detalhes: muitos deles sequer têm habilitação para pilotar motos ou usam capacetes. O aQui conversou com um dos rapazes que participa do ‘rolezão’. Ele, que trabalha como motoboy durante o dia, pede para não ser identificado.
“Cara, isso é apenas uma diversão da galera. A gente se junta para dar uma rolê de moto, chamar atenção”, minimizou o rapaz, jurando que o objetivo não é atormentar quem está em suas casas. “A gente quer chamar atenção, fazer ‘farol’. Mas não quer atrapalhar ninguém. Qual o problema da gente passar na Colina? Ali já tava cheio, pô”, comentou o rapaz. Questionado sobre o motivo de se promover o ‘rolezão’ durante as madrugadas, ele explicou que o objetivo é atrapalhar (ou seria fugir?) da fiscalização. “De madrugada, um monte de moto junto, os ‘guardinhas’ vão conseguir pegar a gente como? Não tem como! Damos nossa volta de boa. Muitos que saem com a gente não têm carteira, o documento tá atrasado. Então vamos nos divertir de madrugada mesmo”, disparou.
Ele pode ter razão. Prova disso é que, após a repercussão de um ‘rolezão’, mostrado pelo aQui, a Guarda Municipal – com apoio da PM – resolveu realizar uma operação para coibir o movimento. Na madrugada de domingo, 30, a ação flagrou o grupo no Aterrado. Segundo a própria prefeitura, cerca de 30 motos estavam no ‘rolezão’, a maioria sem placa. Resultado: apenas duas motos – isso mesmo, apenas duas – foram interceptadas e recolhidas ao depósito municipal.
O comandante da GM, João Batista dos Reis, informou – em release enviado aos jornais – que já tinha informações sobre o pega e vinha monitorando os participantes. Mesmo assim, vejam só, não conseguiu coibir a ação dos motoqueiros. “Há motos que vêm também de municípios vizinhos. Há falsos motoboys se infiltrando nessas desordens, atrapalhando quem quer trabalhar e anda direito. Já temos bastante coisa mapeada”, alegou Batista, como se estivesse defendendo o resultado da ação.
Aglomerações sem fim
Ponto de encontro de boa parte dos jovens da cidade, a Praça da Colina, apesar da Covid já ter matado mais de 900 volta-redondenses até o início de junho, voltou a gerar aglomerações, com pessoas sem máscaras. Até o famoso ‘isoporzinho’ voltou a acontecer, conforme já denunciou o aQui em várias edições. No mesmo final de semana em que ocorreu o ‘rolezão de moto’, a pracinha da Colina voltou a ficar cheia. Detalhe: mesmo após o fechamento dos bares.
Segundo os moradores, a cena tem se repetido todo final de semana, mesmo com a força-tarefa da prefeitura “passando” pelo bairro. “Parece que a fiscalização só quer ver se tem alguma coisa errada com os bares, ou se eles fecharam no horário determinado. Depois que os bares fecham, as pessoas continuam na praça fazendo isoporzinho, ouvindo funk, som de carro alto. Está uma bagunça e ninguém faz nada”, ressaltou a moradora Cristina Ferreira.
Pior. A prefeitura de Volta Redonda divulgou que, no último final de semana, nenhum bar teria sido multado ou autuado por descumprir medidas de combate ao coronavírus. Pela versão oficial, os agentes da força-tarefa teriam autuado um bar na Vila Americana por ocupação indevida de calçada. Outros três bares teriam sido notificados por falta de alvará de funcionamento. Um deles estaria com o documento vencido. Ou seja, para a GM, na Colina, tudo correu bem. E todos sabem que não foi assim.
Na quarta, 2, véspera de feriado de Corpus Christi, a Colina foi novamente invadida por ‘isoporzinhos’. Por volta das 22 horas, dezenas de jovens começaram a chegar com seus isopores e caixas de som. Tem mais. Um grupo, com cerca de 15 pessoas, ficou na pracinha até às 6 horas. Sem as caixas de som, fizeram seu barulho no gogó, cantando aos quatro ventos. Resultado: os vizinhos da praça não dormiram.

Cidade do aço, cidade dos bebuns

Volta Redonda lidera um triste ranking entre os 92 municípios fluminenses. É o que mais tem pessoas alcoolizadas no trânsito. Pelo menos, é o que foi divulgado na terça, 1º, pela Operação Lei Seca, que apresentou o balanço das mais de 200 ações de fiscalização e conscientização que aconteceram no mês do movimento ‘Maio Amarelo’, que chama a atenção da sociedade para o alto índice de mortos e feridos no trânsito.
Nos 31 dias de maio, 10.081 motoristas foram abordados, sendo que 1.184 deles estavam embriagados e foram retirados das ruas. A média de alcoolemia no estado subiu em comparação com o mês anterior: de 9,95% para 11,74%.
O recorde de alcoolemia aconteceu em Volta Redonda no dia 22 de maio. A Operação Lei Seca abordou 151 motoristas na Avenida Amaral Peixoto, e 36,42% dos casos eram de motoristas embriagados, relata a Operação. No mesmo dia, dos 144 motoristas abordados em blitzes em Jacarepaguá, 25,69% estavam embriagados. Ainda naquele fim de semana, no dia 21, 125 pessoas foram abordadas na Rua Angélica, em Barra do Piraí, e o percentual de alcoolemia registrado foi de 20,8%.
Desde o início da Operação Lei Seca no Rio de Janeiro, em 2009, até hoje, 17.411 ações de educação e 26.652 ações de fiscalização foram realizadas em todo o estado. E ninguém mostra ter aprendido a lição. A explicação pode estar ligada ao pouco caso que os jovens andam fazendo da Covid-19.

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