Toma lá, dá cá

Entre as habilidades que a política exige de seus atores é a flexibilização ou negociação de entendimentos em determinados assuntos.
Para obter sucesso nessas flexibilizações ou negociações, tudo dentro dos ‘interesses públicos’, exige-se ceder terreno a um em detrimento de sua posição e mais adiante retomar esse espaço. É assim que move a política, no campo do entendimento. É natural e sempre foi assim. Nada de errado nisso, desde que o povo não seja prejudicado.
Claro que dentro desses entendimentos, há o jogo do poder, onde cada um coloca suas convicções em temas a serem discutidos, com intuito de buscar o sucesso e consequentemente atender aos desejos de seu eleitorado ou partido.
Na esteira disso tudo, com atenção voltada ao poder político, existe o poder de barganha, isto é, quem tem mais frutas para vender, mais chances de sair com mais capital político. É o famoso toma lá dá cá.
Toma lá, dá cá! é um provérbio comum hoje em dia, usado frequentemente em sentido de designar negociações ocorridas ou a ocorrer em diferentes atividades, que implicam uma troca de favores nem sempre lícitos. Os provérbios como Uma mão lava a outra ou É dando que se recebe, entre muitos também apresentam o mesmo significado.
Um bom exemplo do Toma lá, dá cá, no jogo institucional entre o Poder Executivo e o Congresso Nacional, fala-se de alianças e composições entre o partido do governo e outras siglas para formar uma base aliada. A justificativa destes acordos seria a governabilidade, ou seja, o presidente busca condições estáveis na relação com o Poder Legislativo, de forma a governar sem sobressaltos. Assim, os partidos que compõem a base aliada exigem algo em troca do apoio ao governo. Esse “algo”, nas negociações políticas, costuma ser cargos estratégicos na máquina pública (de diretor de estatais até ministérios). É o chamado loteamento dos cargos públicos.
Como dito no início, é um mecanismo que deveria ser normal. Afinal, se partidos se aliam para disputar eleições, supostamente compartilham ideias e projetos em comum, que são sistematizados em um programa de governo. Porém, na prática, as alianças políticas se formam sem uma base clara de programa. Ocorre também quando inimigos políticos se unem por conveniência, em acordos visivelmente sem princípios. É o chamado fisiologismo, usado por governos com o intuito de obter maioria no Legislativo e poder aprovar as leis de que necessitam para governar. Em outras palavras, o Executivo faz uma barganha: oferece cargos em troca de aprovação de alguma mensagem, projeto, etc.
É extremamente salutar quando essas negociações políticas ocorrem abertamente de modo transparente para que os eleitores tomem conhecimento e que elas não sejam opostas às propostas de governo prometidas durante a campanha eleitoral. Essa é a política saudável a serviço de um povo, que tanto exige um trabalho de seus representantes nas esferas executivas e legislativas.
O que não é possível aceitar é quando essa troca, que na frente das câmeras de TV e dos microfones de rádios, foi realizada para driblar leis, busca de poder a qualquer custo e principalmente a privilegiar determinadas pessoas ou grupos políticos. É impensável validar políticos que se escondem através do toma lá dá cá para fins pessoais e/ou partidários. Este é o submundo da política.
Ocorre sempre quando não se deseja a plena transparência da ação ou através da publicidade enganosa que somente são destinadas a favorecer políticos. Ou para beneficiar um político, o partido, ou uma empresa contratada. Em casos como esses o toma lá dá cá assume sua verdadeira característica de corrupção.
Quando esse comportamento repete-se sem parar dentro de um poder, seja executivo ou legislativo, um dia a conta chega, e bem alta.
E o que devemos para acompanhar os políticos? É cobrar transparência de seu trabalho. É participar ativamente da vida política, visitando com frequência as casas legislativas. Nestes lugares, os nobre Edis devem trabalhar em prol da população e de seus interesses.
Além disso, quando período de eleição, buscar sempre maiores informações sobre determinado político para saber se o voto naquele (a) candidato (a) será válido e competente para representá-lo (a). O período eleitoral é um momento de renovação. Não existe profissão de político. Existe um cargo político que é ocupado por determinado período de tempo.
É necessário nos conscientizar que devemos acompanhar a política não só durante o período eleitoral, mas por todos os dias.
Ernani da Cunha Ferreira
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