Telhado de vidro

Antônio Furtado contrata marido de ex-assessora que deixou o cargo para se candidatar à Câmara

Eleito na esteira da moralidade do bolsonarismo, o deputado federal Antônio Furtado (PSL) está experimentando o ônus de se tornar uma figura pública. Vem sendo atacado por eleitores descontentes com algumas de suas posturas como marinheiro de primeira viagem, entre elas a contratação do marido de uma ex-assessora que deixou o cargo para se candidatar a vereadora em Volta Redonda. Cristóvão Ferreira foi contratado em setembro para o lugar de Rosa Marta Assis Sérgio Ferreira, que trabalhava para Furtado, desde o início do mandato, no escritório mantido pelo delegado na cidade do aço.

Rosa Marta, nome que usará nas urnas, como funcionário público nomeado (não concursado), teve que pedir exoneração do cargo para concorrer nas eleições. Com isso, iria abrir mão do salário de assessora parlamentar, em torno de R$ 4,8 mil, de acordo com as informações disponibilizadas no portal da Câmara dos Deputados. Cristóvão, marido da candidata, passou a receber o mesmo valor assim que assumiu a cadeira da esposa. Na verdade, não há ilegalidade na operação, mas, para quem se elegeu com o discurso da moralidade, a manobra pegou mal junto aos eleitores.

Questionado pelo aQui, Furtado justificou a mudança afirmando que era preciso nomear “alguém que conhecesse o trabalho”. “Com o afastamento obrigatório por ser candidata a vereadora em Volta Redonda, foi necessário a contratação de uma pessoa para desempenhar as funções, antes exercidas por ela. Com o período de pandemia, buscamos a alternativa de nomear alguém que já conhecia o trabalho e estava sempre acompanhando as atividades. Nesse caso, Cristóvão Ferreira assumiu a vaga”, explicou. No entanto, não há registro de que Cristóvão tenha trabalhado anteriormente no gabinete do parlamentar. Portanto, as chances de “conhecer o trabalho” seriam remotas.
O deputado também afirmou que Cristóvão só trabalha na campanha da esposa depois do horário do expediente, como determina a lei. “Assim como todos os assessores, Cristóvão pode participar das atividades políticas da esposa nos horários que não coincidam com suas atividades pelo gabinete de Volta Redonda. Não há nada de ilegal ou imoral nisso”, entende Furtado, discordando da tese de alguns eleitores que definem a jogada como imoral.

Clima ruim
E não é só em Volta Redonda que o clima anda estranho para Furtado. Em Resende, uma colaboradora do deputado foi “enquadrada” por um ex-correligionário do parlamentar enquanto fazia campanha para o candidato a prefeito Cristiano Gonçalves, do Republicanos, que tem o apoio de Furtado.

Segurando fortemente a mulher pela cintura, o major reformado do Exército Alcindo Grassi – candidato a vice na chapa do ex-prefeito de Resende, Sílvio de Carvalho (PDT) – chama Furtado de “traidor”, enquanto a colaboradora o acusa de ser de “um partido de esquerda”, o PRTB, no caso. A discussão se estende por alguns minutos, e mostra como Furtado está pisando em ovos em Resende, forte reduto bolsonarista. Com a expulsão de Bolsonaro do PSL, partido pelo qual o presidente e Furtado foram eleitos, a cisão parece ter atingido os correligionários de ambos, que se acusam mutuamente de traidores.
Pelo visto, a onda que elegeu vários candidatos bolsonaristas com o discurso da moralização virou um enorme mar revolto.

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