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Solução na roleta

Vereadores acreditam que subsídio pode melhorar transporte coletivo

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Por Mateus Gusmão

A queda acentuada no número de passageiros, a concorrência dos aplicativos, legalizados ou não, o aumento dos salários de motoristas e demais funcionários, o preço alto do óleo diesel e o congelamento das passagens de ônibus são alguns dos motivos que explicam os problemas que ocorrem com o transporte de passageiros em Volta Redonda e outras cidades da região. Isso sem contar a má vontade por parte dos prefeitos que não permi- tem o aumento das tarifas para não desagradar aos eleitores. Mas aumentam o valor cobrado no IPTU, na água, até na tarifa dos táxis.
Para amenizar, os gestores públicos buscam soluções criativas para o quiproquó. Em Volta Redonda não é diferente. Neto, que está em seu quinto mandato como prefeito, diz que está usando a imaginação para melhorar o transporte de passageiros na cidade do aço. Samuca, seu antecessor, também dizia isso. Só que os dois foram responsáveis, mesmo que de forma indireta, pela falência da Viação Sul Fluminense, a maior do setor. Resultado: mais de mil funcionários foram demitidos. Tem mais. A Cidade do Aço estaria em recuperação judicial. E a Agulhas Negras não estaria bem. Tudo por conta do congelamento das passagens.
Em entrevista ao programa Fato Popular, na terça, 18, Neto voltou a garantir que busca alternativas para que a população não reclame dos ônibus e nenhuma outra empresa venha a quebrar. “A coisa está muito ruim, a população tem reclamado muito. Eu não sei o que vou fazer, mas vou fazer alguma coisa. Do jeito que está, não dá pra ficar. Eu reco- nheço toda dificuldade, sei que as empresas querem reajuste da passagem, mas é muito difícil dar reajuste com o atendimento que nós estamos recebendo”, disse, ressaltando que entende as reclamações dos passageiros. “Eu tenho que usar a imaginação. Mas vai dar certo”, disse, marcando para quinta, 20, a primeira reunião de uma comissão de assessores para buscar soluções para o problema.
Vale lembrar que o aQui (edição 1.348) mostrou que a tendência em médias e grandes cidades é de que os municípios passem a conceder subsídios mensais às empresas de ônibus para evitar o aumento na passagem dos ônibus. Em Resende, isso já vai acontecer no mês que vem, quando a nova empresa contratada para administrar o transporte de passageiros – a Ipatinga – assumir as operações. A passagem, conforme previsto na concorrência realizada pela prefeitura local, será de R$ 4,40. Apenas 20 centavos a mais do que é cobrado em Volta Redonda.
O detalhe é que o valor real da tarifa, conforme planilha de custos, chegou a R$ 6,35. A diferença de R$ 1,95 será paga (subsidiada) pelos cofres públicos de Resende. As despesas deverão chegar a R$ 850 mil por mês. O contrato éde20anos,sóqueo prefeito Diego Balieiro trabalha com a possibilidade de o subsídio começar a ser reduzido a partir de 2024. “A empresa vai melhorar o serviço, usar ônibus novos e com a passagem reduzida, os passageiros voltarão a andar de ônibus”, calcula uma fonte, lembrando que em Paraty, a tarifa técnica é de R$ 8,61, e os passageiros só pagam R$ 5,00. “Em Angra dos Reis, a população paga apenas R$ 2,00 e o Poder Público local completa o valor da tarifa – que é de R$ 5,50”, compara.
A solução adotada por Diego Balieiro em Resende tem tudo para vingar também na cidade do aço. Pelo menos é a opinião de diversos vereadores que conversaram com a reportagem do aQui. Betinho Albertassi é um deles. “Só vejo o subsídio (como solução). Vou dar o exemplo da Light, que é uma concessionária pública, não há gratuidade na eletricidade para idosos, estudantes…; no transporte público tem, e alguém tem que pagar isso”, dis- parou, salientando que é justa a gratuidade (nos ônibus, grifo nosso) existente.
“Temos que manter a gratuidade para quem é de direito. Mas sabemos que as empresas também estão sofrendo com o aumento dos custos e a diminuição dos passageiros”, salientou Betinho, lembrando que em 2022 a Câmara de Volta Redonda aprovou um projeto para que a prefeitura subsidiasse linhas municipais deficitárias ?. Só que o subsídio até hoje não foi repassado às empresas por culpa da secretaria de Transportes.
“Em seis meses a SMTU não repassou um tostão às empresas”, dispara uma fonte.
A tese do subsídio é defendida também por Luciano Mineirinho. E o vereador diz que se surpreendeu ao conversar com um empresário do setor e ficar sabendo que o aumento das passagens de ônibus já não é mais prioridade em Volta Redonda. “Eu vejo como a única solução um subsídio na tarifa”, disparou, defendendo que a ajuda deveria ser custeada pelo governo Federal. “Não é uma defesa das empresas, mas é que alguém tem que pagar o aumento dos custos e as legítimas isenções que existem (como idosos e estudantes)”, completou Mineirinho, indo além: “Um empresário me disse que não seria bom (para o setor) um reajuste na tarifa cobrado diretamente do passageiro. Um aumento na passagem tornaria desigual a disputa com os transportes alternativos, como o Uber. Por isso imagino que o subsídio seria a melhor solução”, disse Mineirinho, que é contador.
Jorginho Fuede endossa a opinião dos colegas de Parlamento. E destaca que oferecer o subsídio seria pensar na população que precisa de um transporte público de qualidade. “Foi justamente pensando nessas pessoas que eu votei – no ano passado – a favor do subsídio para as linhas deficitárias. Toda ajuda que se possa dar para que o transporte melhore é bem-vinda”, completou, sendo acompanhado pelo vereador Paulinho AP. “Sou favorável a um subsídio dado pelo governo Federal para ajudar a custear as gratuidades, como as de idosos e estudantes”, resumiu, tentando aliviar a pressão sobre Neto, que poderia adotar a mesma postura do prefeito de Resende, de assumir o pagamento da diferença entre o valor da tarifa técnica, de R$ 6,35 para R$ 4.40 que os resendenses vão pagar na roleta.
O vereador Renan Cury ressaltou a queda de passageiros nos últimos anos, desde o início da Covid-19, no transporte coletivo, o que diminuiu a arrecadação das empresas, tendo levado, inclusive, a Sul Fluminense, a maior do setor, à falência. “Entendo que a solução passa pelo subsídio. Hoje, a população está sofrendo com um transporte ruim, atrasos nos horários (de pico) e falta de ônibus por conta da queda no número de passageiros. Acredi- to que essa seria uma solução pensando em melhorar o serviço”, afirmou.
Há, pelo que a reportagem apurou ao conversar com os parlamentares, uma unanimidade na ideia de que a solução para os problemas em Volta Redonda (vale também em Barra Mansa, grifo nosso) seria mesmo a prefeitura propor o pagamento de um subsídio mensal, como vai ocorrer em Resende) às empresas para compensar o aumento dos custos e a queda no número de passageiros. Poderia até exigir melhorias por parte das empresas, é claro. O último reajuste dado na tarifa em Volta Redonda foi em 2021, quando a passagem foi para R$ 4,20. Antes disso havia sido em 2017, quando passou para R$ 3,80.
Em Belo Horizonte, onde as empresas brigam na Justiça para aumentar a passagem das linhas municipais – de R$ 4,50 para R$ 6,90 -, o reajuste pedido pelo setor correspon- dea53%.Seomesmo reajuste fosse adotado em Volta Redonda, a passagem iria de R$ 4,20 para R$ 6,43. Quem aguenta?

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