‘Sinal amarelo’

Por Roberto Marinho

Médicos e funcionários serão contratados pela OS

O brasileiro tem mania de hospital. Dor de cabeça? Vai no hospital. Topada no dedão do pé? Procura um hospital. Caspa? Corre pro hospital. Tirando os exageros, a constatação é séria e causa um problema conhecido em cidades onde a Saúde é melhor estruturada, como Volta Redonda. Questões simples, que poderiam ser resolvidas com uma visita ao postinho de Saúde do bairro, acabam indo parar nas emergência dos hospitais públicos, provocando a demora no atendimento dos casos mais complexos. E sérios.

 

Parte desta cultura pode ser mudada com poucas ações, como a que a secretaria de Saúde de Volta Redonda tomou há cerca de cinco meses (desde julho) de priorizar no maior hospital público de emergência da região – o Hospital São João Batista – o atendimento dos casos mais graves, encaminhando os tidos como mais simples para outras unidades, como os Cais do Aterrado e Conforto, e principalmente, o Hospital Municipal Dr. Munir Rafful, o popular Hospital do Retiro.

 

O encaminhamento, para quem não sabe, é definido a partir da classificação de risco, sistema adotado em todos os hospitais – públicos e privados – da cidade do aço. Após passar por uma triagem, feita por enfermeiros, o paciente recebe a classificação do seu caso, indo de verde, para casos mais simples – como a dor de cabeça citada acima – até o vermelho, que são os casos onde existe risco de morte. 

 

“Quando os pacientes passam pela classificação de risco (no HSJB, grifo nosso), e são classificados como verde, que são diagnósticos menos graves, como gripe e dor de cabeça, são informados sobre o tempo médio de espera de atendimento e orientados a procurar as demais unidades de pronto atendimento, como Cais Aterrado, Cais Conforto ou Postos de Saúde e, se for o caso, também o Hospital do Retiro”, explicou Alfredo Peixoto, secretário de Saúde de Volta Redonda. Ele vai além. Diz que a medida “já deu bons resultados para a rede pública de saúde”.

Rebolando

Mas nem todos pensam assim. Fontes ligadas ao Hospital do Retiro, por exemplo, afirmam que a estratégia – de reduzir os casos no São João Batista – provocaram, de imediato, o aumento nos atendimentos na unidade em torno de 30%. “O Hospital do Retiro passou de 1 mil atendimentos diários para 1,3 mil”, dispara uma fonte. Como resultado, o hospital, que tem mais de 100 leitos, passou a viver lotado, o que era comum no São João Batista. Pior. As equipes de administração, médica e enfermagem estão tendo que rebolar para dar conta do recado. 

 

“Temos que nos virar para conseguir atender todo mundo. Contamos com o apoio de outras unidades – o Hospital do Idoso, os Cais, por exemplo -, mas estamos sempre correndo atrás de vagas para pacientes, porque ter um leito vago aqui no Hospital do Retiro virou uma raridade”, disse a fonte, que pediu para não ser identificada. Segundo ela, o único reforço que a direção do Hospital do Retiro conseguiu junto à secretaria de Saúde foi a contratação de um médico, que, mais ex-periente, estaria atuando nos horários de pico para ajudar a resolver os casos mais simples de forma mais rápida. “E olha que o pessoal do São João Batista nem atende mais os casos de pediatria. 80% do atendimento pediátrico é feito lá no Retiro”, compara a fonte.  

 

Até o famigerado Hospital Regional, que tinha tudo para se tornar um enorme – e caro – elefante branco, entrou na dança para ajudar a minimizar os problemas do Hospital do Retiro. “A direção do Hospital Regional tem sido parceira, nós quase sempre conseguimos vagas na UTI de lá (o HR só está com os leitos de UTI e centro de imagens em funcionamento, grifo nosso). Se não fosse isso, estaríamos com sérios problemas”, diz a fonte, aproveitando para reclamar que a postura, infelizmente, não é demonstrada pela direção do HSJB. “Do (hospital) São João Batista não recebemos apoio algum, muito pelo contrário. Parece que não há disposição nenhuma em ajudar, mesmo sendo todos da mesma rede”, afirma.

Sobre a entrada em funcionamento do Hospital Santa Margarida – que foi adquirido pela prefeitura de Volta Redonda em dezembro do ano passado -, o que poderia ajudar a desafogar as outras unidades, a secretaria de Saúde afirmou que a unidade deveria entrar em operação já em dezembro. O que ainda não ocorreu. “Não recebemos nenhuma informação sobre a abertura do Santa Margarida”, disse a fonte do Hospital do Retiro.       

Tudo cheio

Com tudo isso, após uma visita ao Hospital do Retiro acompanhando um paciente, o repórter do aQui pôde perceber que, de fato, a unidade está bastante cheia. No dia da visita, terça, 5, havia dois pacientes alojados em macas no corredor da unidade. Só que o esforço da equipe do HMMR para manter a normalidade tem dado resultados, e a qualidade nos atendimentos tem se mantido.   

 

Sem se identificar como jornalista, o repórter conseguiu conversar com alguns pacientes, e a maioria tem uma opinião positiva sobre o atendimento na unidade. Como se tratou de uma conversa informal, os pacientes não serão identificados. “Está muito bom (o atendimento), todo mundo é muito atencioso. Hoje teve até quiabo verdinho no almoço, e sem baba!”, relatou a acompanhante de uma paciente, satisfeita até com o cardápio do hospital. “Eles são atenciosos e sempre estão passando para perguntar se estamos precisando de algo. Os médicos, enfermeiras, todo mundo é muito atencioso”, disse uma paciente.  

 

Conversando informalmente com um funcionário, após fazer a observação de que o hospital estava bastante cheio – “Tem sido assim desde julho”, frisou ele – o repórter questionou se o número de reclamações dos pacientes havia aumentado muito. “Aumentou sim, mas porque estamos atendendo mais gente. Ao mesmo tempo, também aumentou o número de elogios, porque estamos nos desdobrando para manter tudo funcionando bem”, afirmou o funcionário, que não sabia que estava conversando com um jornalista.

 

A  sorte dos pacientes – e da própria prefeitura – pode mudar. É que o Hospital do Retiro vai passar a ser administrado, a partir do dia 19 desse mês, por uma OS, contratada pela secretaria de Saúde de Volta Redonda, pelos próximos 24 meses.  Mais exatamente pela Mahatma Gandhi, de Catanduva (SP). Alfredo Peixoto, em nota aos jornais, diz que a medida vai melhorar a saúde do município em vários pontos. “Precisamos dar mais agilidade na Saúde e essa mudança vai proporcionar isso. Para os funcionários também melhora, porque muitos serão contratados com base na consolidação das leis trabalhistas, ou seja, sairão da contratação por RPA (Recibo de Pagamento Autônomo)”, explicou, garantindo que a OS terá metas a cumprir. E que a fiscalização dos trabalhos será feita, além da secretaria municipal de Saúde, pelo Conselho Municipal de Saúde.

 

Samuca Silva é outro que aposta na mudança de gestão. “Saúde é prioridade em nosso governo e estamos ajustando, realizando melhorias. Adquirimos o Hospital Santa Margarida que, em breve, vai ampliar o atendimento na cidade. O Hospital do Idoso já é uma realidade e, agora, o Hospital do Retiro vai oferecer um atendimento mais ágil e eficiente para a população”, crê.

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