Por Vinícius de Oliveira
A sessão na Câmara de Volta Redonda na noite de terça, 29, foi atravessada por um pedido de socorro por parte do representante da ‘Ocupação Reflexos do Amanhã’, um grupo de sem-tetos que, junto com a ‘Ocupação da Paz’, reúne cerca de 100 famílias vivendo em um terreno abandonado, há pelo menos 40 anos, localizado na fábrica de cimentos Tupi, no Padre Josimo e Belmonte.
Maicon Quintanilha, graças ao presidente da Casa, Paulo Conrado, pôde revelar o drama que eles estão vivendo aos parlamentares, por conta de uma possível omissão da prefeitura de Volta Redonda, que parece querer ignorar o problema. “Imagina 100 famílias, com muitas dificuldades financeiras, irem a uma audiência na Justiça para negociar o pedido de reintegração de posse a pedido da empresa, e o único órgão capaz de apresentar alternativas para o nosso caso, que é a prefeitura, simplesmente não apareceu. Não mandou nenhum representante”, denunciou.
Maicon se refere a uma audiência que aconteceu na segunda, 28, quando seria definido o destino das famílias do ‘Reflexos do Amanhã’ e ‘Paz’. É a segunda vez que a empresa dona da terra, identificada no processo como Mape Incorporação e Empreendimentos Ltda, recorre à justiça pedindo a reintegração da posse. A primeira foi em 2021, quando a polícia expulsou as famílias do lugar. Sem ter para onde ir, decidiram levantar acampamento na praça da Prefeitura, no Aterrado. Ficaram lá em barracas improvisadas, contando com a solidariedade de moradores por 72, dias como forma de protesto. “Fomos à audiência marcada com a intenção de negociar com a prefeitura. Mas ela não foi. A política do atual governo sempre foi de nos invisibilizar, manter as ocupações desconhecidas
da população”, denunciou Maicon, fazendo questão de salientar que eles existem. “Somos volta- redondenses. Nossas crianças estudam nas escolas da rede, e nossas famílias são cadastradas na Smac. Trabalhamos na cidade”, disparou.
Questionada por que não teria ido à audiência, a prefeitura de Volta Redonda não se pronunciou até o fechamento desta edição. Contudo, segundo Maicon, a ausência do poder público acabou rendendo mais tempo às famílias. “A empresa queria nossa saída de forma imediata. Se dependesse dela, hoje mesmo estaríamos na rua. Como a prefeitura não foi e definitivamente não temos para onde ir e nem condições de sairmos em tão pouco tempo, a juíza entendeu a gravidade e nos deu 90 dias para resolvermos a situação. Agora, estamos apelando para os vereadores, pedindo ajuda não para lutar por nós, mas para lutar com a gente por moradia digna”, afirmou o líder comunitário, fazendo referência a Edson Quinto, vereador que tem o Belmonte e adjacências como reduto eleitoral.
Em resposta, o vereador fez menção às suas raízes. “Eu não nego que vim da periferia. Eu tenho muito orgulho disso. E da mesma forma que conseguimos avançar em prol da ocupação ‘Dom Waldyr’ também vamos batalhar para ajudar o ‘Reflexos do Amanhã’ e a ‘Ocupação da Paz’. Estarei junto com eles nessa luta”, prometeu Quinto.
O vereador Luciano Mineirinho, sensibilizado com a história, propôs a criação de uma comissão de parlamentares para negociar com o prefeito Neto. “Em março estive lá, acompanhado do deputado Munir Francisco e da deputada Dani Monteiro. Vi de perto as dificuldades pelas quais essas pessoas passam. Não tinham nem água para beber. E o que a gente tem feito é cobrar do poder executivo algumas atitudes”, disse.
Junto com Quinto e Mineirinho, fazem parte da comissão que acompanhará o drama dos sem teto do Padre Josimo e Belmonte os vereadores Raone, Vampirinho e Lela. “Eu fui morador de área de posse. Cheguei com dificuldade onde estou hoje e sei a realidade de cada um. Por isso, a gente se coloca à disposição para andar lado a lado. Vamos fazer a nossa parte. Lembrando que o PAC (Programa Aceleração do Crescimento) do governo Federal prevê a criação de 147 moradias populares em Volta Redonda pelo ‘Minha Casa Minha Vida’”, disse Raone.
No espaço de três anos, as duas ocupações transformaram as terras que foram da Tupi, atualmente considerada pelos órgãos ambientais como de alta contaminação por escória e rejeitos químicos, em um ambiente familiar: construíram hortas e escolas comunitárias, além de pequenas casas de alvenaria, que podem ser derrubadas a qualquer momento caso a prefeitura não apresente uma solução. “Queremos que a prefeitura faça a desapropriação de onde estamos. São 20 mil metros quadrados de uma gigantesca terra com mais de 600 mil metros quadrados. É quase um bairro inteiro abandonado. O mato tá crescendo e ali está virando local de desova. Se não fizer a desapropriação, que cobre os valores devidos à prefeitura pela empresa”, pontuou Maicon.

