Sem ‘gás’

Secretária de Saúde diz que foi obrigada a reduzir nível de internações nos hospitais para garantir oxigênio para a população

Vinicius de Oliveira

O caos registrado em Manaus devido à falta de leitos e, principalmente, oxigênio para pacientes da Covid-19, poderá se repetir em outras cidades do Brasil. A previsão é de especialistas da área, convictos de que a falta de ações mais duras para frear a pandemia, somada à negligência do governo Federal, serão os grandes responsáveis pelo descontrole da infecção. Um dos municípios que pode viver esse inferno em pouco tempo é Volta Redonda. Na semana em que a prefeitura confirmou mais 6 mortes pela doença, totalizando uma perda de 434 vidas e ainda o afrouxamento de algumas medidas de combate ao novo coronavírus, como a reabertura do Parque Aquático da Ilha São João e a volta das aulas presenciais, a secretária de Saúde, Conceição de Souza, avisou que a cidade do aço pode não conseguir ofertar oxigênio para todo mundo.

De acordo com Conceição, que, inclusive, repassou a notícia a vereadores que a procuraram, Volta Redonda não conta com uma estrutura adequada para garantir oxigênio e nem leitos suficientes para a população. “Não é que falte oxigênio. Os hospitais, na verdade, não têm estrutura. Por isso, tive que baixar o nível de internações”, anunciou a secretária, sem dar maiores explicações, deixando no ar uma desconfortável sensação de pavor.

Segundo Conceição, a média de infecção por coronavírus em Volta Redonda atingiu números alarmantes e, se o ritmo for mantido, a saúde do município pode entrar em colapso. “Temos atualmente uma taxa de 38% de positividade (índice de pessoas que testaram positivo para Covid, grifo nosso). Já foi pior. Ano passado o município passou de 40%, mas ainda é um índice alto. Precisaríamos de pelo menos 40 mil metros cúbicos de oxigênio. A empresa não nos fornece isso tudo”, completou, referindo-se à White Martins, empresa que fornece oxigênio para os hospitais da rede municipal.

Isso não é tudo. Conceição afirma que o município sofre com a escassez de um medicamento de suma importância para os pacientes que se encontram internados nas UTIs (Unidades de Tratamento Intensivo): a noradrenalina. “Falta esse medicamento nos almoxarifados da secretaria de Saúde. Diante dessa situação, o município vem tentando fazer permutas com o governo do Estado”, alertou Conceição, que criticou as medidas mais severas tomadas pelo ex-prefeito Samuca Silva quando ainda estava no controle do Palácio 17 de Julho. “Não existe fechar as fronteiras de uma cidade que vive de outras cidades. Também não faz sentido sanitizar centros comerciais já que os bairros mais afastados, que são focos da doença, continuam com o vírus circulando. É gastar dinheiro à toa”, destacou.

Procurada para falar a respeito da oferta de oxigênio, a secretaria de Comunicação do prefeito Neto confirmou que Volta Redonda passa por uma situação preocupante. Indagada se a White Martins teria diminuído o fornecimento do gás, garantiu que não, mas revelou que existe uma dívida para com a empresa, responsabilizando a gestão passada por um suposto calote. “Não há problema neste sentido (com a White Martins, grifo nosso). A atual administração encontrou uma grande dívida sem ser paga da gestão passada com a empresa, mas que está sendo equacionada”, revelou.

A Secom explicou ainda que o foco do problema, que pode comprometer o município inteiro, estaria no Hospital do Retiro. “A usina montada no Hospital do Retiro pela administração passada não comporta a estrutura da unidade. Além disso, encontramos um problema de manutenção na rede de gases em algumas unidades intermediárias. Isso tudo está sendo documentado e será levado ao Ministério Público. Se confirmado, é algo muito grave”, finalizou.

Também através de nota, a White Martins procurou tranquilizar os voltarredondenses e salientou que, embora o município esteja em débito, continua fornecendo oxigênio. “A White Martins informa que o fornecimento de oxigênio está sendo realizado normalmente, conforme contrato estabelecido com algumas unidades de Saúde da prefeitura de Volta Redonda. Portanto, não procede a informação de que houve redução do fornecimento em função de débitos com a empresa”, diz.

Na nota, a empresa salientou que em dezembro houve um aumento considerável da demanda por oxigênio em Volta Redonda e que, embora tenha baixado em 2021, o consumo continua elevado. “O consumo de oxigênio para a região registrou volumes um pouco acima da média em dezembro, mas no início deste ano (janeiro) já foi registrada uma leve redução”, avaliou.

Por fim, a White Martins deixou um recado para a prefeitura de Volta Redonda. “Com relação ao abastecimento aos municípios durante a pandemia, a White Martins fez questão de avisar que também segue fornecendo o produto regularmente. Entretanto, é importante reforçar que cabe aos hospitais sinalizar as necessidades de acréscimo no fornecimento do produto. Compete às instituições de saúde informar, formalmente e em tempo hábil, qualquer incremento real ou potencial de volume de gases às empresas fornecedoras”.

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