Queremos sangue!

Roberto Marinho

O Hemonúcleo de Volta Redonda está, para variar, com seu estoque de sangue quase a zero. Com o inverno – que quase sempre provoca a fuga dos doadores – e nos últimos meses com a Covid-19 e as campanhas de isolamento social, sem contar as dúvidas que tomam conta sobre poder doar estando contaminado, a situação, que já era delicada, se tornou ainda pior. Mas, para tudo há remédio, e a receita quem fornece é o responsável técnico pela unidade, o médico Luiz Gonzaga Lula de Oliveira Lima. “A doação é um ato de amor”, resume, tentando mexer com os brios dos volta-redondenses.
Ele está certo. O Hemonúcleo precisa mesmo de muito amor para manter um estoque regular de sangue. “Em média, precisaríamos de 20 doadores por dia para manter o estoque. Deste número, 75% são liberados para doar e 25% acabam impedidos, por diversas razões. Agora, estamos recebendo apenas de oito a dez pessoas por dia – sem contar os que são impedidos -, o que é muito pouco”, afirmou o médico.
Lula, como o médico é conhecido desde os tempos em que foi vereador, ressaltou que o banco de sangue de Volta Redonda, que funciona anexo ao Hospital São João Batista, atende o próprio HSJB e ainda o Hospital do Retiro, o Cais Aterrado, os pacientes do SUS que procuram o Hinja e as cidades de Pinheiral e Piraí. “Hoje estamos bem abaixo do limite mínimo, porque caiu muito o número de doadores com a pandemia e o inverno”, lamentou, frisando que a volta das cirurgias eletivas na rede municipal de saúde também está aumentando a pressão sobre os estoques.
“Além da urgência e emergência, os procedimentos eletivos voltaram, e se calcula o estoque mínimo pelo número de cirurgias. Um hospital clínico tem menos consumo que um hospital cirúrgico, por exemplo. Hoje o perfil do Hospital São João Batista, que é o que atendemos em maior volume, é de um hospital cirúrgico de grande porte”, comparou o médico, explicando que a doação é fundamental porque o sangue é um produto único, sem substitutos conhecidos, e cada componente extraído – hemácias, concentrado de plaquetas e plasma – tem uma validade diferente, o que obriga à reposição constante do estoque.
“Não existe nenhum medicamento ou procedimento que possa ser usado no lugar do sangue humano. Além disso, cada hemocomponente tem uma vida média diferente: as hemácias, usamos bolsas de até 42 dias; já as plaquetas duram 5 dias, e o plasma, um ano”, disse Lula, salientando que uma doação pode ajudar até quatro pacientes que estejam precisando de tratamento com hemocomponentes.
Uma das estratégias que serão adotadas para tentar aumentar as doações, de acordo com Lula, é a extensão do horário de funcionamento do banco de sangue. “Hoje atendemos das 7 às 13 horas. Até o fim do mês vamos passar a atender das 7 às 15 horas”, disse, explicando que a mudança não é simples. Exige uma série de adaptações, entre elas toda a logística de levar as amostras das doações diariamente para fazer os testes de sorologia, em um laboratório na cidade do Rio de Janeiro.
Há um mês no cargo, Lula destaca que a infraestrutura do Hemonúcleo e a equipe que ele encontrou são “excelentes” e que está recebendo muito apoio do prefeito Neto e do diretor do HSJB, o vice-prefeito, Sebastião Faria. “Eles (Neto e Faria) estão valorizando muito o Hemonúcleo, dando todo o apoio. A estrutura e o quadro de pessoal são muito bons, só estamos tentando melhorar essa questão da captação de doadores para que o Hemonúcleo de Volta Redonda seja o melhor do interior do estado”, pontuou.
Quem teve Covid pode doar
Lula também esclareceu algumas dúvidas que aparecem relacionadas sobre quem pode doar sangue em tempos de Covid-19. Por exemplo, mesmo quem já teve a doença causada pelo novo coronavírus pode ser doador. “Quem já teve Covid deve esperar pelo menos 30 dias para doar, mas pode doar. Quem foi vacinado também precisa esperar: são dois dias para quem tomou a CoronaVac, e sete dias para as outras vacinas”, explicou o diretor do Hemonúcleo de Volta Redonda. Existem ainda, segundo ele, outras condições para quem quer doar sangue. O doador tem que estar em boa condição de saúde, pesar mais de 50 quilos, ter entre 16 e 69 anos – sendo que menores de idade devem possuir uma autorização formal do responsável legal – e não ter ingerido bebida alcoólica nas últimas 12 horas, assim como alimentos gordurosos três horas antes da doação.
O Hemonúcleo de Volta Redonda funciona das 7 às 13 horas – por enquanto -, de segunda a sexta, anexo ao Hospital São João Batista. Não é necessário agendamento prévio para realizar a coleta. É preciso levar documento com foto.
Banco de olhos retoma captações
Não é só o Hemonúcleo que sofre as consequências da pandemia com a queda nas doações. O Banco de Olhos de Volta Redonda, o maior no interior do estado do Rio, também teve as captações de córneas e outros tecidos oculares prejudicados. A unidade, criada há 10 anos e responsável pela captação em 34 cidades fluminenses, chegou a ter as operações parcialmente suspensas por causa da pandemia, o que afetou o número de órgãos captados: a média anual antes da Covid-19 era de 300 córneas por ano, enquanto em 2020 foram somente 174.
“Ficamos quase um ano sem captações de córnea de ‘coração parado’, que são aquelas mortes que têm como causas: acidentes, infartos. Então não pudemos fazê-las, apenas as de morte encefálica, dentro do centro cirúrgico. Retomamos as captações na primeira semana de março nas 34 cidades que o Banco de Olhos de Volta Redonda abrange e já conseguimos realizar 54 transplantes com as córneas da unidade”, destacou a coordenadora da unidade, a enfermeira Michele Antoniol. O material captado nos hospitais após a constatação da morte é levado para o Banco de Olhos, onde é examinado, armazenado e fica à disposição do Programa Estadual de Transplantes (PET), coordenado pela secretaria estadual de Saúde.
Tem mais. Mesmo com a retomada, Michele afirmou que a atividade ainda está prejudicada. Vítimas de Covid, por exemplo, não podem doar órgãos, e aquelas pessoas que já tiveram a doença precisam ter se curado há pelo menos 30 dias. Mas ela faz um apelo para a conscientização das famílias – que são quem pode autorizar a doação -, já que o gesto pode ajudar até quatro pessoas: são captadas as duas córneas e duas escleras (camada branca do globo ocular), que podem ir cada uma para pacientes diferentes.
“A família é que autoriza a doação de todos os órgãos e tecidos. Então, em vida, a pessoa precisa anunciar isso para a sua família. Parentes de até segundo grau – mãe, pai, cônjuge, filhos – é que irão autorizar a doação. Não vale mais o documento. Por isso buscamos fazer um trabalho de sensibilização através de palestras sobre a importância da doação de órgãos e tecidos”, destacou Michele.
O Banco de Olhos de Volta Redonda fica anexo ao Hospital São João Batista e funciona 24 horas com plantonistas. Para notificação de óbitos e possíveis doadores, os telefones são 08000-225742 ou (24) 3343-3935. A unidade também está aberta a esclarecimentos sobre a doação de órgãos e tecidos.

Em Barra Mansa, carência maior é de sangue O negativo e positivo

A doação de sangue é sazonal: com a chegada do inverno, os hemonúcleos de todo o país sofrem com a queda no estoque do insumo. Além do frio afastar os possíveis doadores, doenças respiratórias como gripes e resfriados impedem a doação. Com a pandemia, a situação só piorou. Por isso o Hemonúcleo de Barra Mansa está fazendo uma convocação para a população doar sangue e ajudar a repor os estoques da unidade, que estão baixos.
“Com a chegada do inverno, as doações diminuíram muito”, afirmou a coordenadora da unidade, Thais Mendes. Segundo ela, para facilitar a vida dos possíveis doadores, foi feita uma parceria com a secretaria de Assistência Social, que está cedendo o estacionamento do setor para eles. “É para dar mais um incentivo”, afirmou Thaís, acrescentando que o estacionamento fica na Rua Oscar da Silva Marins, 155.
O Hemonúcleo de Barra Mansa está precisando especialmente do tipo sanguíneo O, negativo e positivo. As doações devem ser feitas de segunda a sexta, das 7 às 11 horas, na própria unidade, que funciona anexo à Santa Casa de Misericórdia.

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