Puro marketing

Imunização em Volta Redonda avança; os óbitos, também. O que está dando errado?

Pollyanna Xavier

A secretária de Saúde de Volta Redonda informou na noite de terça, 22, que já teria vacinado quase 51% da população acima de 18 anos com a primeira dose da vacina. A declaração dada por Conceição Souza não é absurda. Só aparenta ser. É, na verdade, uma jogada de marketing, pois a pasta não errou nos cálculos. De fato, 50,7% dos voltaredondenses com mais de 18 anos já haviam, até a data, recebido a primeira dose de uma das três vacinas disponibilizadas pelo Estado. Acontece que o percentual imunizado não é formado por jovens, como ela quer que todos pensem. Muito pelo contrário. É de idosos e outros grupos prioritários que possuem comorbidades ou patologias associadas. E claro, essas pessoas realmente têm mais de 18 anos – algumas com 18, 40, 50, 60, 70 anos… até mais de 100. Quem ouviu Conceição falar na live do prefeito Neto foi levado a crer se tratar de um público realmente novo.
Conceição, que foi importada de Piraí para cuidar da Saúde em Volta Redonda, falou dos números da Covid-19 e das ações que sua pasta estaria desenvolvendo para enfrentar a doença. Citou, por exemplo, a famosa parceria com a Unimed para a testagem da população (antígeno e o RT-PCR), cujos dados financeiros são mantidos em segredo; as taxas de ocupação de leitos nos hospitais públicos e particulares e o avanço da imunização. Detalhe: o município ainda está atrasado na vacinação dos grupos prioritários em relação às cidades vizinhas. Na última semana, pessoas com 54 anos de idade ou mais foram vacinadas, enquanto, na região, a faixa etária já estava em 48 anos.
Dentro desse cenário dos grupos prioritários, foi que Conceição fez o cálculo para gabar-se de que 51% da população já teria sido vacinada. Para isso, ela considerou os dados do IBGE Cidade, que estima a população de Volta Redonda em 278.933 habitantes. Desse total, 211 mil teriam acima de 18 anos. Deve ter sido com base nestes números que Conceição fez a famosa regra de três: dividiu o número de vacinados com a primeira dose pelo número de habitantes maiores de 18 anos, depois multiplicou por 100. O resultado foi 50,7%. Na quarta, 23, o percentual já tinha saltado para 51,78%, com 109.269 vacinados.
O marketing da secretária de Saúde, que sobrevive às trapalhadas da pasta e ao aumento descontrolado das mortes provocadas pela Covid-19, esconde um dado interessante: no Brasil, é considerado jovem do nascimento até os 19 anos de idade. E, nesta faixa etária, Volta Redonda tem 4.723 eleitores – 504 deles entre 16 e 17 anos. Dos 20 aos 59 anos, quando a população é considerada adulta, existem 159.433 eleitores. Já entre os idosos – idade acima de 60 anos – que faziam parte do primeiro grupo a receber a vacina – existem 58.836 eleitores. Somando esses números, Volta Redonda possui 222.488 eleitores acima de 18 anos. O número não bate com o quantitativo usado por Conceição (211 mil) para afirmar que o município já vacinou mais de 50% de sua população. Ou seja, a matemática de Conceição dessa vez não fechou.
O aQui bem que tentou conversar com a secretária de Saúde na tarde de quinta, 24. Por mensagem no WhatsApp, Conceição disse que daria uma aula nas próximas horas e que a repórter poderia falar diretamente com a assessoria de imprensa da prefeitura de Volta Redonda. Ao fazer contato com Conceição, o aQui queria conhecer os reais números adotados por ela para classificar o percentual vacinado e entender por que o número de óbitos ainda é crescente mesmo com mais de 50% da população adulta vacinada. Pena que Conceição não quis responder.
Infectologista explica por que essa conta não fecha
Entender por que o número de óbitos continua crescendo em Volta Redonda – já está chegando em 1.100 –, mesmo com o avanço da imunização, é mais simples do que o cálculo feito por Conceição Rocha. A explicação é do pneumologista Gilmar Zonzin. “O cenário atual da pandemia tem se caracterizado por uma mortandade nas faixas etárias mais jovens, que ainda não estão cobertas pelo processo vacinal”, resumiu. Segundo o médico, o Plano Nacional de Imunização do governo Federal, que norteia os municípios na vacinação de suas populações, ainda não contemplou as faixas etárias economicamente ativas.
Segundo Gilmar Zonzin, a variante P.1 tem sido considerada a mais letal das mutações do Sars-Cov-2 e é justamente ela que tem circulado com maior frequência no Brasil. Essa variante é extremamente agressiva em organismo com relação de pré-existência de comorbidades ou não. “Hoje nós temos uma população móvel, que tem dificuldades de manter o isolamento porque precisa trabalhar, precisa fazer as compras de casa, que vai ao mercado, à farmácia e é um grupo claramente exposto que ainda não está no alcance da proteção vacinal. Por isto o aumento da mortandade”, explicou.
O especialista defende o avanço da vacinação na população mais jovem – atualmente mais exposta às novas variantes. Porém, reconhece que esse avanço não depende exclusivamente dos municípios. “Só temos como vacinar quando a vacina está disposta”, comentou, acrescentando que também acha estranho que municípios menos populosos consigam avançar mais rápido na vacinação na comparação com cidades grandes. “A gente tem observado uma falta de equalização. Municípios com uma densidade geográfica menor têm conseguido avançar melhor do que aqueles com a população maior. É estranho isto”, pontuou.
Para o médico, o governo Federal deveria autorizar a compra das vacinas pelas empresas privadas, que empregam um grande número de trabalhadores, justamente para imunizar mais rapidamente esse grupo. “Isto não vem sendo discutido com a iniciativa privada, mas deveria, para que as empresas imunizem seus funcionários”, defendeu. Em Volta Redonda, por exemplo, se a CSN tivesse autorização para aquisição de vacinas, a população vacinada iria aumentar consideravelmente, sem precisar de grandes cálculos ou jogadas de marketing.

Vacinas

Se tudo correr bem, hoje, sábado, 26, o governo do Estado vai distribuir cerca de 600 mil doses de vacinas para os 92 municípios fluminenses. Serão doses da Janssen, Coronavac e da Pfizer. É em cima desta promessa que Volta Redonda espera iniciar a vacinação de pessoas com 53 anos ou mais. “Nós precisamos de mais doses de vacina, porque capacidade para vacinar em massa, vacinar toda a população, nós temos. Estamos preparados”, argumenta Conceição, esquecendo-se, como convém, das confusões iniciais nos postinhos de Saúde.
Segundo Conceição, além da vacinação – que, embora atrasada, estaria andando do jeito que ela quer – a secretaria de Saúde também está apostando suas fichas na testagem e na atenção hospitalar. “Sobre a testagem, antes nós tínhamos cerca de 40% de positividade, hoje, juntando o teste de antígeno com o RT-PCR, não chega a nem a 18% os infectados. Observa-se com isso que vem diminuindo a circulação do vírus nesse momento”, crê.
Quanto à questão hospitalar, Conceição garante que houve queda na ocupação de UTIs de 90% para 34%. “Hoje não temos pacientes internados na UTI do São João Batista. Nos outros hospitais nossos números são 49% de ocupação de leitos na clínica médica da rede pública e 31% na privada. A rede privada também já chegou a ter 90% dos seus leitos ocupados, hoje tem 31%, caiu bastante”, comemorou, como se ninguém mais estivesse morrendo de Covid-19 em Volta Redonda.
Outro assunto comentado por Neto e Conceição foi a reestruturação da rede hospitalar. Segundo eles, no anexo da FOA no Hospital do Retiro estão sendo montados mais 30 leitos de CTI para Covid, com ventiladores pulmonares, respiradores, monitores multiparâmetros, etc. O próximo a receber investimentos em equipamentos de UTI será o Hospital São João Batista. Apesar do reforço no atendimento hospitalar, Volta Redonda continua registrando um número alto de óbitos. Até ontem, sexta, 25, 1.021 volta-redondenses morreram de Covid-19.

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