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Estado identifica variante nova em Porto Real, mas não sabe dizer se ela é mais letal do que as anteriores

Na semana que a secretaria estadual de Saúde divulgou um novo mapa de risco informando que os municípios do Médio Paraíba – exceto Itatiaia e Volta Redonda – evoluíram da bandeira laranja (risco moderado) para a amarela (risco baixo), a notícia de uma nova variante em Porto Real acendeu um alerta na região. Classificada como P.5, ela foi descoberta em abril por cientistas e pesquisadores do Estado, mas só foi divulgada na terça, 22. A demora tem explicação: o Estado passou os dois últimos meses analisando milhares de exames de pacientes infectados para tentar identificar resultados semelhantes aos coletados em Porto Real. Nada foi encontrado.
Segundo o subsecretário de Vigilância Epidemiológica do Estado, Mario Sérgio Ribeiro, Porto Real é o único município fluminense a registrar casos da P.5. Fora do Rio, São Paulo chegou a identificar um espalhamento tímido: apenas 19 casos. “Porto Real está muito próximo de São Paulo (…). 19 casos dessa mesma variante já foram localizados naquele estado e, até o momento, não é possível afirmar que ela seja mais letal ou mais transmissível”, alertou, informando que em Porto Real foram identificados quatro pacientes com a P.5.
O prefeito de Porto Real, Alexandre Serfiotis, confirmou o número de pacientes infectados, mas garantiu que os quatro voltaram às suas atividades normais. Eles cumpriram isolamento social e se recuperaram sem complicações. Um deles teria tomado as duas doses da vacina contra a Cofid-19, mas acabou infectado. “A Vigilância Epidemiológica do município me informou que todos já estão curados”, disse.
Segundo Serfiotis, as autoridades sanitárias de São Paulo teriam conseguido bloquear a contaminação da P.5 e, embora Porto Real não tenha tido tempo de fazer o mesmo, os quatro casos registrados foram os únicos até o momento. Para o prefeito, isto aconteceu porque a cidade tem avançado na imunização dos seus munícipes e no reforço das medidas clássicas de proteção, como uso da máscara, entre outros. “Nós estamos trabalhando muito para cumprir na íntegra as notas técnicas que definem os grupos prioritários. Temos mais de 30% da primeira dose de vacinas aplicadas, e uma média de 13% a 14% da segunda dose aplicada”, contabilizou.
A notícia da nova variante em Porto Real caiu como uma bomba no município, pois a secretaria de Saúde local só ficou sabendo pela imprensa na terça, 22. A partir daí, a pasta cobrou uma ex-plicação a respeito. Como resposta, foi informada que a nova linhagem do vírus é originária da B.1.1.28, que também gerou a P.1, P.2, P.3 e P.4. A P.5 é a sexta variante e possui a mesma estrutura da cepa original (a B.1.1.28), porém, com uma pequena mutação no spike (‘coroa’ do vírus que se liga à célula).
De maneira bem didática, pode-se dizer que toda vez que o vírus entra na célula humana e se multiplica, isso pode provocar erros no código genético, levando a mutações, às variantes. Para os cientistas, é natural e comum que isto aconteça, mas não há como prever, no caso das mutações e variantes do Sars-Cov-2, qual o real impacto no organismo das pessoas infectadas. Se o vírus encontra um corpo imunossuprimido, por exemplo, ele pode fazer um estrago. Há ainda casos em que o vírus escapa da imunidade adquirida (via vacina ou infecção natural), levando a pessoa às formas mais graves da Covid-19.
A identificação da nova variante foi feita pela equipe de cientistas e pesquisadores da SES, em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio, entre outros, que realiza o monitoramento genômico da Rede Corona-Ômica-RJ e, a partir das análises das amostras coletadas dos pacientes infectados, consegue sequenciar o genoma do vírus e descobrir suas variantes. Os dados do monitoramento mostraram ainda que a linhagem P.1 (originária de Manaus e conhecida como Gama, pela nomenclatura da OMS) continua sendo a mais frequente no estado do Rio. “A maioria dos casos registrados no estado do Rio é da P.1. Mas já identificamos seis variantes circulando. A última foi a P.5, identificada em Porto Real”, reforçou o secretário estadual de Saúde, Alexandre Chieppe.
Para entender como essas variantes são formadas, os cientistas explicam que cada vez que o vírus sofre uma mutação, um ponto ou uma pequena parte dele é modificada, mantendo a estrutura geral da proteína Spike intacta. Essa proteína é a responsável por ligar o vírus Sars- Cov-2 às células humanas e infectá-las. Nesta lógica, quanto maior é a circulação do vírus, maiores também são as chances de mutação dele, produzindo variações diferentes. “Por isso, o isolamento é importantíssimo para evitar o contágio e a mutação do vírus”, explicou Chieppe.
A parte boa dessa complicação toda é que as vacinas já aprovadas, dentro e fora do Brasil, têm como foco a proteína Spike. Neste caso, mesmo que o vírus sofra uma mutação, a proteína se mantém íntegra, fazendo com que as vacinas sejam eficazes contra essas variantes. Além das vacinas, as autoridades sanitárias do Estado do Rio orientam pela manutenção das medidas de proteção e avisam que os métodos de diagnóstico e tratamento da Covid-19 seguem os mesmos. “Não há alteração nas medidas sanitárias já adotadas até agora (…) é importante, inclusive, que os municípios continuem avançando na imunização de suas populações. Estudos mostram que todas as vacinas disponíveis no Brasil são eficazes contra as variantes identificadas até o momento”, concluiu a SES-RJ.

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