Polêmica da vacinação

Mateus Gusmão

A vacinação contra a Covid-19 segue gerando polêmica no Palácio 17 de Julho. Além das trapalhadas iniciais da secretaria de Saúde, que liberou 15 mil vacinas para moradores de outras cidades, a polêmica da vez envolve a antecipação da segunda dose da AstraZeneca. A cidade do aço foi uma das pioneiras em reduzir de 12 para 8 semanas a imunização das pessoas, mesmo com recomendações contrárias de médicos e da própria Fiocruz, produtora do imunizante.
O anúncio sobre a antecipação da dose foi feito na terça, 13, e, segundo a secretária de Saúde, Conceição de Souza, a redução está de acordo com o descrito na bula do fabricante. A decisão foi levada por ela a uma reunião do Cosems-RJ (Conselho de Secretarias Municipais de Saúde do Rio), na semana passada, do qual Conceição é presidente. O governo do Estado, claro, aprovou a medida, que já tinha sido reivindicada pelo vereador Renan Cury.
A nova estratégia visa acelerar a vacinação contra a Covid-19 tendo em vista a confirmação da circulação de novas variantes na região. O coordenador da Vigilância em Saúde de Volta Redonda, médico sanitarista Carlos Vasconcellos, comentou que as doses utilizadas na antecipação já seriam usadas na aplicação da segunda dose. Ou seja, significa que não há comprometimento do estoque para a primeira dose. “O intervalo de oito semanas não compromete a eficácia do imunizante, que tem estabelecido em sua bula que a aplicação da segunda dose (pode) ser entre 8 a 12 semanas”, esclareceu, sem comentar a possível perda da eficácia da mesma em torno de 20%, divulgada pela prefeitura do Rio de Janeiro.
Apesar do ‘ok’ dado pelo governo do Estado, diversas cidades fluminenses não aderiram à nova estratégia. Na região, apenas Rio Claro seguiu o conselho de Conceição. Algumas, como Porto Real, por exemplo, aguardam a nota técnica do Estado autorizando a antecipação da segunda dose. Já a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que produz a AstraZeneca no Brasil, reforçou que a imunização após 12 semanas garante maior cobertura vacinal.
“A Fiocruz esclarece que o intervalo de 12 semanas entre as duas doses considera dados que demonstram uma proteção significativa já com a primeira dose e a produção de uma resposta imunológica ainda mais robusta quando aplicado o intervalo maior. Adicionalmente, o regime de 12 semanas permite ainda acelerar a campanha de vacinação, garantindo a proteção de um maior número de pessoas”, argumentou a instituição em nota à imprensa.
Sobre as variantes, motivo para a antecipação das doses, a Fiocruz garantiu que a AstraZeneca é segura contra novas cepas. “Até o momento, a vacina produzida pela Fiocruz tem se demonstrado efetiva na proteção contra as variantes em circulação no país já com a primeira dose. Adicionalmente, em relação à variante Delta, uma pesquisa da agência de saúde do governo britânico, publicada em junho, aponta que a vacina da AstraZeneca registrou 71% de efetividade após a primeira dose e 92% após a segunda para hospitalizações e casos graves”, destacou.
A Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) também emitiram nota e se posicionaram contra a redução de 12 para oito semanas. Segundo os órgãos, o prazo de 12 semanas entre as doses conta com apoio da Organização Mundial da Saúde, que recomenda que os países com alta incidência de casos e restrições no acesso à vacina se concentrem em alcançar a maior cobertura possível com a primeira aplicação.
As duas instituições são unânimes em dizer que, se no Brasil tivesse vacina em abundância, poderia ser revista a estratégia de imunização. “É evidente que, num cenário em que não houvesse estoque limitado de doses, a estratégia de postergar a segunda dose das vacinas poderia ser reavaliada, no entanto, infelizmente, este não é o caso do Brasil e de muitos outros países neste momento”, defendem. “Do ponto de vista programático e de saúde pública, a decisão da extensão do intervalo entre as doses, em cenários de escassez de vacinas, tem como motivador a antecipação da proteção de maior parcela da população e consequente redução das mortes, hospitalizações e morbidade associada a esta doença”, recomenda as sociedades médicas.

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