quinta-feira, novembro 25, 2021

‘Perdeu!’

MCs são ‘desconvidados’ de festival em Barra Mansa após divulgação de ameaças

Roberto Marinho

Deu ruim: os MCs Poze e Cabelinho foram ‘desconvidados’ pela produção do Festival Barra Mansa (a LEG Entretenimento) logo após a divulgação das ameaças que os dois artistas de funk teriam recebido de criminosos ligados à facção Terceiro Comando Puro (TCP), como o aQui publicou com exclusividade na edição de sábado, 13. Em áudios e mensagens de texto, os supostos bandidos prometiam cometer atentado a tiros contra Poze e Cabelinho – que teriam ligações com o Comando Vermelho (CV), facção rival do TCP, quando esses estivessem se apresentando no palco do festival. O evento começou ontem (sexta, 19) e segue até amanhã, domingo, 21, no Parque da Cidade, com a presença de outros artistas não tão badalados.
A produtora do Festival Barra Mansa cancelou a participação dos artistas polêmicos depois da divulgação das ameaças. Alegou “motivo de segurança”, conforme afirmou em nota divulgada nas redes sociais no fim de semana passado. As ameaças também levaram o prefeito Rodrigo Drable a declarar que “artistas que fazem apologia ao crime estariam proibidos de se apresentar na cidade”. No domingo, 14, Drable foi às redes sociais para anunciar que havia liberado o licenciamento do festival, mas com a condição de que não houvesse apologia a drogas ou facções. “Para tranquilizar: em Barra Mansa não tem show de ‘artista’ que faz apologia a drogas ou facções criminosas. Estamos licenciando o evento, com a condição de que esse tipo de coisa não faça parte”, justificou.
Na terça, 16, Drable voltou a se reunir com o comandante do 5º CPA (Comando de Policiamento de Área), coronel PM Marcelo Malheiros. Na pauta, a estratégia de segurança que iriam adotar para a realização do evento no Parque da Cidade. Outro assunto foi o aumento do efetivo do 5o CPA – que engloba os batalhões da Polícia Militar em Volta Redonda, Angra dos Reis, Barra do Piraí e Resende – por meio do RAS (Regime Adicional de Serviço), onde policiais trabalham em dias de folga ou férias, como uma forma de complementar a renda e reforçar o patrulhamento.
Ao todo, 40 policiais de todos os batalhões participam do RAS, e segundo o coronel Malheiros, grande parte deles seria deslocada para o evento em Barra Mansa. “Nosso intuito é de traçar ações que garantam a tranquilidade dos frequentadores e trabalhadores do evento, com a presença de policiais militares em viaturas e a pé, visando também a segurança pública nas ruas de acesso. Vamos promover este reforço para auxiliar as ações do 28º Batalhão”, destacou o comandante, ressaltando que, conforme necessário, este efetivo extra pode ser deslocado para qualquer uma das cidades cobertas pelo 5o Comando. Ou seja, não haverá aumento no policiamento diário deste ou daquele município. Será de acordo com a necessidade do dia e da cidade.
Maré braba
Logo depois de o aQui ter divulgado as ameaças, ainda no sábado, 13, a produtora do Festival Barra Mansa anunciou o cantor Pixote e o grupo Clareou como substitutos de MC Poze e Cabelinho. O show em Barra Mansa não foi o único que Poze teve que cancelar. Em Rio Branco, no Acre, a secretaria de Segurança Pública mandou cancelar o show para garantir a “preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio”. E olhe que lá não foi registrada qualquer ameaça de facções criminosas ao artista.
O funkeiro de 20 anos – que tem mais de 7 milhões de seguidores nas redes sociais, e chega a faturar cerca de R$ 200 mil por mês, só com os shows – já confessou suas ligações com o tráfico na comunidade do Rodo, em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio. Ele teria sido integrante do Comando Vermelho, em guerra em todo o território nacional com o PCC (Primeiro Comando da Capital) – facção oriunda dos presídios paulistas, e considerada a maior organização criminosa brasileira da atualidade. No Rio de Janeiro, o aliado dos paulistas é o TCP, que enfrenta uma disputa com o CV pelo controle do tráfico de drogas e armas no território fluminense, tanto na capital, quanto no interior.
Em suas composições, MC Poze é polêmico e em várias músicas faz o estilo “funk proibidão”, com apologia a drogas e ao funcionamento das facções. O cantor, que já foi investigado pela polícia por causa das suas músicas, argumenta que fala sobre o cotidiano que vive e presencia na comunidade, e acusa as autoridades de segurança pública de tentar criminalizar o funk.

Por que a guerra entre o TCP e o CV?
O Comando Vermelho é a mais antiga organização criminosa brasileira (informal, grifo nosso). Surgiu em 1979, primeiro como Falange Vermelha, no presídio federal da Ilha Grande. Fruto da convivência entre detentos comuns e presos políticos, o grupo tinha como um dos objetivos melhorar as condições para os encarcerados, além de fazer caixa para bancar eventuais fugas. Para isso, usavam dinheiro cobrado de todos os criminosos que estavam em “atividade”, uma espécie de dízimo que ia para um caixa comum. A atitude deu respeito à facção entre a população carcerária, tanto que na década de 90, presos paulistas se inspiraram nos cariocas para criar o PCC, o Primeiro Comando da Capital.
Por quase 20 anos, o PCC e o CV foram aliados em todo o território brasileiro – divididos por regiões e estados entre os dois grupos – e nas fronteiras. Mas, com o avanço da milícia no Rio e a implantação das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) em várias comunidades cariocas, o CV começou a perder espaço e força.
Isso se refletiu nas fronteiras, e os antes aliados começaram uma guerra em 2016, quando o PCC avançou em territórios do CV na fronteira com o Paraguai, Bolívia e Colômbia. A disputa teve como desdobramento as diversas rebeliões ocorridas em presídios no Norte do país, onde grupos aliados das duas facções promoveram execuções em série dos rivais, com baixas significativas para ambos os lados. A disputa ainda continua e, segundo informações policiais divulgadas pela imprensa, os recentes assassinatos ocorridos na fronteira com o Paraguai têm ligação com a guerra entre as facções brasileiras.
O Terceiro Comando Puro (TCP), formado a partir de uma dissidência do CV, se aliou à facção paulista no Rio para combater o rival. Além disso, o grupo criminoso conquistou o apoio da milícia, que antes não participava da venda de drogas ilícitas, e reforçou ainda mais o seu poderio em todo o estado do Rio, incluindo o interior. Por isso, a apresentação de um cantor de funk que exalta uma facção, no território de outra, em um festival no interior do estado, se torna uma guerra particular e um caso de polícia. E salve-se quem puder.

 

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