O novo Juarez?

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COMPORTAMENTO: Odair revive trajetória que já levou um metalúrgico do Sindicato ao Palácio 17 de Julho

Pollyanna Xavier

Volta Redonda tem uma particularidade política que poucos municípios brasileiros compartilham: a influência direta dos metalúrgicos na construção de suas lideranças públicas. Em uma cidade que nasceu e cresceu em torno da CSN, não é raro que dirigentes sindicais se filiem a partidos políticos, e até ganhem alguma projeção política. Há um caso que permanece como referência até hoje: o de Juarez Antunes. Metalúrgico da CSN, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos e filiado ao PDT, Juarez tornou-se uma das figuras mais importantes – e polêmicas – da história sindical e política da cidade do aço na década de 1980. 

Sua trajetória, iniciada no movimento sindical, o levou à Câmara dos Deputados e, depois, ao Palácio 17 de Julho. Juarez Antunes foi eleito prefeito de Volta Redonda nas eleições de 15 de novembro de 1988, com cerca de 50 mil votos, o equivalente a aproximadamente 60% dos votos válidos. Na época, a eleição foi decidida num único turno, e a vitória ocorreu a menos de uma semana do fatídico 9 de novembro, quando três metalúrgicos foram mortos pelo Exército durante a invasão à CSN. A vitória de Juarez nas urnas, somada à liderança daquele movimento sindical, o projetou nacionalmente e fortaleceu sua imagem no cenário político local. 

Quase quatro décadas depois, outro metalúrgico, sindicalista e filiado ao mesmo partido, começa a chamar atenção por percorrer um caminho semelhante. Trata-se de Odair Mariano, atual presidente do Sindicato dos Metalúrgicos e uma das principais lideranças do PDT na região. Embora os contextos sejam bastante diferentes, as semelhanças despertam comparações. “Gostei”, respondeu Odair quando provocado pela reportagem do aQui. “Eu era menino quando Juarez liderou a greve. Eu tinha uns 12 anos, mas eu lembro dele na praça, que hoje leva o nome dele, dando ordens para pegarem o caminhão de som e fecharem a passagem da CSN. Ele enfrentava o autoritarismo do Exército. Essa é a principal memória que eu tenho daquela época”, contou Odair. 

Ser comparado a Juarez surpreendeu Odair. Ele mesmo, durante um bate-papo com o jornal, percebeu as semelhanças. “E não é que tem mesmo?”, reconheceu. “Acho que sei o que Juarez sentia quando liderava os trabalhadores. Na mobilização de 2022 na CSN, que deu vitória à nossa chapa nas eleições sindicais daquele ano, a massa estava toda com a gente, e aquilo nos dava muita força para continuar, para lutar, para enfrentar os patrões. Imagina em 1988, com uma projeção muito maior? A participação dos trabalhadores é o combustível que move qualquer liderança sindical”, analisou. Mês que vem começa a corrida para eleger a nova direção do Sindicato, e Odair é candidato à reeleição. 

Mas o fenômeno Juarez não é tão fácil de ser repetido, e Odair sabe disso. Nos anos 1980, Volta Redonda vivia um momento de intensa ebulição política. A abertura democrática do país coincidia com o fortalecimento dos movimentos sindicais, e a CSN estatal era um dos principais palcos dessa transformação. Foi nesse ambiente que Juarez se fez. À frente do Sindicato, ele tornou-se uma das vozes mais influentes da categoria e seu nome extrapolou os limites da cidade do aço, especialmente no período das grandes greves que marcaram a história da CSN. O reconhecimento abriu portas para a política e, em 1986, Juarez foi eleito deputado federal constituinte pelo PDT. Dois anos depois, liderou a greve de 88 e venceu a eleição para prefeito de Volta Redonda. 

Odair segue um caminho parecido. E mesmo que ele não tenha enxergado as semelhanças (demonstrando-se surpreso quando o jornal apontou todas elas), o PDT viu. “O partido sinalizou isso muito forte, mas a minha ficha ainda não caiu”, revelou quando questionado sobre lançá-lo a candidato a prefeito de Volta Redonda nas eleições de 2028. “Eu sou novo nesta caminhada política, falta conhecimento e estrutura”, admitiu. Mas, para a legenda partidária, Odair segue acumulando credenciais. Assim como Juarez, o atual líder sindical construiu sua liderança dentro da categoria metalúrgica, também chegou à presidência do Sindicato e, posteriormente, assumiu protagonismo partidário dentro do mesmo PDT. 

Desde que assumiu a presidência do diretório municipal do PDT, Odair vem ampliando sua presença no debate político regional e, orientado pela legenda de forma assertiva, passou a participar de discussões que vão além das questões trabalhistas. E é justamente essa combinação de fatores que alimenta as comparações. No fundo, ele sabe disso. “O cenário econômico hoje é muito diferente. Se eu chamar os trabalhadores para a greve, fico sozinho. Hoje, temos um outro público, o trabalhador de hoje não é o mesmo de ontem. Hoje são os filhos, os netos de quem estava lá atrás, mas com uma diferença muito grande. A tecnologia mudou o cenário. A CSN privatizada tem um poder econômico muito forte, o que deixa a geração de hoje mais insegura. Se fizerem greve, serão demitidos. A mobilização precisa ser feita de outra forma, os espaços precisam ser conquistados para além do sindical”, pontuou. 

Há ainda um outro ponto além das questões políticas e sindicais, que Odair não ignora. Na verdade, esse ponto é o que lhe manda recado: as represálias. “Todo líder incomoda”, comentou. “Até hoje eu não sei explicar as circunstâncias da morte de Juarez, se aquele acidente foi realmente um acidente ou se foi um atentado”, analisou. De fato, Juarez teve uma trajetória forte, porém, cercada por adversários. Pouco mais de um mês após tomar posse como prefeito de Volta Redonda, Juarez morreu em um acidente automobilístico, cujas circunstâncias até  hoje permanecem envoltas em mistérios. A morte precoce transformou sua trajetória em uma das mais emblemáticas da história da política local. 

Para Odair, a oposição é saudável, mas não deve ser negligenciada. Talvez seja justamente aí que a história de Juarez e Odair mais se aproximem. Não apenas pelo fato de ambos serem metalúrgicos, sindicalistas e filiados ao PDT. Nem porque um chegou ao Palácio 17 de Julho e o outro é apontado pelo próprio partido como um nome forte para tentar o mesmo caminho. A semelhança está no papel que cada um assumiu em seu tempo. Juarez representou uma geração de trabalhadores que acreditava que a transformação da cidade passava pelos portões da CSN. Odair parece compreender que, hoje, essa transformação exige ocupar outros espaços. E é justamente isso que ele está buscando fazer. A conferir.