Rica coloca funcionários em aviso prévio, e demissões ameaçam economia de Rio Claro e Barra do Piraí
Pollyanna Xavier
Já se passaram 108 dias desde que o Inea interditou a granja da Rica no distrito de Passa Três, em Rio Claro. O aviário está vazio, os frangos foram retirados e não há mais qualquer movimentação de caminhões no local. A unidade foi interditada no dia 16 de dezembro de 2025, a poucos dias do Natal, devido a uma série de irregularidades sanitárias e ambientais. Os funcionários ainda batem ponto diariamente na fábrica, mas já foram colocados em aviso prévio. Desde então, uma campanha pela proteção dos empregos foi lançada nas redes sociais. A adesão é grande, mas as chances de uma reversão são pequenas.
A granja de Passa Três chegou a ter 500 operários; em sua maior parte, moradores de Lídice e da Fazenda da Grama. Hoje, a unidade tem apenas uns 50 funcionários e, se todos forem demitidos, certamente, o impacto social e econômico no distrito será pior. A empresa ainda tem, em Rio Claro, no total, algo em torno de 200 a 300 funcionários, distribuídos entre as quatro plantas do município.
Para se ter uma ideia do estrago, no entorno da granja de Passa Três existe uma vila, habitada basicamente por funcionários da Rica. “A empresa, se não me engano, é a segunda maior empregadora de Rio Claro, só perde mesmo para a própria prefeitura”, comentou uma fonte do aQui, pedindo anonimato. “Vai afetar o comércio, a cidade, todo mundo”, alertou. Isso sem contar no consumidor final de todo o país, já que as unidades da empresa em Rio Claro produziam de três a 4 milhões de frangos/mês.
Tem mais. A fonte lembra que na unidade da Rica existente em Bananal (SP), muitos trabalhadores são de Rio Claro. “A fábrica de ração da Rica em Bananal, na divisa com o estado do Rio, emprega muita gente de Rio Claro, e estes também podem ser demitidos”, destaca.
A Rica, pelo que apurou o aQui, padeceu por três males: troca de comando, descaso ambiental e abandono sanitário. O primeiro, inclusive, levou aos dois últimos. O fato é que, em julho do ano passado, a empresa saiu das mãos da Reginaves Indústria e Comércio de Aves e passou à gestão do Grupo Fictor. Esse grupo, até então desconhecido, tentou comprar o Banco Master um dia antes de ele cair, oferecendo inacreditáveis R$ 3 bilhões pela instituição. A cifra é duas vezes o valor de mercado do próprio Fictor, que tenta provar que tinha capital suficiente para bancar a proposta.
Aliás, foi por conta desses R$ 3 bilhões que o Fictor virou alvo da Polícia Federal. Com a oferta bilionária e o escândalo do Master, investidores correram para resgatar recursos aplicados nas empresas do grupo, provocando uma severa restrição de liquidez. Sem ter como honrar os pedidos de resgate, o Fictor abriu falência: o grupo protocolou um pedido de recuperação judicial no Tribunal de Justiça de São Paulo, e, a partir deste episódio, as granjas voltaram ao domínio da Reginaves.
O problema é que, para conseguir voltar a operar a unidade de Passa Três, os antigos donos (Reginaves) precisam firmar um Termo de Ajustamento de Condutas com o Inea e o Ministério Público, com vários asteriscos no rodapé: eles terão de realizar todas as adequações exigidas pelo Inea e cumprir as etapas obrigatórias para obter a Licença de Operação (LO). Em bom português, precisam enfrentar um processo burocrático oneroso, porém necessário para voltar a operar com garantias ambientais e segurança sanitária. “Isso não ocorrerá”, dispara uma fonte do setor. “É melhor fechar”, preconiza.
A saga da granja de Passa Três é só um exemplo do que vem acontecendo com a empresa Rica. É que as outras duas unidades da marca localizadas em Barra do Piraí correm o risco de serem fechadas de vez – elas também foram interditadas pelo Inea – e mais centenas de trabalhadores devem perder seus empregos. O problema veio à tona em janeiro, quando o prefeito de Pinheiral, Luciano Muniz, pediu ao Inea uma fiscalização nas unidades, porque os moradores do entorno se mobilizaram para reclamar do mau cheiro e da infestação de moscas em razão das granjas. Na ocasião, o Inea encontrou um cenário de horror: carcaça de aves misturadas às aves vivas, animais doentes, ração estragada e até a captação superficial de recursos hídricos, sem autorização legal.
O flagrante ambiental aconteceu nas granjas de Dorândia e Vargem Alegre, ambas em Barra do Piraí. Nessa operação, o Inea multou a Rica em R$ 1 milhão e interditou as unidades, determinando que a empresa regularizasse a situação e buscasse o licenciamento ambiental obrigatório. Na semana passada, o Inea voltou às granjas para acompanhar o cumprimento das exigências e, mais uma vez, não gostou do que viu: em Vargem Alegre foi sentido um forte odor vindo de instalações insalubres e foram identificados maus-tratos às aves. Já em Dorândia, o cenário era mais animador: a empresa já havia retirado os animais e iniciado a limpeza dos aviários para a remoção dos resíduos, além de começar a demolição dos fornos de incineração.
Defesa dos empregos
Com a situação incerta, moradores de Rio Claro e Barra do Piraí, principalmente aqueles que têm parentes trabalhando nas granjas, resolveram lançar uma campanha pró-Rica nas redes sociais. Eles fizeram um cartaz com imagens de guerra e escassez e três hashtags com as frases #SomosTodosRica, #EmpregosImportam e #RespeitoÀsFamílias. Na publicação, sem pai da ideia, deixam claro que não são contra a adequação, mas que interditar as unidades “é desumano”. “Mais de 800 empregos em risco. Famílias dependem dessa renda para sobreviver; Não é só uma empresa, são vidas. Sim à adequação e não à interdição!”, escreveram. Há quem ache que a campanha estaria até sendo bancada pela Rica.
Para engrossar o coro, prestadores de serviços da Rica também demonstraram apoio à empresa. A Produsa Ltda – uma empresa de Barra Mansa especializada em análise de água – divulgou um comunicado em defesa da Rica. Nele, a Produsa diz que a relação com a empresa remonta a década de 1990 e que ela foi construída com base em confiança, continuidade e cooperação técnica. “O eventual encerramento das atividades de uma empresa do porte da Rica representa não apenas um impacto direto nas operações de parceiros comerciais, como também uma repercussão econômica mais ampla”, escreveram. O documento encerra falando da importância da continuidade das operações da Rica, considerando sua relevância histórica, econômica e social.
O aQui tentou falar com a Rica, até para saber o destino dos operários e se a empresa pretende firmar o TAC com o MP e o Inea, o que poderá garantir a continuidade dos serviços e o estancamento das demissões, mas ninguém da empresa foi encontrado. O espaço permanece aberto para a manifestação da Rica.

