Onde há fumaça…

Vereador apura se comandante da GM furou fila da vacina

O vereador Sidney Dinho, ex-PM, está em pé de guerra com o atual comandante da Guarda Municipal de Volta Redonda, João Batista dos Reis. E não é para menos. Segundo o parlamentar, Batista e outros oficiais do comando da GM teriam furado a fila da vacina contra a Covid-19 com o pretexto de que estariam participando de uma campanha de entrega de máscaras nas ruas, o que justificaria que eles poderiam passar na frente dos grupos prioritários de idosos etc. Detalhe: tudo isso antes do governador em exercício, Cláudio Castro, decretar que todas as forças de segurança também deveriam ter acesso prioritário ao imunizante (o que já foi revisto, grifo nosso).
“Se for verdade, é uma tremenda covardia com quem tá na ponta fazendo as rondas, patrulhando, pois estes estão muito mais expostos, cumprindo jornada de 12 horas de trabalho. Diferente de quem está sentado… Nem dá para falar o que eu gostaria… Em cima de uma cadeira. Na maior parte do tempo, ele [comandante] está dentro de uma sala”, desabafou Dinho na sessão de 31 de março. “Esporadicamente, para aparecer na mídia, a gente está vendo entregando uma coisinha aqui, outra ali, e aí chega essa notícia de que a chefia foi imunizada. Quero saber o que esses caras têm de diferente do GM que está efetivamente na rua. Esses deveriam ter prioridade”, ponderou, sem saber que, dias mais tarde, a corporação perderia uma de suas agentes para a Covid-19, a GM Ilça Romanelli.
A campanha de distribuição de máscaras a que o vereador se refere começou no dia 29 de março como parte do projeto ‘Patrulha Pela Vida’. A ação é inspirada em outro projeto do governo anterior, que reunia integrantes da secretaria de Esporte e Lazer, Guarda Municipal, Coordenadoria Municipal de Prevenção às Drogas, e secretaria de Fazenda. Atualmente, o ‘Patrulha Pela Vida’ conta com a participação apenas de GMs, que distribuem máscaras a populares, item obrigatório na prevenção à Covid-19, além de panfletos higienizados com informações sobre a doença.
Segundo a própria GM, a ação acontece diariamente nos centros comerciais e nos pontos de ônibus, onde existe uma maior concentração de pessoas. “Eu faço questão de participar dessa ação, é fundamental que toda a população use máscara, higienize as mãos e evite aglomerações. E ainda não promova festas clandestinas e aglomerações. Estamos combatendo essas irregularidades em prol da vida. Nosso intuito é orientar e conscientizar a população e os comerciantes”, afirmou Batista à imprensa.
Ao ser questionada sobre a denúncia feita por Dinho de que o alto comando da GM teria furado a fila da vacina, a secretaria de Comunicação do Palácio 17 de Julho foi taxativa ao dizer que a prefeitura não comentaria o caso. “Não comentaremos nada disso. Ninguém da GM recebeu vacina”, garantiu a Secom em nota ao jornal. “Qualquer denúncia do gênero que nos chegar oficialmente será apurada”, resumiu o jornalista Rafael Paiva, titular da pasta.
Para uma funcionária da secretaria de Saúde, que pediu para não ser identificada, se o alto comando da GM furou a fila, não foi nos postos de vacinação. “Que existe a possibilidade, existe, com certeza. Mas acredito que, se isso aconteceu, foi na esfera superior, porque a vacina passa por eles antes de chegar aos postos. Acho difícil alguém ter testemunhado o comandante sendo vacinado. Se aconteceu, foi na surdina, por ele fazer parte do comando”, avaliou.
Outra denúncia que a secretaria de Comunicação da prefeitura de Volta Redonda não quis comentar, também feita por Dinho contra Batista, diz respeito a um suposto caso de assédio moral cometido pelo comandante da GM contra um subalterno. O vereador relatou o caso na Tribuna da Casa na sessão de 23 de março. “Eu só conheço, por enquanto, a história. Não conheço o personagem. Mas um guarda que estava de serviço na rua precisou usar o banheiro. O procedimento normal quando o servidor precisa usar o banheiro é que o guarda acione uma patrulha para isso. Não entendo essa necessidade. Se o cara pode andar meio metro. Mas, enfim… Precisando fazer suas necessidades, o guarda em questão subiu por uma rua e procurou um estabelecimento. Ele atendeu um telefonema e, para sua surpresa, Batista passou na hora”, relatou Dinho.
Ainda segundo o vereador, o comandante da GM teria ouvido seu suboficial falando de outra funcionária do alto escalão da corporação enquanto usava o celular. “O Guarda foi acionado por essa outra funcionária, que quis saber se ele estava falando mal dela. Não satisfeito, em outro dia, Batista convocou esse mesmo guarda para prestar esclarecimentos. Neste momento, quis saber o teor da conversa feita pelo celular. O guarda se recusou a revelar o assunto e aí foi alvo da fúria do comandante, que teria batido na mesa, dizendo que era ele quem mandava lá”, continuou o vereador. “O comandante vem dizendo que a GM estava largada e veio para pôr ordem na casa. Mas não é assim que se administra um serviço público”, completou o vereador, salientando que o GM foi redirecionado para outra escala de plantão, o que poderia configurar o assédio.
Para Dinho, Batista cometeu tortura psicológica contra o guarda, que não foi identificado. “Para quem não sabe, existe um crime chamado tortura. E a tortura nem sempre é física. Ela é também psicológica. E na verdade, foram dois casos que chegaram até mim. Esse não foi o único. Mas é muito difícil apurá-los, pois os guardas municipais temem por represálias”, disparou Dinho, solicitando que a Câmara convoque Batista para dar esclarecimentos.
Segundo um interlocutor de Batista, o comandante está fulo da vida com o vereador Dinho e quer mesmo ir à Câmara dizer poucas e boas para o ex-policial. “Ele [o comandante] diz que não houve nenhuma tortura psicológica e que o guarda mencionado na denúncia não gosta de cumprir seus afazeres corretamente”, disse a fonte, sem mencionar o caso da vacina. Ou seja, o chefe da corporação não desmentiu, e nem confirmou a história.

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