Ocupando as ruas

Jovem secretário do governo Neto, especialista em arte urbana quer espalhar cultura por toda a cidade do aço

Roberto Marinho

Você pode não conhecê-lo pelo rosto ou pelo nome. Mas, com certeza, já viu um de seus ciclopes – símbolo de Volta Redonda, tema constante do seu trabalho -, sempre muito coloridos, espalhados pelos bairros da cidade, seja em muros, embaixo de viadutos, ou qualquer espaço urbano que haja para pintar. Ele é Anderson de Souza, o novo secretário de Cultura de Volta Redonda. Com uma carreira reconhecida e respeitada, tendo trabalhos em vários locais do Brasil e no exterior – focados quase sempre na interferência urbana, ou seja, locais comuns da cidade que recebem uma pintura ou grafite -, Anderson encara agora um novo desafio: comandar uma pasta cujos “assistidos”, os artistas, foram talvez os que sofreram maior impacto com a pandemia do novo coronavírus.
Com casas de shows, galerias e escolas de artes (seja pintura, música ou teatro) fechadas por causa da Covid, tanto a produção quanto o consumo de cultura mudaram drasticamente. Neste cenário, usar a criatividade e se reinventar passou a ser a saída, além da providencial ajuda oficial para que a arte e os artistas não sofram mais do que já estão passando com a pandemia.
Confira na entrevista exclusiva para o aQui quais são os planos de Anderson para superar as dificuldades da pandemia, levando cultura e arte – além de alívio para a alma – para a população de Volta Redonda.

aQui – Como encontrou a secretaria? E como será fazer cultura em meio à pandemia?
Anderson de Souza – De fato a cultura no ano passado sofreu bastante. Todos os equipamentos culturais da cidade ficaram fechados, o Espaço das Artes Zélia Arbex, o Memorial Zumbi, a Biblioteca Municipal Raul de Leoni… E eles precisam de uma boa manutenção. A biblioteca tem um gotejamento no telhado, que pode prejudicar o acervo – os livros, periódicos e outros materiais – então será preciso fazer esse reparo o mais breve possível.
O Zélia Arbex é uma estufa, um espaço fechado de vidro, e só pode ser utilizado com ar condicionado ligado, mas os três aparelhos estão quebrados. De qualquer forma, mesmo que estivessem funcionando, não teríamos como utilizá-los na pandemia, porque é um espaço fechado.
O Memorial Zumbi tem um problema histórico de infiltrações por que ele foi construído no nível abaixo da rua, e com um córrego ao lado. Então, toda a água que infiltra naquela área acaba indo parar dentro do Memorial, o que causa infiltrações, mofa tudo e prejudica o acervo que existe lá, além das atividades. Não é um problema do governo passado, existe desde que ele foi construído. O IPPU (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano) já fez um levantamento do que precisa ser feito e vamos tentar consertar. Mas o Memorial é tombado pelo patrimônio histórico, e tudo que for feito lá tem que ser com um cuidado muito grande. Esta é a estrutura física da secretaria que encontramos.
O lado positivo é que no ano passado, com a Lei Aldir Blanc, sancionada pelo governo federal, foram destinados R$ 1,7 milhão para Volta Redonda. A Aline (Ribeiro, ex-secretária de cultura, do governo Samuca) lançou 11 editais, contemplando todas as áreas – artes cênicas, visuais, música, etc. – e R$ 1,1 milhão já foram pagos aos vencedores dos editais.
Este ano, de março a dezembro, minha função será fazer a agenda para essas apresentações no Memorial Zumbi, na biblioteca e nas escolas. No Espaço das Artes Zélia Arbex temos uma proposta de ocupação diferente. Estes eventos serão presenciais ou online, e a partir de março nós começaremos a convocar os artistas selecionados nos editais. Então, em 2021 basicamente nós temos toda a programação da secretaria baseada nos editais da lei Aldir Blanc, com atividades o ano inteiro nos nossos equipamentos culturais e nas escolas. A verba federal cobre 2021 inteiro.

aQui – Quais são as prioridades e os planos futuros?
Anderson – A minha prioridade agora, como secretário, é pensar os projetos para 2022, e procurar meios de viabilizá-los. Eu sou artista e meu fazer é nas ruas, então uma das prioridades é levar a arte para a periferia, com ocupações urbanas, para dar mais visibilidade ao artista e à cultura.
Uma ideia é fazer o Circuito Urbano de Cultura e o Circuito Universitário de Cultura, que incluiria todos os centros universitários da cidade – Fasf, UGB, UniFoa e UFF – com atividades dentro dos campi. A ideia é que, por exemplo, uma exposição ou atividade que esteja sendo feita no Espaço das Artes Zélia Arbex, depois vá para os centros universitários. Com isso, além de prolongar o tempo de vida daquela atividade, se cria novos espaços para os artistas. Nós já começamos a conversar com alguns centros universitários e a receptividade foi muito boa.
Também queremos gerar renda, com a economia criativa. Já existem feiras de arte e negócios no Rio e em São Paulo, onde os artistas e os artesãos apresentam seus trabalhos. A prefeitura – fazendo a feira – funciona como elo entre os artistas e os clientes finais, que podem ser, por exemplo, arquitetos em busca de novas ideias para uma decoração diferente. A ideia é colocar essa feira no calendário oficial de eventos da cidade.
Com a pandemia, a cultura também vem sendo viralizada, e tenho um desejo muito grande que a cultura de Volta Redonda tenha uma boa presença digital. Queremos montar estúdios para gravações – sejam apresentações, aulas, ou outro formato – criando um canal de cultura online. Isso vai divulgar muito mais a cultura da cidade, e também pode gerar renda para os artistas. O artista não pode só depender do poder público.
Vou buscar muito as parcerias, buscando, por exemplo, o marketing cultural: por exemplo, uma empresa privada adotar a Biblioteca Municipal Raul de Leoni ou o Espaço das Artes Zélia Arbex. Ter o nome associado à cultura traz um ganho para a empresa.
Em relação às bibliotecas, queremos descentralizá-las, utilizando, por exemplo, os próprios CRAS (Centro de Referência em Assistência Social). Também queremos transformar a biblioteca municipal em um espaço acessível e digital, com piso tátil, livros em braile, e acesso digital ao acervo. Hoje, até onde eu sei, não existem bibliotecas públicas digitais.
Como esse ano não teve transição e já temos mais de 100 espetáculos contratados, vamos nos concentrar nos estudos de viabilidade, e ir atrás de parceiros para realizar os projetos em 2021. Vamos levantar os custos dos projetos e ir atrás dos parceiros.

aQui – Como deverá ser sua atuação como secretário?
Anderson – Minha atuação como secretário deve ser ampliar o diálogo com os artistas, com o setor privado – CSN, Unimed, várias empresas – funcionando como um relações públicas entre os artistas e a iniciativa privada. Com o cenário da pandemia e a crise financeira que a cidade está, essa é a melhor opção.

aQui – Qual é a proposta de ocupação diferente que você tem para o Espaço das Artes Zélia Arbex?
Anderson – O Zélia Arbex ficou fechado o ano passado inteiro, e não tem como ser utilizado na pandemia, por ser completamente fechado. Mas é a única galeria do sul do estado – talvez até do estado inteiro – que tem visibilidade para fora. Nós vamos fazer uma exposição voltada para fora da galeria, para as ruas. O nome é ‘Cultura pela Vida – é preciso viver e se proteger’, e busca conscientizar as pessoas sobre a importância do uso da máscara. Tiramos fotos de vários artistas e formadores de opinião – sem ônus algum para o poder público, foi uma doação dos retratados – com o tema do uso das máscaras. É um formato inédito, com a exposição voltada para fora da galeria.
Nesta mesma linha, procurando levar a arte e cultura para as ruas, temos uma proposta para a passarela que liga o Aterrado à Amaral Peixoto. Vamos fechar alguns trechos – como um túnel – e vamos colocar obras de arte. Também pensamos em fazer projeções nos prédios, o vídeo mapping, e as pessoas estarão passando nas ruas e verão essas projeções.
As pessoas confundem muito arte com entretenimento, mas eu penso que cultura tem o papel da formação e da transformação do indivíduo. Como a leitura, por exemplo, que tem um impacto muito positivo na vida das pessoas quando se torna um hábito.
A cultura é formação, é prevenção. Dizem por aí que “se você não fez show na Ilha São João, você não fez nada”. Eu penso totalmente o contrário. Meu papel como secretário é de formação. E também de abrir o diálogo com o conselho de cultura, os artistas e a iniciativa privada.

aQui – Em relação ao pagamento dos editais que foram lançados na gestão passada, houve algum atraso? O que está acontecendo?
Anderson – Quando os editais da cultura – dentro da Lei Aldir Blanc – foram abertos em Volta Redonda, foi destinado R$ 1,7 milhão para o município. Os primeiros editais abriram 600 vagas, mas nem todas foram contempladas e sobraram R$ 605 mil. Essa quantia iria ficar sem destino, e pela lei, se não fosse direcionado até 31 de dezembro, seria devolvido para o governo federal.
No dia 8 de dezembro passado a secretaria de Cultura abriu mais dois editais, para tentar dar destino a esses R$ 605 mil. Pela lei federal, se o valor não fosse destinado a algum projeto até 31 de dezembro, teria que ser devolvido. Mas no dia 29 de dezembro o governo federal baixou uma medida provisória determinando que se houvesse o empenho do dinheiro até o dia 31 de dezembro, esses valores poderiam ser pagos em 2021. E isso foi feito, todo o valor foi empenhado.
Então não há atraso. Todos os que foram empenhados nos primeiros editais já foram pagos. Agora serão pagos os editais do dia 8 de dezembro. Nós assumimos no dia 4 de janeiro, e um empenho desses demora entre um e dois meses para ser pago. Tem que passar pela PGM, Controladoria, Tesouraria, e então vai para a Fazenda para ser pago.
Ontem tive uma reunião com o Conselho de Cultura e mostrei a situação para eles. Do dia 8 de dezembro até ontem, foram 16 dias inativos. Não se passou nem um mês desde que os processos foram finalizados.

aQui – E parece que não está havendo tanta reclamação assim por parte dos artistas.
Anderson – Nós já tivemos a reunião com o Conselho de Cultura, onde expliquei toda a situação. Em 13 dias à frente da secretaria, já recebemos cerca de 20 artistas, e expliquei a cada um deles o que está acontecendo. Por isso, não houve reclamações.

aQui – O fato de ser um artista traz alguma responsabilidade maior, em relação a secretários anteriores?
Anderson – Nos últimos 24 anos, tivemos a Emiliana Casagrande como secretária de Educação e Cultura – porque ela era professora, mas também poetisa. Depois veio o Moa (Moacir de Carvalho), que era produtor de eventos e produtor cultural. Sobre a Rosane (Gonçalves) eu sei muito pouco, mas sei que ela era musicista, tocava algum instrumento (a ex-secretária do governo Neto entre 2013 e 2016 toca clarineta, grifo nosso). E a Aline (Ribeiro, secretária de Samuca) é atriz. Não sei se é a principal ocupação dela, mas ela tem um trabalho ligado às artes cênicas e à dança.
No meu caso, a arte é minha ocupação principal de 13 anos para cá. Por eu estar muito próximo – eu tenho formação em artes plásticas e fiz uma especialização em 2015, na Unicamp -, me ajudou a entender o fazer artístico e o artista. Não me dá uma responsabilidade a mais, me dá um conhecimento a mais para entender como funciona essa cadeia produtiva dos artistas, entender essa ansiedade, dar valor a um projeto artístico, que talvez quem não tenha essa formação não consegue dar essa importância devida.
Acho que ter um artista à frente da secretaria é um benefício muito grande, porque ela é uma equipe, então coloco pessoas com capacidade administrativa, para suprir uma deficiência que eu tenho, mas ter um artista, que entende o fazer artístico, que pensa com a cabeça do artista, acho que é o principal para você nortear suas políticas culturais. Então acho que não me dá uma cobrança a mais, mas é uma vantagem muito grande para eu poder construir ao longo desses anos um trabalho bom, que valorize os artistas e que faça com que a cultura chegue de uma forma melhor e mais ampla para a população.

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