O show VAI continuar

Barra do Piraí acaba com Baile da Fantasia, mas forças de segurança não dão conta da demanda

Vinicius de Oliveira

Bem que o aQui avisou na capa da edição da semana passada, com o título de ‘Hoje tem bailão?”. Teve. Aliás, foi uma megafesta clandestina. Batizada de Festa da Fantasia, transcorria tranquilamente na madrugada de sábado, 12, em uma área localizada no meio do Rio Paraíba, conhecida por Ilha da Balsa, na altura da Califórnia, em Barra do Piraí, até que as forças de segurança acabaram com ela. Segundo Policiais Militares e Guardas Municipais que estiveram no local, o ‘bailão’ reuniu cerca de 1.500 pessoas que se aglomeravam sem máscara.
Detalhe: a menos de um quilômetro de distância, ainda na Califórnia, bairro que faz divisa com Volta Redonda, acontecia outro bailão, o dos jovens da ‘After dos Crias’, que foi até o sol raiar sem que ninguém fosse incomodado pelos agentes da lei que participaram do cerco na Ilha da Fantasia. “Uma festa ao lado da outra e a GM e a PM só entraram em uma delas?”, perguntou de forma irônica um dos presentes.
Na entrevista aos jornais da região, o comandante da GM de Barra do Piraí, Enoch Sacchi de Mello, só falou de uma delas, a da Festa da Fantasia. E, segundo ele, a GM precisou da ajuda da PM para poder dispersar a multidão, já que muitos resistiram à ordem de voltarem para suas casas. Segundo ele, foi necessário utilizar a força por meio de bombas de efeito moral.
O dono da casa de shows, que fica na Rua 4, não foi localizado, mas, mesmo assim, foi autuado. A polícia levou para a delegacia o produtor do evento, cujo nome também não foi divulgado, além do DJ que tocou na festa, conhecido no meio artístico carioca como MC TH, um dos mais bem-pagos do ramo e velho conhecido dos volta-redondenses. Todos deverão responder por descumprir decreto municipal que proíbe eventos públicos e aglomerações enquanto durar a pandemia.
Só que a atuação das autoridades parece não preocupar TH. Na madrugada do baile frustrado, por volta das cinco horas, ele fez uma selfie na frente da sede da 88a DP. Horas antes, ele já havia postado em suas redes sociais uma outra foto avisando, de forma velada, a seus seguidores que estaria em Volta Redonda enquanto fazia propaganda para uma marca de roupas. “Sempre assim, no cotidiano somando os papéis. Fui, Volta R”.
No mesmo dia, TH postou outra foto, em Duque de Caxias, dando conta de que teria três shows para cumprir. Na legenda, como se previsse a batida policial, desejou que tudo corresse bem. “Mais uma noite de trabalho. Deus nos livre de qualquer imprevisto indesejável. Hoje são três shows. Bora?”, postou.
Festas clandestinas como a da Califórnia têm acontecido no Rio de Janeiro quase que com a mesma incidência de mortes por Covid, o que pode estar dificultando o controle da pandemia. Segundo a 32ª edição do Mapa de Risco da Covid-19, divulgada no dia 28 de maio pela secretaria estadual de Saúde, o Rio se mantém em bandeira laranja com risco moderado de contrair a doença. “Há piora do cenário epidemiológico em duas regiões que estavam com bandeira amarela (risco baixo) passando para a laranja: Baixada Litorânea e Centro-Sul Fluminense. As regiões Metropolitana I, Baía da Ilha Grande e Noroeste permanecem com risco alto (bandeira vermelha). Médio Paraíba, Metropolitana II e Serrana continuam com bandeira laranja. E o Norte Fluminense segue na bandeira amarela”, diz o relatório.
Mesmo assim, eventos noturnos superlotados pipocam pelo estado afora. Só na capital, a PM registrou 146 infrações relacionadas ao desrespeito de medidas de restrição só entre os dias 3 e 6 de junho. E por aqui, no interior, a situação não é muito diferente. Embora outro levantamento da secretaria estadual de Saúde divulgado no dia 14 mostre que Volta Redonda, mesmo tendo conseguido recentemente retroceder para bandeira amarela, alcançou esta semana a marca cruel de mil mortes pela Covid-19.
Embora não tenha números para apresentar, uma fonte do 28o Batalhão da Polícia Militar conta, de forma anônima, que a demanda é imensa e que as forças-tarefas que atuam nos municípios da região estão com dificuldade de acompanhar tantos ‘bailões’. “Os organizadores dessas festas são ousados, e a fiscalização fica difícil”, lamentou a fonte, afirmando que o serviço de inteligência da PM faz o que pode para interceptar os eventos. “Temos policiais infiltrados em grupos de redes sociais que tratam dessas festas e aí eles vão acompanhando o desenrolar, esperam que anunciem a data e o local, pois só fazem isso na véspera e fazem a autuação”, explicou.

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