quarta-feira, dezembro 1, 2021
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O coronavírus e a fome

Por Vinícus de Oliveira

A Ocupação Dom Waldyr Calheiros, uma área de posse do Belmonte, em Volta Redonda, já passou por poucas e boas. Desde 2015, ano em que os primeiros ‘posseiros’ ocuparam o terreno que seria destinado à Vila da Terceira Idade – um projeto do ex-prefeito Neto em convênio com o governo do Estado –, aquelas pessoas viveram tormentas indescritíveis. Sobreviviam sem luz, sem água encanada e sem dignidade. Tiveram que enfrentar a polícia, por diversas vezes, mandada para expulsá-los para que a terra voltasse às mãos do Estado. Com muita resistência, 14 famílias sobreviveram a tudo e se multiplicaram. Hoje são 54. Nunca imaginaram o que teriam pela frente, o mais perigoso desafio de suas vidas: o coronavírus.

Para essa reportagem especial, o aQui, com a ajuda dos moradores da ocupação D. Waldyr e de militantes de movimentos sociais, quebrou a quarentena e foi ver como essas famílias têm enfrentado a pandemia. Com água encanada há apenas poucos meses, depois da intervenção do prefeito Samuca Silva, os posseiros agora temem não só pela saúde, sempre precária, mas, também, pela manutenção do emprego das poucas pessoas que ainda trabalham. “O caos tá sendo instalado na ocupação. Tem muita gente desempregada. Algumas pessoas já estão começando a passar necessidades. A maioria das pessoas aqui é catador de reciclado, (mulheres) diarista e ajudante de pedreiro”, contou Flávia Siqueira Lemos Leandro, líder da ocupação.

“Como as pessoas, principalmente os ajudantes de pedreiro, estão sendo mandadas embora, metade da Ocupação não vai ter como se manter”, garante Flávia, enclausurada dentro de casa por ser do ‘grupo de risco’ do coronavírus. Ainda de acordo com a líder comunitária, cerca de 200 pessoas estão com dificuldade de matar a fome e o vírus. “Tá faltando dinheiro para comprar comida e material de limpeza. Muitos não têm como manter sua higiene pessoal”, pontuou.

Diante do desespero, os arrimos das famílias, desafiando as determinações das autoridades sanitárias e até do governo, preferem sair às ruas e enfrentar o vírus a morrer de fome. “Ainda tem gente aqui que não está respeitando a quarentena. Mas também não podem. Precisam trabalhar”, explicou Flávia. “Não dá para ficar em casa o tempo todo. Até para colocarmos o lixo pra fora precisamos ir à rua, pois o lixeiro não passa aqui dentro da ocupação”, revela.

Flávia conta que, assim como o arroz e o feijão, o sabonete não deve chegar até o final do mês. “Eu posso te dizer que tem gente que está tomando banho sem sabão simplesmente porque acabou e não tem dinheiro para comprar mais”, lamentou a líder comunitária, salientando que os moradores estão racionando material de limpeza. “Eles lavam roupa e a louça, mas economizando no que podem”, disse.

Os mais vulneráveis lá dentro, conforme lembrou Flávia, são os mais velhos. Ao todo, 10 idosos vivem na Ocupação Don Waldyr. “Eles são os que mais nos preocupam. Alguns têm quem cuide, mas tem muitos que moram sozinhos e não têm ninguém para ajudá-los. Por enquanto eles estão dentro de casa. Mas não por muito tempo. Quando as coisas apertarem de verdade, tenho certeza que irão para as ruas” afirmou, em tom melancólico.

Questionada se as famílias estavam sendo assistidas por alguma entidade ou pelo próprio governo, Flávia foi taxativa: não. “Ninguém tem nos ajudado”, afirmou, contando que nem a Igreja Católica, cujo bispo que viveu por anos lutando pelos mais pobres inspirou o nome da ocupação, lhes estendeu a mão. “Algumas pessoas da igreja disseram que nos ajudaria. Mas até hoje, nada…”, lamenta.

Enquanto a Cúria permanece em quarentena, a prefeitura de Volta Redonda tem se mexido. Atualizando diariamente a população sobre os dados do coronavírus, o prefeito Samuca Silva tem divulgado medidas austeras para tentar conter a proliferação da epidemia. Determinou, entre outras, o fechamento de escolas, quadras e lojas. E faz campanha para que a população evite sair nas ruas sob pena de serem enquadrados pela polícia.

Para ajudar os que mais precisam, Samuca determinou até que os diretores das escolas municipais entrassem em contato com o maior número de famílias possível para cadastrar crianças que precisam de marmitex. O alimento deverá ser disponibilizado pela empresa que fornece a merenda escolar em tempos normais. “Não dá para ser cesta básica, pois o dinheiro vem para preparar a comida”, resumiu, avisando que determinou que a secretaria de Educação desenvolvesse um aplicativo para que os alunos possam ter aula à distância. “Até quarta-feira teremos essa resposta. Pedi um aplicativo nos moldes do que já existe na rede particular, assim teremos menos aulas a pagar lá na frente. O aplicativo não substitui a sala de aula, mas já ajuda bastante”, avisou.

Na segunda, 23, durante sua live diária, Samuca deu mostras de que está preocupado com as condições de higiene dos mais carentes. De acordo com o prefeito, supermercados de Volta Redonda teriam doado 50 mil sabonetes para a população que vive em situação de risco.  “Eu mesmo liguei para os empresários e eles me deram essa notícia boa. Quer dizer que, por enquanto, a prefeitura não vai precisar comprar sabonetes para essas pessoas”, disse, indo além. “Vamos priorizar os que mais precisam”.

Ainda na live, Samuca e o secretário de Saúde, Alfredo Peixoto, avisaram que a prefeitura teria disponibilizado uma espécie de abrigo temporário para pessoas em situação de rua que apresentem sintoma do covid19. “Hoje, neste momento, nenhum morador de rua apresenta sintomas. Mas, caso apresentem, já temos um local para que eles fiquem em quarentena”, disse.

O problema é que as informações demoram a circular entre aqueles que mais precisam. Até o fechamento dessa reportagem, Flávia não sabia nem dos marmitex que serão disponibilizados pelas escolas e tinha muitas dúvidas sobre a distribuição de sabonetes. “Fiquei sabendo que a ocupação poderia receber os sabonetes. Mas não sabemos que dia, que horas nem em que lugar. E sobre os marmitex, não fomos avisados. Ouvi por alto ontem (terça, 24). Mas será tudo muito bem-vindo”, comentou.

Outro lugar em situação de penúria é o galpão onde funcionam as cooperativas de catadores de Volta Redonda, na Voldac. Única fonte de sustento dos 13 cooperados, a maioria mulheres (são dois homens apenas, grifo nosso), o galpão não pode fechar. “Não temos água encanada e nem luz elétrica. Se quisermos usar o banheiro, temos que ir na igreja ao lado. Antes da chegada desse vírus, já ficávamos doentes. Agora a situação é ainda mais difícil”, avisou Dona Nazareth, responsável pela cooperativa Cidade do Aço. “A única fonte de água que temos aqui é uma mangueira”, disparou.

Sem contar com meio de transporte, já que o contrato firmado entre eles e prefeitura, de que o Palácio 17 de Julho iria comprar os materiais reci-clados, os cooperados saem de diversos bairros peri-féricos como Belo Hori-zonte, Vale Verde e São Sebastião a pé, se expondo aos riscos de contaminação ao se aglomerarem com seus companheiros de trabalho. Mesmo assim, ganhavam as ruas para catar latinhas.

Obrigados a encerrarem as atividades enquanto durar a quarentena sob risco de multa por parte da prefeitura ou de morte, por parte do Comando Ver-melho, que determinou um toque de recolher onde eles trabalham, os catadores, desesperados, só podem contar com esmolas. “O prefeito disse que vai conceder uma cesta básica para gente. Mas é só”. E se sair, é claro.

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