CAOS!!!

Por Pollyanna  Xavier

Faz exatamente 60 dias que as autoridades em saúde pública no Brasil emitiram o primeiro alerta contra o novo coronavírus no país. A doença, que surgiu na China, se alastrou por todos os estados. No Rio, o primeiro caso de covid-19 foi registrado em fevereiro, em Barra Mansa, e desde então, vem crescendo de forma preocupante. O impacto do vírus não é sentido apenas na saúde das pessoas, mas também na vida social e econômica. Estima-se que mais de 30 milhões de brasileiros perderão seus empregos nos próximos meses. Mas a crise, é bom que se diga, não é do Brasil. O problema é global. E a grande questão no momento é, antes de qualquer coisa, resguardar a saúde da população.

Governadores e prefeitos parecem ter entendido bem o recado. Essa semana, novas medidas, mais enérgicas, foram tomadas para tentar preservar a população e manter o maior número possível de pessoas em casa. Fazem o que podem (e até o que não podem) para garantir a proteção não apenas dos grupos de riscos, mas também das crianças, jovens e adultos. É preciso. A covid-19 já matou mais de 65 pessoas no Brasil e infectou outras três mil.

O coronavírus mudou a rotina dos brasileiros. Nos municípios da região não foi diferente. Durante a semana, os centros comerciais das cidades do Sul Fluminense mantiveram-se vazios. Linhas de ônibus foram paralisadas, o comércio foi fechado, clínicas médicas e o atendimento ambulatorial nos hospitais foram reduzidos para garantir o atendimento emergencial aos pacientes com sintomas da nova doença. Os municípios lavaram suas ruas com água clorada e usaram a mesma solução nos pontos de ônibus, como se uma vez por dia isso fosse suficiente para eliminar o vírus. Os supermercados organizaram filas com distanciamento entre as pessoas e muitas praças foram isoladas com faixas de segurança, para impedir a visita de idosos e crianças.

Apesar de todo o esforço, os casos confirmados da doença crescem a cada dia. Segundo boletim da secretaria estadual de Saúde do Rio de Janeiro, do dia 15 de março até a ontem, sexta, 27, 493 casos foram confirmados e 10 mortes foram registradas em território fluminense. O número, admite a pasta, certamente seria bem maior, se toda a população estivesse sendo testada. Há subnotificação. Casos leves e moderados não são notificados e estima-se que existam centenas de pessoas infectadas assintomáticas. O perigo do contágio mora exatamente aí.

Desde a última quarta, 25, a imagem de um gráfico mostrando que a curva de crescimento dos casos no estado do Rio estava achatando, ganhou as redes sociais e levou esperança para quem compartilhou a notícia. Mas a Secretaria de Saúde não reconhece a fonte da informação e faz um alerta: o estado do Rio é o segundo no país em números de casos confirmados e de óbitos, perde apenas para São Paulo. E o que é mais preocupante: do dia 15 de março, data do primeiro boletim oficial da doença, até ontem, o aumento foi de 1.654%, ou seja, de 24 pulou para 500 casos.

Hospital de Campanha e Leitos no Hospital Regional

Na terça, 24, o prefeito Samuca Silva anunciou que o campo do Estádio Raulino de Oliveira seria transformado em um hospital de campanha, com capacidade para 114 leitos. Ele e o secretário de Saúde, Alfredo Peixoto, explicaram que a unidade servirá para abrigar pessoas que estejam com os sintomas da doença e que precisem de hospitalização, mas sem a necessidade de ‘entubação’. “Há uma sala de imagens perto, com tomografia, banheiros, toda uma estrutura”, explicaram.

Segundo Samuca, a ideia que é os hospitais da rede particular encaminhem pacientes em tratamento do coronavírus, e que não precisam de ventilação, para a unidade do estádio, que deverá estar com sua estrutura montada a partir deste sábado. “Tomara que não precisemos usar esse hospital, mas é uma medida preventiva”, comentou. A previsão é que a partir da semana que vem, a unidade receba os equipamentos necessários para o atendimento médico.

O hospital de campanha terá 10 tendas de 100 metros quadrados cada, que deverão ficar montadas por 120 dias. Um dia após o anúncio, Samuca informou que a CSN financiou parte da estrutura do hospital, doando cerca de R$ 500 mil para o funcionamento da unidade. A estatística do coronavírus em Volta Redonda está subindo, com … casos registrados até ontem, sexta, com 3 óbitos sob investigação. O número de casos suspeitos esconde uma polêmica. Para Samuca seriam 180, Alfredo contesta, diz que são 160. Ontem, sexta, o prefeito falou em 200 casos suspeitos. 

Além do hospital de campanha, Volta Redonda (e região) conta com 180 novos leitos hospitalares para atendimento a pacientes infectados e que precisam de internação. Estes novos leitos foram montados no Hospital Regional e entregues pelo Estado na terça, 24, cerimônia que foi ignorada pelo prefeito Samuca Silva. “Ele foi convidado”, dispara uma fonte. “E não foi”, completa.

Apesar do grande contingenciamento, Volta Redonda tem apenas um paciente que testou positivo, internado. Trata-se de um homem, de 79 anos. Detalhe: o vírus está atacando até a direção do Hospital da Unimed, sendo que dois dos seus principais executivos teriam sido contaminados. 

Segundo Samuca, só na quinta, 26, 10 novos casos foram confirmados. As vítimas teriam entre 30 e 59 anos e todos os pacientes estariam em isolamento domiciliar. Ainda de acordo com o prefeito, o aumento de casos só na quinta, 26, teria sido reflexo do atraso na entrega dos resultados de exames por parte do Lacen-RJ. Tem mais. Garante que seriam mais se o seu governo não tivesse adotado as medidas restritivas contra o covid-19.  Pode ser. A verdade é que os casos foram para 25 confirmados, com um óbito, de um idoso, cuja irmã também aparece como caso suspeito.  

Influenza

Considerada uma semana decisiva em temos epidemiológicos – para especialistas o pico do contágio vai até 4 de abril – o Ministério da Saúde decidiu iniciar na segunda, 23, a campanha nacional de vacinação contra a influenza (H1N1). O primeiro grupo a ser imunizado foram os profissionais de saúde e os idosos. O problema é que não teve vacina suficiente para todos. Em Volta Redonda, por volta do meio dia, todas as vacinas tinham acabado. Em algumas unidades, houve aglomeração de idosos em filas para receber a dose.

Na quinta, 26, o governo federal liberou mais um lote de vacinas, mas a quantidade, novamente, não foi suficiente para imunizar o primeiro grupo da campanha. A saída para o problema foi dada pelo Estado, que determinou que os municípios priorizassem idosos acima de 80 anos. Os demais, serão imunizados à medida que os municípios recebam mais vacinas.  

O cenário (de correria para tomar a vacina e de desabastecimento) se repetiu em alguns municípios. Em Barra Mansa a vacina também acabou nas primeiras horas de segunda, 23. Em Porto Real, a prefeitura vacinou seus idosos em casa – foi a maneira encontrada pela secretaria de Saúde local para impedir que idosos saíssem de casa e se aglomerassem nas unidades vacinadoras.

A correria revelou um desespero das pessoas – reflexo do covid-19. Mas é bom que se diga que a vacina contra a influenza não imuniza contra o novo coronavírus. A estratégia do Ministério da Saúde em antecipar a campanha de vacinação é apenas para ajudar no diagnóstico da nova doença, caso as pessoas vacinadas apresentem alguns sintomas do vírus. O calendário da campanha será estendido até o final de abril, e os próximos grupos alvo são os professores, profissionais das forças de segurança e salvamento, pacientes crônicos, crianças de 6 meses a 6 anos, pessoas de 55 a 59 anos, gestantes, puérperas, indígenas e presidiários – exatamente nesta ordem.          

CSN em quarentena

Na quinta, 26, a CSN dispensou, por 15 dias, todos os seus estagiários e aprendizes menores de 18 anos. Além disto, colabo-radores acima de 60 anos e ainda os que possuem alguma doença crônica (diabetes, hipertensão, câncer ou doenças do trato respiratório) também foram dispensados por duas semanas. O total de trabalhadores que se enquadram nesta medida chega a 2 mil.

A empresa não informou quantos operários estariam de quarentena por suspeita de corona-vírus ou por ter tido contato com algum paciente positivo para a doença. Segundo uma fonte, alguns setores da UPV teriam sofrido baixas consideráveis, pelo fato de alguns funcionários testarem positivo para o covid-19. De acordo com o protocolo do Ministério da Saúde, pessoas infectadas devem cumprir quarentena de 14 dias. Aquelas que estiveram com pacientes testados positivo, mas que não apresentam sintomas, a quarentena é de apenas 7 dias.

Além da dispensa, a CSN tomou outras medidas de prevenção para proteger seus funcionários. Dentre elas a verificação da temperatura de todos que entram na UPV (visitantes, funcionários, motoristas, fornecedores etc). “Estabelecemos um Comitê de Crise para monitoramento dos acontecimentos em tempo real para podermos atuar com maior eficiência e eficácia. Acreditamos que a melhor maneira de enfrentar o problema é, além das medidas citadas, trabalhar com informação e transparência. Precisamos fazer todos os esforços para que essa segurança seja mantida o máximo possível”, informou a empresa.

Barra Mansa defende volta à normalidade

A semana também foi de decisões em Barra Mansa. Na quinta, 26, o prefeito Rodrigo Drable usou o Facebook para anunciar que os casos suspeitos de coronavírus que aguardavam resultado deram negativo. Os laudos foram encaminhados pelo Lacen-Rj, ao setor de vigilância Epidemiológica da secretaria de Saúde do município. “As ações de controle que implementamos estão dando certo. Venceremos essa batalha em breve. Continuem em casa”, reiterou o prefeito.

Apesar do apelo, Rodrigo Drable defende o retorno à normalidade o mais rápido possível. Em transmissão ao vivo nas redes sociais – quinta, 26 – o prefeito anunciou duas decisões. A primeira é de que, em atendimento às autoridades epidemiológicas, iria prorrogar até o dia 6 de abril todos os decretos de isolamento, especialmente o que suspendeu as aulas nas escolas. A ideia é manter aulas e serviços parados até o domingo que vem, dia 6. E, na segunda, decidir se prorroga ou se, a partir do dia 13, retoma as aulas e começa a permitir a reabertura das lojas. “Vai depender do cenário da pandemia”, explicou. 

Rodrigo admitiu estar sofrendo pressão das lideranças empresariais de Barra Mansa. “Estou muito preocupado com a manutenção dos empregos. Muito mesmo. Mas não posso ser irresponsável. Não posso liberar a volta das atividades, nem mesmo parcial, sem que uma estrutura básica esteja pronta para atender as pessoas. Ainda mais nesse momento que os casos estão explodindo na região.

Estou recebendo todo tipo de pressão, mas peço, por favor, que nos ajudem a manter o isolamento mais alguns dias, para que estejamos prontos para enfrentar as consequências dessa doença”, pediu.

A estrutura básica citada pelo prefeito refere-se à disponibilidade de leitos nos hospitais e reforço na infraestrutura das unidades de saúde do município. Outra medida para o enfrentamento do coronavírus em Barra Mansa é a implantação de um Centro de Triagem no Combate ao Covid-19, previsto para ser inaugurado no próximo final de semana. “Ele é fundamental para termos condições de atender os doentes do vírus”, comentou. 

A segunda decisão tomada por Rodrigo foi a de passar a noite de quarta para quinta junto dos moradores de rua que foram levados para um abrigo temporário no bairro Santa Rosa. “Acalmem o coração”, sentenciou ciente de que sua ida iria provocar intenso debate entre os barramansenses, nas redes sociais ou fora dela. Para muitos, o comportamento do prefeito em relação à população de rua em tempo de coronavírus é político. Palavra da oposição, é claro.

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