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Professores pedem fim das aulas presenciais; secretaria vai estudar a reivindicação

Vinicius de Oliveira

A notícia de que o prefeito Rodrigo Drable propôs a vacinação imediata dos professores da rede pública acima de 60 anos não deixou a categoria mais tranquila. Ao contrário. Gerou preocupação, inclusive a professores de municípios vizinhos, por acreditarem que a proposta de Drable pode pressionar os mandatários de outras cidades, como Volta Redonda, a seguirem no mesmo caminho. Os relatos sobre o aparecimento do vírus dentro das unidades abertas em Barra Mansa, que adotaram o sistema presencial no início do mês, contribuem para aumentar o medo de quem dá aulas.
O mais recente desses relatos veio da Escola Municipal Dr. Maurício Amaral, na Vila Coringa. Um grupo de professores que trabalha lá escreveu uma carta aberta ao secretário de Educação, Marcos Vinícius Barros, quase implorando para que o governo voltasse a fechar a unidade. Discordando de Rodrigo Drable, que afirmou, no início do ano, que o risco de reabrir as escolas era “controlável”, os professores alegam que o risco é alto demais.
“Inúmeras unidades de ensino têm enfrentado agudas dificuldades em Barra Mansa. (…) Os representantes diretivos têm exaustivamente se engajado com o cumprimento do protocolo de segurança. Entretanto temos percebido que o número de casos de Covid-19 entre nós, profissionais, vem aumentando exponencialmente. Os contágios vêm aumentando e isso nos deixa em posição de reféns”, começa a carta, que foi lida na sessão da Câmara, de quarta, 17, pela vereadora Professora Fernanda.
“Logo na primeira semana, tivemos dois professores com casos confirmados e, na segunda, já foram mais dois. Vale salientar que em nossa comunidade, que é Vila Coringa, tem um número alarmante de casos e mortes confirmados (por Covid) de pais e familiares dos alunos de nossas escolas. (…) Nós também fazemos parte dessa comunidade e estamos adoecendo”, detalham na carta. “Alguns se recuperam da doença, mas não gostaríamos de testemunhar quem não terá a mesma sorte”, ponderam os professores.
Eles pedem ainda que o governo siga as orientações da Ciência e se atente para o fato de que as crianças, mesmo ficando na maioria dos casos assintomáticas, são vetores do vírus. E comentaram os perigos que envolve o transporte público, meio principal de locomoção dos alunos e professores. “Cremos que estamos em comum acordo quanto ao fato de que devemos caminhar ao lado da Ciência. (…) Estamos trazendo dados que contribuem para uma revisão das medidas adotadas. Sabemos que essas crianças usufruem do transporte coletivo, o que acentua a superlotação dos ônibus (…). Vale ressaltar que nós, professores, também utilizamos o transporte público. Há ainda os que vêm de outros municípios, deixando as probabilidades de contaminação cada vez maiores”, alegam.
Por fim, os profissionais envolvidos com a elaboração da carta solicitam que a prefeitura de Barra Mansa volte atrás na decisão de manter abertas as escolas e que estabeleça a modalidade on-line, através da qual os professores atenderiam seus alunos em home office, e pedem vacina para todos. “Como solução ideal, retorno dos profissionais à modalidade presencial apenas mediante vacinação tanto de profissionais da Educação, quanto de alunos”.
Em nota, a prefeitura de Barra Mansa reiterou que a decisão de retornar ao modelo presencial foi tomada por um corpo técnico que elaborou o protocolo de segurança que deve ser seguido pelos profissionais e alunos. “A Prefeitura de Barra Mansa, por meio da secretaria de Educação, informa que a decisão de retorno presencial das atividades escolares não foi estabelecida de forma exclusiva pelo governo municipal e sim através do Comitê Municipal de Volta às Aulas, onde foi criado um protocolo com as redes municipais, estaduais e privada, acompanhada pela Secretaria de Saúde, pelo Conselho Regional de Medicina, conselhos, sindicatos, entre outros e homologado junto ao MP na Justiça”.
Ivan Martins de Oliveira, professor de ética e cidadania da Escola Doutor Maurício Amaral e um dos profissionais que assinam a carta, reclama justamente das medidas de segurança mencionadas pela secretaria de Educação. Para ele, o protocolo não funciona. “Frisamos que o protocolo de segurança apresenta falhas e o vírus tem se aproveitado delas. É preciso que o protocolo seja revisto e, antes disso, devemos tomar medidas para que os profissionais não adoeçam. Nós estávamos dispostos a dar aula no ensino presencial, mas começamos a perceber que os profissionais estavam ficando doentes, enquanto os alunos não apresentavam nada. Ficamos acuados e com medo”, lamentou o professor.
Na avaliação do professor, Drable pretende uma imunização de rebanho quando defende que a volta às aulas é um risco controlável. “A estratégia governamental é colocar os professores na linha de frente e, assim, conseguir a imunidade de rebanho. Para ele [Rodrigo], nós podemos pegar o vírus e tudo bem. O problema que ele não pensa é que, ao nos contaminar, contaminaremos nossos familiares em casa e também outros alunos, afinal de contas os professores circulam pelas salas”, disse. “Os próprios alunos também completam essa equação, pois, mesmo assintomáticos, vão levar o vírus para seus familiares com comorbidades em casa”, crê.
A secretaria de Educação disse que vai levar o caso do Colégio Dr Amaral para o comitê que trata sobre as medidas de combate à pandemia. “A solicitação de suspensão das aulas presenciais feita por alguns profissionais de educação do Colégio Municipal Doutor Mau-rício Amaral, na Vila Coringa, será levada como pauta para a próxima reunião do Comitê para que o assunto seja debatido junto à secretaria de Saúde do município”.

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