No pescoço

Neto instaura comissão para apurar supostas irregularidades no Hospital de Campanha

Desde que subiu a rampa do Palácio 17 de Julho, em 1 de janeiro de 2021, o prefeito Neto vinha sonhando com o dia que poderia sepultar, de uma vez por todas, a fama de gestor apregoada pelo seu antecessor, o ex-prefeito Samuca Silva. Passaram-se cinco longos meses até que, no último dia 2 de junho, Neto pôde oficializar a criação de Comissão de Investigação para apurar a existência ou não de irregularidades na instalação, operação e encerramento das atividades do Hospital de Campanha, criado no campo do estádio Raulino de Oliveira para receber pacientes com a Covid-19.
A missão foi entregue à Procuradoria Geral do Município (PGM), através da Portaria 10/2021, publicada no VR Em Destaque do dia 2 de junho. “Institui Comissão para condução do processo de Tomada de Contas para apurar supostas irregularidades praticadas na instalação e locação, por meio de dispensa de licitação, do hospital de campanha – Processo Administrativo 174/2020, conforme Processo TCE/RJ 218.833-5/2020”, destaca o documento.
Tem mais. A Controladoria Geral do Município destaca que o órgão levou em conta os “termos da denúncia apresentada junto ao Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro – Processo TCE/RJ 218.833-5/2020 (que corre em segredo de Justiça, grifo nosso), para instituir a comissão para condução da Tomada de Contas, instaurada através do Ato de Instauração nº 05/2021, Processo Administrativo nº 3379/2021, com vistas à apuração dos fatos, identificação de supostos responsáveis e quantificação de eventual danos ao erário, na instalação e locação, por meio de dispensa de licitação, do hospital de campanha (Processo Administrativo 174/2020 – FMS.Art. 2º).
Detalhe: para executar a missão, foram designados os seguintes servidores: Waldiney Alves de Oliveira, Suiá Fernandes de Azevedo Souza e Pedro Carlos Ribeiro de Carvalho, sendo que a presidência da comissão caberá ao Procurador do Município, Waldiney Alves de Oliveira. Os três serão liberados do desempenho de suas funções normais conforme for deliberado pelo presidente da comissão, “quando dos dias de trabalho da referida comissão”. Tem mais. Os trabalhos deverão ser concluídos em 60 (sessenta) dias úteis a contar da publicação da Portaria (2 de junho), podendo ser prorrogados por igual período.
‘Foi superfaturado’
Desde que tomou posse, em janeiro deste ano, o prefeito Neto vira e mexe fala e critica os gastos do governo Samuca Silva com o Hospital de Campanha. E ele é duro em sua análise. Em 25 de março, por exemplo, em entrevista a Dário de Paula, ao falar acerca do estado de falência que teria encontrado o Palácio 17 de Julho, Neto fez a seguinte comparação. “Imagina se Volta Redonda não tivesse feito um Hospital de Campanha superfaturado, que está, inclusive, sendo investigado. Se tivesse investido…”, disse, dando a entender que os recursos seriam suficientes para amenizar a crise financeira da prefeitura.
Desde essa época, Neto sempre falou nas investigações, que só foram oficializadas mesmo, em termos de PGN, no último dia 2 de junho. “Eu garanto a vocês que o Hospital (de Campanha) foi superfaturado. Um Hospital que você alugou por R$ 1 milhão e 632 mil por seis meses. Se você tivesse comprado, ao invés de alugado, você gastaria menos de R$ 500 mil. Isso aí é superfaturamento”, ponderou. “Não compete a mim dizer isso ou não julgar. O Tribunal de Contas, o Ministério Público Federal e Estadual estão investigando e não foi só isso que foi superfaturado, não”, disparou, sem detalhar as demais situações.
Neto foi além. “Eu fico triste quando me lembro disso. Aquele Hospital de Campanha que foi feito no estádio foi ridículo. Se você tivesse investido no anexo (do Hospital do Retiro), ele já estaria pronto, já estaria com os respiradores prontos e salvando vidas”, avaliou, referindo-se ao anexo da FOA, que só agora – seis meses depois – está pronto para entrar em operação.
Em abril, dia 15, também em entrevista a Dário de Paula, Neto voltou a acusar seu desafeto, Samuca Silva de ter superfaturado as despesas com o Hospital de Campanha. “Aquilo é uma vergonha para a cidade de Volta Redonda”, sentenciou. “Qual legado deixou?”, indagou Dário. “Zero”, respondeu o prefeito.
Aproveitando a deixa, Dário voltou a instigar Neto a criticar Samuca. “Um milhão e oitocentos mil reais gastos no Hospital de Campanha que nem foi utilizado”, afirmou. “Nem uma vez”, exagerou Neto, aproveitando para disparar contra o ex-prefeito. “Tem coisas que não têm explicação. Eu acho que você tem razão… É uma coisa que não tem perdão. Um aventureiro que, lamentavelmente, deixou uma cidade que sempre foi referência em tudo, na educação, na saúde, no social… Deixou uma cidade acabada, destruída. Se esse rapaz (Samuca) ficasse mais quatro anos, Volta Redonda estaria entregue à miséria. Ele já deixou numa situação muito delicada, por isso, toda vez que eu posso, agradeço à minha equipe da saúde, da educação, do social, da obra… o que esse pessoal tem feito, obrigado a todos e a todas.
O que Samuca dizia…
Em releases distribuídos aos jornais no ano passado, o então prefeito Samuca Silva dizia que o Hospital de Campanha de Volta Redonda tinha sido criado para ser referência no tratamento de pacientes com a Covid-19 e que, para isso, contava com 114 leitos de média complexidade. “Para liberar leitos nos hospitais do Retiro e São João Batista, garantindo a maior capacidade de atendimento e o retorno de cirurgias eletivas, serão criadas vagas de UTI/CTI no Hospital de Campanha”, escreveu em um deles.
Segundo o ex-prefeito, o HC tinha uma estrutura temporária “para seis meses”, e custaria aos cofres públicos ‘cerca de R$ 270 mil’. “São mil metros quadrados com piso estruturado nivelado e elevado a 10 cm do chão, em chapa de compensado naval plastificado, com salas de estrutura octanorm, com climatização através de 30 aparelhos de ar condicionado (30 mil BTUS), além de fornecimento e instalação de iluminação de acordo com padrões hospitalares, quadro de energia independentes, entre outros”, gabava-se.
Samuca alertava, desde então, que “todos os equipamentos, assim como toda a estrutura física, pontos de energia, gerador, entre outros”, seriam alugados pelo prazo máximo de seis meses, período que calculava ser necessário para o achatamento maior na curva da contaminação. “Antes que falem da locação, não locamos apenas ar-condicionado, e sim toda a estrutura do Hospital de Campanha. Isso porque a unidade tem caráter temporário e não haveria justificativa de investir em uma estrutura fixa para a Covid. A pandemia, apesar de não ter prazo para passar, vai passar. E a rotina das unidades precisam voltar ao normal”, disse o ex-prefeito. Ele estava errado.
Tem mais. Samuca gabava-se dos custos para criar e manter o Hospital de Campanha. Para ele, o HC tinha um dos menores custos entre as unidades criadas temporariamente para o tratamento da Covid-19. “Temos uma unidade que já salva vidas, com um dos menores custos no país. Temos toda uma estrutura, com uma equipe multidisciplinar, e que visa cuidar de pessoas. Nosso objetivo é esse o tempo inteiro: salvar vidas”, destacava na época.

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