Façam suas apostas

Servidor do TJ está sendo acusado de aplicar golpes até em juízes usando plataformas de jogos on-line

Pollyanna Xavier e Gabriel Pereti

A promessa de dinheiro fácil e rápido fez novas vítimas em Volta Redonda e região. Com garantias de lucros mensais e até semanais de 30 ou 40%, o professor universitário e servidor do Tribunal de Justiça do Rio Felipe Tobler Lemgruber está sendo acusado de ter aplicado um golpe em vários advogados, serventuários da justiça, alunos e até em juízes, com apostas em plataformas de jogos on-line. Conhecido como ‘trader esportivo’, Felipe está na mira também do Ministério Público, que ofereceu denúncia contra ele por entender que o esquema vai além de uma pirâmide financeira. Até agora, o prejuízo dos apostadores seria superior a R$ 20 milhões.
Felipe se formou em Direito, com especialidade em Direito Penal, e se afastou do Tribunal de Justiça em 2021, tendo ocupado um cargo de confiança no Fórum de Barra do Piraí como secretário de um juiz. No final de 2020, ele deixou a cadeira que ocupava de professor de Direito Penal em um centro universitário de Volta Redonda para se dedicar às plataformas de jogos on-line. As apostas seriam feitas nas partidas de tênis e Felipe, supostamente, atraía os jogadores com promessas de ganhos muito acima do que as plataformas prometiam.
Um deles, um ex-colega de infância, conversou com o aQui e revelou que teria recebido o convite para participar das apostas no final de 2019. Na época, revela, Felipe o teria chamado para ‘investir’ em jogos on-line. Para convencê-lo, teria dito que pelo menos três juízes da região também estariam apostando nas plataformas. “Eu não conhecia essa modalidade, até porque eu não gosto de jogo, mas ele disse que tinha as bancas nas plataformas e que elas eram de fora do país. Quando perguntei da legalidade das apostas, ele me disse que três juízes estariam participando. Ou seja, desde o início ele atrelou a questão aos juízes justamente para tentar transmitir confiança”, contou.
O valor investido inicialmente teria sido de apenas 600,00. E em uma semana ele teria recebido 10% de lucro. Acabou investindo R$ 2 mil, e também obteve 10% de lucro. “E assim foi indo, com ele me incentivando a colocar valores cada vez maiores”, contou o ex-amigo, que pede que seu nome não seja revelado. Tem mais. Passou a usar o limite do cheque especial e do cartão de crédito nas apostas. “Coloquei uns R$ 20 mil e recebi R$ 2 mil de lucro. Daí para pedir um empréstimo grande no banco foi um pulo. A taxa de juros do banco era de 4% ao mês e ele pagava 10% por semana. Eu cheguei a ter seis empréstimos, num total de 200 mil”, revelou o advogado, que se sente lesado pelo ex-amigo.
Em outubro de 2020, segundo a fonte, Felipe teria contado que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) estaria de olho nas suas movimentações e que, por isso, teria que parar de realizar pagamentos com valores altos. “Ali começamos a desconfiar e nos dispusemos a regularizar tudo. Montar empresa, arrumar contador, fazer toda a parte legal. Mas ele sempre fugia, nunca aceitava. Dizia que um amigo advogado, que mora em Chapecó (SC), estava à frente. Mas sempre que a gente pressionava, ele fugia. Então parou de pagar tudo e passou a não ser mais acessível”, lembra.
Preocupado com as dívidas que se acumulavam e com o sumiço de Felipe, o ex-amigo descobriu ainda que ele não tinha o costume de fazer movimentações bancárias e só usava ferramentas fintechs, como o PicPay ou Pagseguro, justamente pela dificuldade de rastreamento e bloqueio. Foi então que passou a procurá-lo com mais frequência, ligando e indo até o endereço de Felipe, no bairro de Barra do Piraí, onde cresceram juntos. Com a pressão, conseguiu que, no final de novembro, Felipe gravasse um vídeo, ao qual o aQui teve acesso, mostrando o saldo em uma das plataformas de jogos on-line no valor de R$ 22 milhões. A gravação foi enviada às vítimas em uma tentativa de provar que o dinheiro ainda estaria disponível e que seria devolvido. Pouco tempo depois, Felipe desapareceu.
Felipe Lemgruber foi afastado das suas funções no Tribunal de Justiça e responde a processos administrativos disciplinares na corregedoria do órgão. Ninguém sabe dizer ao certo o paradeiro dele, mas suas vítimas ainda conseguem contato pelo celular. “Ele me pediu pelo amor de Deus que eu não entrasse com uma ação na Justiça e desde o final de abril jura que vai me pagar”, disse uma das pessoas que se sentem enganadas. Segundo o aQui apurou, cerca de 100 pessoas teriam sido lesadas pelo ex-professor. “Até uma ex-namorada dele, que é médica, foi prejudicada. Ele enganou desde o faxineiro até o juiz. Tinha lábia, fez o pessoal pegar empréstimos, tirar dinheiro da poupança para dar a ele, economias de uma vida inteira”, contou um ex-aluno de Felipe, também vítima de seus golpes.
Esse ex-aluno confirmou que Felipe estaria sendo investigado pelo Ministério Público já há alguns meses e que muitos juízes e advogados teriam prestado depoimentos à Justiça, inclusive fornecendo provas materiais contra o ele. No início de junho, o MP ofereceu denúncia contra Felipe com base no artigo 171 do Código Penal (estelionato) e a Justiça a teria acolhido, por entender que as denúncias continham elementos fortes para acusar o servidor. Os processos estão em sigilo e não podem ser acessados por qualquer pessoa. “O segredo é para preservar a identidade das vítimas – boa parte formada por juízes e advogados que atuam no Sul Fluminense”, comentou o ex-aluno.
No Fórum de Barra do Piraí há pelo menos nove ações contra o Felipe Lemgruber: quatro na Vara Cível e cinco no Juizado Especial. Todas pedem o bloqueio ou o arresto dos bens de Felipe para a garantia de pagamento às vítimas. “Os bens dele ainda não foram bloqueados, até porque ele não possui nada no nome dele. O que existe é ordem de bloqueio de conta corrente, mas ele não tem movimentado conta corrente”, comentou a fonte, reforçando a informação de que ele só movimenta fintechs.
Dentre os vários documentos que o aQui acessou sobre o caso, consta uma petição para uma ação com pedido de liminar, apresentada por uma das vítimas de Felipe Lemgruber. A ação foi movida porque o trader teria feito um acordo de pagar R$ 12 mil mensais até saldar uma dívida total de quase R$ 240 mil, mas Felipe não teria depositado nem a primeira parcela. Além desse documento, consta ainda informações de outras pessoas que tiveram perdas que variaram de R$ 8 mil a R$ 350 mil. “O Ministério Público de Barra do Piraí pediu o bloqueio das contas, das plataformas, quebra do sigilo telefônico, tudo. Estamos acompanhando para ver se o juiz vai acolher o pedido do MP”, ressaltou uma das vítimas.
A plataforma mais usada por Felipe nas apostas seria a SportingBet – uma espécie de casas de jogos on-line, considerada uma das maiores do mundo. Na prática, ele convencia as pessoas a lhe darem dinheiro e, a partir daí, ele apostava nas partidas de tênis on-line. “Não sabemos se ele agia sozinho, essa é a grande pergunta. O que sabemos é que ele fazia um Day Trade para jogos, movimentava grande fluxo de dinheiro, com juros bem altos e riscos altos também. Só que ele garantia o risco. E durante muito tempo o Felipe conseguiu segurar isso, porém, em determinado momento, começou a perder mais do que ganhar e parou de repassar os lucros e o dinheiro do pessoal”, explicou uma das vítimas.
Com as ações judiciais, as pessoas esperam receber o dinheiro de volta. “Eu particularmente só quero poder quitar minhas dívidas e seguir a vida”, disse o ex-amigo de infância. “Quero tudo o que eu dei a ele para investir e ele embolsou”, disse outra vítima ouvida pelo aQui. “Eu perdi R$ 130 mil, mas já dei minha contribuição à Justiça através de documentos e depoimentos. Não quero o mal do Felipe, só quero o meu dinheiro de volta e a paz que ele tirou de mim”, desejou uma terceira vítima.
Em tempo: nos últimos dias, mais duas ações milionárias foram movidas contra Felipe Lemgruber, da ordem de R$ 1 milhão e 500 mil. Tem mais. O delegado de Barra do Piraí, que investiga o caso, acredita que existam outras pessoas lesadas e pede que elas o procurem na DP do município.
Nota da Redação – O aQui chegou a enviar um e-mail para Felipe Lemgruber no dia 10 de junho, mas não obteve qualquer resposta. Neste mesmo dia a reportagem ligou para o celular de Felipe, mas ele não atendeu ao telefonema do repórter. Na segunda, 14, foi enviada uma mensagem via WhatsApp para o ex-professor e finalmente Felipe Lemgruber atendeu ao aQui. Por mensagem de áudio, disse que entraria em contato com o seu advogado e em seguida falaria com o jornal, mas isto não aconteceu. No dia seguinte, uma nova mensagem do aQui, desta vez estendendo o prazo até às 12 horas do dia 16 de junho, para que Felipe contasse sua versão das acusações que vem sofrendo, mas ele se limitou em dizer que ainda aguardava o retorno do advogado e não falou mais com o jornal.

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