‘Nas mãos de Deus’

Neto anuncia pagamento do funcionalismo para o dia 27, mas desconversa sobre ordem da Justiça para zerar dívida do Plano de Cargos e Salários

Na sua entrevista tradicional ao programa Dário de Paula, o prefeito Neto foi provocado a falar da decisão do juiz Alexandre Custódio Pontual, da 5ª Vara Cível, de exigir que a prefeitura de Volta Redonda pague – até o final do mês – a dívida do PCCS para com os cerca de três mil servidores do Palácio 17 de Julho. Inicialmente, Neto confirmou que já foi citado para cumprir a ordem. “Fui citado ontem (quarta, 11) e já passei para a Procuradoria, para os nossos advogados”, disse, aproveitando para relembrar que, na campanha de 2020, todo mundo tinha fugido do assunto. “Nós éramos 14 candidatos, e você não ouvia nenhum falar que iria colocar em prática esse plano de cargos e salários porque todos, sem exceção, até o autor, que foi o (Paulo, ex-prefeito) Baltazar, sabia que era impossível colocar em prática”, ponderou como que querendo se eximir de qualquer responsabilidade.
Neto foi além. Voltou a bater na tecla de que encontrou uma prefeitura falida, sem dinheiro, o que o levaria a tentar não cumprir a ordem judicial. “O município de Volta Redonda atravessa o pior momento de sua história financeira. Hoje arrecada R$ 28 milhões por mês de receita fixa e tem só com a folha de pagamento uma despesa de R$ 41 milhões”, pontuou. “Ninguém fabrica dinheiro. Eu não fabrico dinheiro. Infelizmente a situação está muito delicada, e se não fosse o governo do Estado, eu não teria conseguido em 7 meses pagar 10 folhas de pagamento”, destacou.
Sem responder diretamente se vai acatar a ordem emitida pelo juiz Alexandre Custódio Pontual, Neto anunciou que deverá pagar o mês de agosto no próximo dia 27. “A chance de a gente pagar o mês de agosto no dia 27 é grande, mas se você me perguntar o que eu vou fazer com essa decisão judicial, eu não sei ainda. O juiz está no seu papel. Ela (ação, grifo nosso) foi considerada inconstitucional depois de 2013”, afirmou. “Eu confesso que estou pegando os números para saber o que fazer. A situação do nosso município é muito delicada mesmo. Se não fosse a venda das nossas contas (bancárias, grifo nosso), se não fosse um trabalho profissional da nossa equipe, e principalmente a ajuda do governo do Estado, nós hoje teríamos fechado as portas (do Palácio)”.
A explicação que Neto não deu, Dário de Paula tentou dar aos seus ouvintes. O radialista contou, entre outras, que o Plano de Cargos e Salários nasceu na década de 90, quando Neto e Baltazar (ex-prefeito) eram aliados. E um vivia ajudando o outro. Exemplo: Neto virou prefeito e Baltazar, deputado federal. “Baltazar foi eleito com quase 100 mil votos para deputado e trabalhou dois anos como seu assessor especial… Em dezembro de 1996, ele deixou uma imensa casca de banana para o próximo prefeito, justamente a sanção do PCCS. Foi um golpe mortal no prefeito que assumiu no ano seguinte”, contou, referindo-se a Neto para logo acrescentar: “Neto tem dito durante os últimos 20 e poucos anos que é impossível cumprir isso”, avaliou, defendendo o atual governo.
Neto aproveitou a argumentação de Dário e relembrou que os ex-prefeitos (como ele) que deixaram o Palácio 17 de Julho “faziam média com o funcionalismo sem ter condições de cumprir”. Ou seja, prometiam pagar o PCCS sabendo que não teriam como pagar. “O Samuca fez muito isso. Quando ele estava saindo, deixou algumas situações. Algumas ele aplicou, outras ele deixou para daqui a um ano, dois anos”, disse, fazendo o que gosta: atacar o ex-prefeito.
Para reforçar sua tese, Neto fez mais uma comparação. “Qual governante não gostaria de estar bem com o funcionalismo? Qual governante não gostaria de pagar a um professor 8, 10, 12 mil em vez de 3, 4, 2 mil reais? Todos nós gostaríamos de fazer isso, mas temos que ser responsáveis. A lei não permite, e você não tem condições de gastar 150% de tudo que arrecada só com o funcionalismo público”, justificou. “O próprio funcionalismo viu que, sem o dinheiro do PCCS, ficou 3 meses sem receber os salários, que levou 2 meses a mais para receber o 13o”, comparou.
O assunto quase virou tema de novela. “Nós, em 7 meses, já pagamos 10 folhas. Eu não faço milagre”, ironizou Neto, puxando sardinha para o seu governo. “Imagina como estaria este município se o povo não tivesse eleito pessoas (ele) com compromisso com essa cidade. Nós hoje estaríamos em uma situação 200 vezes pior”, disse, relacionando alguns problemas. “Não se consegue comprar lâmpada, não se consegue comprar nada, pois não temos crédito. Os nossos dois ônibus (elétricos) deram defeito, e os donos não querem vir consertar, e com toda a razão, porque não receberam da gente”, disse, referindo-se aos ônibus elétricos que o governo Samuca adquiriu e, segundo ele, não teria pagado. “Esse ônibus que está andando aí, trazendo o pessoal da periferia para o centro da cidade, o que foi uma boa ideia, não foi pago. Agora deu problema, 14 mil reais, o Paulo (Barenco) está desesperado, todo mundo cobrando e com dificuldade para arrumar”, denunciou.
Pelo que Neto disse na entrevista, os veículos adquiridos por Samuca estariam sem rodar por falta de peças de reposição ou simplesmente porque deram defeito, como destacou. E a secretaria de Transportes teria que pagar R$ 14 mil para que os ônibus voltassem a rodar. Sem contar que a compra dos três ônibus ainda não teria sido feita, no valor de R$ 3 milhões.
A solução, segundo Neto, já teria sido encontrada, e um dos ônibus estaria circulando. “Uma equipe de São Paulo veio consertar. Nós arrumamos uma nova equipe e ela está na garagem consertando os ônibus elétricos”, afirmou, sem entrar em detalhes.
Antes de encerrar, Neto voltou ao tema, ou melhor, fugiu do PCCS e gerou o maior suspense quanto aos salários do funcionalismo de agosto em diante. “Daqui pra frente, só Deus sabe o que vai acontecer. Entrego nas mãos de Deus, Deus sabe o que faz. Não vai faltar trabalho, nunca vai faltar trabalho”, disse, dando a entender que vai faltar apenas dinheiro.
E já se preparando para deixar o estúdio do programa Dário de Paula, Neto anunciou que tinha arrumado algum dinheiro. “Dia 27 de agosto faremos o pagamento do funcionalismo. Outra coisa, o Eric (Higino, secretário de Fazenda) e o Franco, nós pagamos o cargo comissionado 103, que era a maioria, 280 pessoas. O atrasado de novembro foi pago ontem (quarta). Foi pago ontem, mas leva dois dias para cair na conta”, detalhou, referindo-se ao pagamento dos salários de novembro de 2020 para os ocupantes de cargos comissionados do governo Samuca. Ficam faltando agora os de dezembro e o 13º. Só faltou encerrar dizendo: entreguei nas mãos de Deus.
Falido
Em outras entrevistas, o prefeito de Volta Redonda chegou a se desesperar diante do drama que diz enfrentar. “Esse município está falido”, disse, para logo a seguir explicar sua tese. “O município está diminuindo (perdendo) sua receita cada dia mais”, disse. “Eu já tive quase 5% de participação de ICMS, e sabe quanto é esse ano? 1,8%. Sabe quanto vai ser ano que vem? 1,8%, e isso ninguém suporta”, desabafou.
A saída, segundo ele, para cumprir as suas obrigações como mandatário do Palácio 17 de Julho, seria que os contribuintes em débito com os impostos municipais pagassem o que devem. Ou seja, ele não paga, mas quer que todos paguem a ele. “Nós estamos com um Refis (refinanciamento), pedindo às pessoas que têm débito com a prefeitura que não percam a oportunidade (de ficar em dia). Você que deve IPTU, ISS, procure a prefeitura”, implorou. “Estou cheio de dívidas. Deixaram pra mim um carrossel de dívidas”, ponderou.

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