‘Não brinquem com a sorte’

Rodrigo elogia os que cumprem o isolamento social, mas descasca os que insistem em promover festas clandestinas

Na noite de segunda, 15, logo depois de retornar de Volta Redonda – onde participou de uma reunião com os prefeitos Neto e Ednardo (de Pinheiral), mais o representante do MP Estadual, Leonardo Kataoka -, o prefeito Rodrigo Drable matou a curiosidade da população de Barra Mansa. É que, horas antes, tinha prometido anunciar duras medidas de contenção ao novo coronavírus.
Criou tanto suspense que muitos imaginaram que ele iria mandar fechar o comércio da cidade. “A Covid não poupou Barra Mansa como muitos imaginam”, sentenciou. Só que, na prática, o prefeito mudou apenas o horário de funcionamento das lojas – e isso por apenas 7 dias: vão abrir às 10h30min, cerrando as portas às 19h30min. A medida tem que ser cumprida até segunda, 15, podendo ser prorrogada ou não.
“Nós alcançamos 45.624 pessoas testadas, das quais 10.690 (exames) foram positivos. Nós temos 157 suspeitos e, lamentavelmente, 300 pessoas faleceram de Covid em Barra Mansa, gente daqui, amigos nossos, parentes”, iniciou, informando ainda que o número total de mortes tinha chegado a 301 até aquele presente momento.
Rodrigo revelou ainda que a ocupação de leitos de UTI estava em 48%. “Os leitos disponíveis exclusivamente para Covid, nós temos 48% de ocupação”, disse, confessando que estava percebendo um aumento no número de casos da doença. “Percebemos, nos últimos dias, dois fatos relevantes para nós refletirmos juntos. Primeiro: temos tido um aumento da contaminação e os casos estão se agravando. Segundo: muitas pessoas, que deveriam ter feito cirurgias antes do SUS suspender as eletivas e não fizeram (procedimento), tiveram seu quadro agravado. Temos quase um ano de cirurgias eletivas suspensas. Não fizeram as cirurgias para preservar os leitos de UTI para Covid e elas tiveram seus casos agravados. São dois fatores que influenciam diretamente nossa condução de agora em diante”, disse.
Segundo Drable, o Brasil está vendo o agravamento da pandemia, e, pior, a falta de leitos de UTI para a Covid. “Estados de norte a sul têm tido problemas gravíssimos com a falta de leitos que nós (Barra Mansa) ainda não enfrentamos”, comparou, dizendo que isso só teria acontecido graças à política que adotou. “Isso aconteceu por vários fatores, como o envolvimento da sociedade, o distanciamento que foi feito, a diminuição dos casos graves, a estrutura da Saúde que foi aprimorada com o passar dos meses. Hoje, nós temos o dobro de leitos que tínhamos quando iniciamos o enfrentamento à Covid”, detalhou.
Apesar de tudo, Rodrigo Drable ‘soltou os cachorros’ na população, como se diz popularmente. “As pessoas estão nas ruas, nas festas, como se nada estivesse acontecendo. Ontem (domingo, 14), nós tivemos vários eventos irregulares na cidade”, desabafou, fazendo um adendo: “A gente percebe que não é um fato isolado em Barra Mansa; está se replicando pelo estado, pelo Brasil. São festas irregulares, clandestinas, com alta aglomeração de pessoas. Essas festas são apontadas não apenas por mim, mas por especialistas, como um dos fatores que são importantes nesse aumento do contágio (da Covid)”, acrescentou.
Drable foi além. “São os jovens que estão nas festas, e talvez eles não venham a ter a doença a nível de morrer. Mas essas pessoas levam a doença para dentro de casa, para seus familiares, amigos, para as pessoas com as quais convivem e, aí sim, nos deparamos com pessoas que vão ser fragilizadas pela doença e podem vir a óbito. Essa responsabilidade tem que ser dividida com todos. Não existe esforço no mundo que dê conta de enfrentar uma pandemia dessas que a gente vive se as pessoas não puxarem para si a responsabilidade de fazerem o mínimo”, pontuou.
Completando a bronca, Drable quis deixar claro em sua live que o desabafo não era para justificar o fechamento de tudo. “Eu não tô falando aqui de se trancarem em casa como foi no início e como alguns estados estão implementando. Tô dizendo para que todos tenham bom senso e evitem essas aglomerações de altíssimo nível de risco”, ponderou. “A Covid está se multiplicando pelo estado, pela região e está nos deixando extremamente preocupados, porque o nível de ocupação dos leitos está aumentando”, completou. “Aqueles que pensam em fazer festas clandestinas, minha sugestão é: não brinquem com a sorte”.
Drable aproveitou para anunciar que estava antecipando a liberação de mais 10 leitos de CTI. “Nas próximas 72 horas vamos abrir 5, e nos próximos 20 dias, mais 5”, disse, adiantando que o esforço – de abrir leitos – poderá ser interrompido em breve. “Não existe médico à disposição para estruturarmos mais CTIs. Os hospitais do Rio estão sem médicos. Nós também estamos enfrentando essa dificuldade”, revelou. “Temos limitação de respirador, de leitos, de espaços físicos e de profissionais (médicos) para atender. Isso é fato! As pessoas têm que ter isso de forma muito clara e evidente. Quando você tiver um parente na porta de um hospital buscando um leito e não tiver… não é questão de querer, não, não tem! Como é que vai ser feito? Eu estou compartilhando aqui a preocupação que eu tenho com os meus”, apelou.
Ainda explorando o lado emocional, Drable voltou a citar o hipotético caso de não ter onde levar um parente para tratar da Covid. “Eu fico me imaginando chegando em um hospital com meu pai e descobrir que não tem como atendê-lo porque não existem leitos. Isso acontece no Brasil. Nós vamos esperar acontecer em Barra Mansa? Nós vamos continuar fazendo festas, como eu estou vendo acontecer aí a torto e a direito, até chegar o momento de ver o pai, parente da pessoa que tá organizando a festa ou daquela que foi se divertir, não ser atendido e morrer?”, disparou. “Nós ainda não estamos vivemos isso e o que vai definir se nós queremos ou não que aconteça é o nosso comprometimento com o futuro. É simples assim a conta!”, desabafou.
Medidas
Além de mexer com os brios dos barra-mansenses, Rodrigo anunciou que para conter o avanço da Covid poderá, se for o caso, tomar medidas duras. “Eu não quero fechar comércio, não quero proibir música ao vivo, não quero fechar bar e restaurante. Eu não quero ver um lockdown sendo discutido aqui na cidade”, disse, para logo completar: “Mas, se as pessoas não mudarem de comportamento, isso vai acontecer, independentemente da minha vontade”, afirmou, de forma ríspida. “Aquelas pessoas que me mandam mensagens pedindo para não fechar a cidade ou para não decretar lockdown, quero ver o que elas vão fazer quando estiverem com um parente na porta do hospital sem ser atendido. Vai ser o primeiro a gritar dizendo que não tive atitude na hora adequada”, comparou o prefeito, para logo disparar: “A atitude é nós começarmos a restringir, porque, infelizmente, o bom senso tá fugindo à maioria!”, avaliou.
Para Drable, é hora do envolvimento de todos. “Podemos continuar com o comércio funcionando? Sim! Podemos continuar com os bares e restaurantes funcionando? Sim, desde que os protocolos sejam seguidos”, disse, contando que chegou a receber fotos de bares com 20 pessoas em uma mesa. “Isso é bom senso? Até que ponto as pessoas vão brincar com isso que a gente está vendo?”, indagou, indo além.
“Você pode ir a um restaurante com os amigos, a um bar, sentar à mesa com 5, 6, 7? Pode, é claro, desde que respeite as condições de distanciamento dos demais. Que não fique transitando para um lado e para o outro e não fique se beijando pelo bar, porque outra coisa que não é mais concebível hoje em dia… as pessoas se encontram e se beijam no rosto. Qual a necessidade disso hoje com tudo que a gente tá vivendo, com tudo que nós estamos vendo acontecer?”, “Vamos botar a mão na consciência!”, sugeriu, ao encerrar sua live.

 

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