Não acabou

Dois anos de pandemia e os prefeitos liberam o uso de máscaras

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Pollyanna Xavier

Na semana em que a Covid-19 completou dois anos de ‘vida’, quatro prefeitos revogaram a obrigatoriedade do uso de máscaras: Neto, de Volta Redonda; Rodrigo Drable, de Barra Mansa; Diogo Balieiro, de Resende e Mário Esteves, de Barra do Piraí. Fizeram isto poucos dias depois do decreto do governador Cláudio Castro ter tornado facultativo o uso de máscaras em todo o estado. Os quatro se basearam nos números da pandemia em seus municípios, no avanço da vacinação e, claro, na decisão (política) do governador. Mas a medida não será acatada por todos: empresas, bancos, escolas, indústrias e hospitais seguem mantendo a obrigação pelo uso do acessório.
Em Volta Redonda, a CSN não aderiu ao decreto. Pelo que o aQui apurou, a máscara continua sendo obrigatória no interior da usina ou de qualquer outra instalação da empresa, como no Centro de Pesquisas, ETPC, FCSN, Hotel Bela Vista etc. “Depois do decreto municipal ainda não houve nenhuma comunicação oficial da empresa, portanto segue a regra anterior. As indústrias precisam seguir a portaria nacional, que determina o uso de máscaras em suas dependências”, comentou uma fonte da CSN. A Volks, em Resende, a Stellantis (antiga Peugeot-Citröen), em Porto Real, e a Votorantim, em Barra Mansa, também estão mantendo a obrigatoriedade.
Para o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, Silvio Campos, a manutenção do uso da máscara demonstra prudência. “Somos contra a liberação neste momento, pois ainda vemos a (variante) Ômicron como um perigo iminente”, disse Silvio, explicando que o Sindicato conseguiu reduzir, pela metade, a lotação dos ônibus fretados que transportam os trabalhadores. “Isso dobrou o número de ônibus à disposição dos funcionários. Também mexemos nos refeitórios das empresas e aumentamos o horário das refeições para evitar a aglomeração. Então, na atual conjuntura, vamos fazer de tudo para que o trabalhador continue a usar a máscara, até que venham melhores notícias sobre a pandemia”, explicou.
Na Volks, em Resende, a obrigatoriedade da máscara continua valendo. Em nota, a montadora informou que “monitora diariamente a situação epidemiológica da Covid e toda a legislação que regulamenta as medidas de saúde e segurança nos locais de trabalho”. Mais adiante, esclareceu que, embora o município de Resende houvesse baixado um decreto flexibilizando o uso da máscara, a Volks “possui colaboradores de várias cidades na região com índices de vacinação e número de novos casos de Covid-19 variados. Por essa razão, considera que é prudente aguardar a evolução dos indicadores na região para posterior decisão sobre a adoção ou não de medidas de flexibilização no âmbito de suas instalações”. Tudo para garantir a segurança sanitária dos funcionários.
As empresas do Cluster Automotivo também manterão a máscara. A decisão se baseia na Portaria Interministerial n.° 14, publicada em janeiro, que estabelece o uso de máscaras nos locais de trabalho. A medida vale para todos os ambientes, livres ou fechados, e também para o transporte fretado. A Firjan também reforçou a necessidade de cumprimento da Portaria, mesmo depois da publicação dos decretos municipais.
Comércio e escolas
O decreto do prefeito Neto será seguido pelas empresas ligadas à Aciap-VR, e isto inclui o comércio local. A informação é da assessoria de Comunicação da Aciap, que afirmou que a instituição manterá o bom relacionamento com o Executivo e seguirá o decreto em vigor. “A Aciap determinou aos seus associados seguir o decreto municipal. Não foi divulgada nenhuma nota oficial sobre isto, mas essa é a posição da Associação”, informou. Já a Aciap-BM, apesar de procurada pelo jornal, não informou a posição da instituição e a orientação aos associados diante do decreto de Rodrigo Drable.
No caso de Volta Redonda, a dispensa do uso da máscara vale para áreas abertas e fechadas, estabelecimentos comerciais (lojas), de prestação de serviços e ainda em órgãos públicos. O decreto recomenda que se use o acessório no transporte público e o mantém obrigatório na rede pública e privada de saúde, nas escolas, unidades prisionais e nas instituições de longa permanência para idosos (asilos). Em bancos, igrejas, condomínios e reuniões coletivas, o uso é facultativo. Lembrando que pessoas com sintomas respiratórios devem fazer o uso da máscara independente de ser facultativo ou obrigatório.
A questão nas escolas é mais complexa. Isto porque, em março, pesquisadores da Fiocruz se manifestaram contrários à liberação das máscaras. “O custo humano para chegarmos ao patamar atual foi a perda de 650 mil pessoas, desnecessariamente. Por isso reforçamos que o relaxamento prematuro das medidas protetivas, assim como não investir na motivação da população sobre a vacinação, significa abandonar a história de tantas vidas perdidas”, defenderam, sugerindo aos governantes que as medidas de relaxamento sejam adotadas com responsabilidade, sob o risco de retrocesso nos ganhos obtidos.
Essa semana, entretanto, a Fiocruz divulgou nota técnica (n°02/2022) sobre o uso das máscaras nas escolas e pediu apoio aos prefeitos quanto às medidas de flexibilização dos protocolos sanitários abordando os possíveis “prejuízos do uso de máscaras de longo prazo em ambientes socieducacionais”. “O uso de máscara conferiu, ao longo dos últimos dois anos, sensação de proteção e segurança. Assim, cabe não só estarmos atentos para os danos dessa prática por tão longo tempo, como também cabe acolher os receios e resistências de muitos em retirá-la”, publicou.
Na prática, a Fiocruz defendeu a liberação das máscaras nas escolas, mas sugeriu que “as secretarias de Saúde e Educação continuem fornecendo máscaras para os alunos e trabalhadores que precisarem dela, conforme indicações de uso”. A instituição termina a nota ressaltando que as medidas de flexibilização do uso de máscaras não significam a proibição do uso. “Caberá às escolas, portanto, o estabelecimento da melhor convivência possível com as diferenças”, concluiu.
Em Volta Redonda, as escolas seguem com o uso da máscara, mas professores e diretores reclamam que não está sendo fácil manter o acessório entre os estudantes. “Os alunos ficam o dia todo sem a máscara, daí vêm para a escola e não querem usar. Só que é obrigatório, então eles colocam. Mas tiram quase sempre, esquecem no banheiro, no refeitório, na quadra, na mochila, até no lixo, menos no rosto. É um problema. Acho que poderiam liberar na escola, já que a vacinação está avançando entre os estudantes. E na hora da merenda, eles tiram mesmo, colocam em cima da mesa, ninguém tem o cuidado de deixar no colo ou em qualquer outro lugar mais seguro e próximo ao corpo”, reclamaram.

VR e Resende registram óbitos pós decreto
O problema da flexibilização do uso de máscaras é a população achar que a pandemia acabou. Não é verdade. Segundo apurou o aQui, das quatro cidades citadas no início da matéria, pelo menos duas – Resende e Volta Redonda – registraram óbitos após a publicação dos decretos. A informação é oficial e pertence ao Portal da Transparência Cartorária, que faz o levantamento a partir dos registros de óbitos por Covid nos cartórios. Volta Redonda, por exemplo, registrou três mortes (duas no dia 11 e uma no dia 15 de março) e Resende, pasmem, 27.
O número elevado de mortes em Resende tem uma explicação simples: é que no município, o decreto que flexibiliza o uso de máscaras em locais públicos e abertos foi publicado no dia 2 de dezembro do ano passado. E no dia 9 de março deste ano, ele foi republicado. De dezembro até a republicação, foram 26 mortes por Covid e do dia 9 de março até o fechamento desta edição (quinta, 17), foi registrado um óbito. As demais cidades – Barra Mansa e Barra do Piraí – seguem sem registros.
Ainda de acordo com o Portal da Transparência Cartorária, nos dois anos de pandemia, Volta Redonda registrou 1.954 mortos por Covid – 575 a mais do que o divulgado pela prefeitura. O pico foi no dia 8 de abril de 2021, quando ocorreram, num só dia, 16 óbitos pela doença. Já em Barra Mansa, foram 812 mortes, contra as 731 divulgadas no site da prefeitura, com o maior número de registros no dia 30 de março de 2021: 8 óbitos. Resende e Barra do Piraí foram 557 e 217 mortes, respectivamente.
Vale registrar que as autoridades sanitárias brasileiras ainda não sabem informar como a nova variante Deltacron – já identificada no Brasil – vai se comportar nos organismos vacinados ou não vacinados. O impacto da nova cepa no cenário epidemiológico começou a ser analisado por especialistas na semana passada, com a desobrigação do uso de máscaras por governadores e prefeitos. Neste momento de incertezas e decisões políticas é preciso que as pessoas façam uma gestão individual de risco para ver se realmente é a hora de retirar o acessório de segurança. Afinal, a pandemia ainda não acabou.

Caixa Econômica foi o banco que mais registrou infectados pela Covid

Uma informação interessante: a Caixa Econômica foi o banco que mais afastou funcionários nesses dois anos de Covid-19. Metade dos seus empregados contraiu a doença, possivelmente, no ambiente de trabalho. Os dados constam de uma pesquisa da Federação Nacional das Associações do Pessoal da CEF (Fenae) sobre a saúde dos funcionários da Caixa: dos três mil entrevistados, 36% tiveram Covid e 41% dos que adoeceram afirmaram acreditar que a contaminação ocorreu durante o expediente no banco.
Outro dado alarmante divulgado pela Fenae é que o distanciamento não era respeitado em 85% das agências e “sempre ou quase sempre” faltava ventilação adequada. “Nestes dois anos de pandemia, mesmo com todos os riscos de contágio para os empregados e também para as famílias deles, os bancários da Caixa permaneceram na linha de frente do atendimento nas agências, inclusive em dezenas de sábados, para que o pagamento do auxílio emergencial e de outros benefícios sociais fosse garantido a mais da metade da população. Isto explica o fato de ter sido o banco com maior número de infectados pela Covid”, ressaltou o presidente da Fenae, Sérgio Takemoto.