Nada de chupa-sangue

Vampirinho, ex-engraxate, assume cadeira de vereador em Volta Redonda

Mateus Gusmão

Ednilson Azevedo, 42, ainda pode andar pelas ruas de Volta Redonda sem ser reconhecido por muita gente. Só receberá, por enquanto, um sorriso e um aperto de mão dos 1.022 eleitores que acreditaram que ele, popularmente conhecido como Vampirinho, seria um bom candidato a vereador pelo PRB nas eleições de 2020. Há três semanas, ao assumir a cadeira deixada por pastor Washington Uchôa, que assumiu a secretaria de Políticas Para Pessoas com Deficiência, Vampirinho ganhou a chance de ser mais conhecido pelos 222 mil eleitores da cidade do aço.
Em entrevista ao aQui, Vampirinho começou revelando a origem do estranho apelido. E, pasmem, diz que nada tem a ver com ‘chupar sangue’ de ninguém. “Eu era pequeno e gostava muito de jogar bola. Uma vez, jogando no Jardim Paraíba, caí com a cara no chão e quebrei dois dentes da frente, o que gerou uma dificuldade para os dentes crescerem. Só cresceram os caninos e eu fiquei parecendo um vampiro, e a molecada me apelidou”, disse, rindo da história. “Depois, por causa do futebol, chegaram a me chamar de ‘Esquerdinha’, mas o apelido não pegou. Hoje só me chamam de Vampirinho”, afirma, garantindo que o apelido não o incomoda. Muito pelo contrário.
Vampirinho revelou ainda que só tinha sete anos quando ganhou o apelido. Tinha acabado de chegar a Volta Redonda, acompanhando a mãe e mais cinco irmãos, todos naturais de Divino ou Carangola, cidades de Minas Gerais. “A gente veio tentar uma vida melhor”, disparou. “Quando chegamos, a gente vivia na garagem de uma casa no Parque das Ilhas. Minha mãe saía para lavar roupa para fora, e eu e meus irmãos íamos para a rua para engraxar sapato”, contou.
Foi nessa época que o mineirinho conheceu Felipe Melo, volante do Palmeiras e ex-jogador da seleção brasileira, que morava no mesmo bairro. “A gente tava jogando bola, ele chutou e a bola quebrou um isopor que eu tinha e guardava os ‘geladinhos’ que eu vendia. Eu falei que iria pegar a bicicleta dele pra pagar o prejuízo. O pai dele, seu Coelho, foi lá onde eu morava e pagou todo o prejuízo”, detalhou, aproveitando para revelar que, depois de um tempo, a sua família ganhou um terreno de invasão no Morro da Caviana, no Santo Agostinho, onde montou um barraco. E ele, seus irmãos e a mãe foram morar na localidade.
Mas sua vida começou a mudar quando pediu para engraxar os sapatos de Deley, ex-deputado federal, hoje assessor do prefeito Neto. “Na época, ele era técnico do Fluminense. Acho que era 1994, e ele gostou de mim. Pagou muito bem pelo serviço”, contou todo bem-humorado, garantindo ter aproveitado a oportunidade para contar seus problemas ao craque e político. “Eu contei minha história e ele logo começou a me ajudar. Mandava cesta básica pra gente e tudo. Eu disse que gostava de jogar bola e ele me ajudou a entrar na categoria de base do Voltaço”, afirmou.
De acordo com Vampirinho, os anos foram passando e sua ligação com Deley continuou. “Quando ele virou deputado, eu fui pedir emprego pra ele. Mas ainda não tinha terminado o ensino médio, e ele disse que só iria me empregar se eu terminasse os estudos. Terminei e fui trabalhar para ele, como assessor. Fiquei 12 anos com o Deley, saindo em 2016”, disse, sem explicar o que teria provocado o rompimento entre os dois. “Depois que fui trabalhar com ele, me apaixonei pela política. Fui candidato a vereador pela primeira vez em 2008 e tive mais de 700 votos. Depois fui candidato mais três vezes”, completou.
Após trabalhar 12 anos com Deley, Vampirinho provocou abrigo junto à família Reis, de Duque de Caxias – do prefeito Washington Reis. E passou a trabalhar com o deputado federal Gutemberg Reis. “Consegui ajudar muitas pessoas com cirurgias de visão. Levava para operarem no Hospital do Olho de Duque de Caxias”, disse, acrescentando que, por isso, com o apoio dos Reis, achou que conseguiria vencer as eleições de 2020. Não conseguiu.
Vampirinho revela que ajudou o pastor Washington a montar a chapa de candidatos do PRB e esperava que o partido elegesse dois parlamentares: o pastor e ele. “Eu imaginava ganhar, mas não deu. Só elegemos o pastor Washington”, detalha. “Acabou que o prefeito Neto convidou o pastor a assumir uma secretaria para pessoas com deficiência; essa sempre foi uma bandeira do pastor. Deus abençoou isso e eu consegui chegar à cadeira”, disse.
Já falando como vereador, Vampirinho jura que não sabia que Neto iria criar uma secretaria para o pastor do PRB. “Foi uma surpresa”, dispara. “Fiquei sabendo pelas matérias do jornal. Agora vou poder ajudar mais o povo”, comentou, ressaltando que está buscando junto com o deputado federal Gutemberg Reis, a quem está aliado, recursos para a pasta do pastor Washington.
Apesar da ligação com os Reis, Vampirinho se mostra grato a Neto. “Sou um parceiro do governo, estou trabalhando para ajudar o Executivo. Acredito que o Legislativo tem que ajudar o Executivo, trabalhando em conjunto. Assim a gente consegue ajudar a população e fiscalizar também os serviços prestados”, acrescentou.
Como bom mineiro que é, Vampirinho desconversou ao ser questionado se daria apoio, caso Neto lhe peça, para algum candidato nas eleições de 2022 – como Deley. “A eleição tá longe ainda… Mas sou um parceiro do governo e um parceiro do prefeito Neto. Vamos caminhar junto com o Neto”, finalizou. Para quem sabe ler…

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