Mulheres primeiro

Tumulto e desorganização na vacinação contra a Covid-19 marcam a semana em Volta Redonda

Pollyanna Xavier

A vacinação de gestantes, puérperas e lactantes merece um capítulo à parte no Plano Municipal de Imunização de Volta Redonda. O mérito seria mais por constrangimento do que por competência. Pelo menos foi o que ficou demonstrado quando a secretaria de Saúde anunciou a vacinação contra a Covid-19 para esse grupo prioritário. Houve até uma correria à Ilha São João na segunda, 28, afinal, ansiosas, elas não queriam perder a chance de ser vacinadas com as quase 6 mil doses de vacinas recebidas dias antes. Sem organização e com uma comunicação cheia de falhas o resultado foi tenso: mulheres com crianças de colo voltando para casa sem a vacina, um nó no trânsito provocado por centenas de carros no entorno da Ilha, gente furando a fila e muita, mas muita reclamação nas redes sociais.
Nas mídias, a prefeitura se gabou de ter realizado o maior ‘drive thru’ de vacinação do Sul Fluminense, com as seis mil doses aplicadas em um único dia. O próprio prefeito Neto comemorou os resultados: “Amigos e amigas, vacinamos hoje mais de seis mil pessoas. Ainda vamos contar as vacinas aplicadas nos postos de saúde, mas já podemos dizer que temos um dia histórico no combate à Covid-19. Somente no Drive-Thru da Ilha São João foram 5,4 mil doses aplicadas. E fica aqui o nosso apelo: nos mandem mais vacinas que damos conta do recado”, desafiou Neto, ignorando os gargalos. A postagem, claro, rendeu.
Houve quem elogiasse a secretaria de Saúde, mas a maioria reclamou da organização, da comunicação, da bur(r)ocracia e até da falta de infraestrutura. “Faltou água pra gente beber lá. Vamos a todos os drives, ajudamos na campanha e não é a segunda nem a terceira vez que ficamos sem água. Do que adianta chamar todo o funcionalismo público para ajudar na campanha se não temos o suporte necessário? A moça que estava fazendo dupla comigo teve que tomar água da torneira do banheiro. Um absurdo!”, denunciou uma internauta, funcionária do Programa de Saúde Bucal.
Além dela, mulheres com crianças de colo não conseguiram ser imunizadas. “(…) Tenho um bebê de três anos, apresentei a caderneta de vacinação (da criança) que já está completa, o cartão do SUS e perguntei sobre a vacina para lactantes. A atendente disse que a criança tinha que estar junto. Pediram meu CPF também, eu comecei a falar o número e a atendente disse que queria o documento. Meu CPF estava no RG e no cartão do SUS também. Pra que ela ainda quis o CPF? É só pra dificultar, né?”, reclamou uma moradora, ao comentar a postagem feia por Neto. “Meu filho tem um ano e dois meses e eu não pude tomar a vacina”, chiou outra internauta, reclamando da falta de comunicação sobre os direitos das lactantes no acesso à vacina.
De fato, os primeiros avisos da prefeitura sobre a vacinação das lactantes (gestantes e puérperas) não informava até que idade a criança tinha que ter para que a mãe pudesse ser vacinada. A falha mostrou que a secretaria de Saúde, comandada por Conceição Souza, ignorou a nota técnica 01/2021 do Ministério da Saúde, que manda priorizar gestantes com mais de 30 dias de gestação, puérperas com até 45 dias após o parto e lactantes que estejam amamentando crianças com até 12 meses de idade. Outra falha foi exigir a presença do filho para provar que a mulher era lactante. Uma simples consulta aos sistemas de informação da pasta (deve existir, né?) ou a apresentação do cartão de vacinação da criança resolveria o problema. “Pra que expor a criança?”, comentou uma fonte.
Vacina
Outra confusão envolvendo as gestantes, puérperas e lactantes foi em relação à aplicação da segunda dose. Muitas receberam a primeira dose da AstraZeneca, mas por decisão da Anvisa – que investiga um óbito de uma gestante em São Paulo após ser vacinada – o grupo não poderá receber a segunda dose do mesmo imunizante. Sem ter informações da decisão, as gestantes e puérperas que estavam com a segunda dose marcadas para a semana, não conseguiram ser vacinadas.
Na quarta, 30, a SES-RJ anunciou que o Conselho de Secretarias Municipais de Saúde (Cosems) teria autorizado que gestantes e puérperas que tomaram a Astrazeneca poderiam tomar a vacina da Pfizer como segunda dose, desde que respeitassem um intervalo de 12 semanas entre as aplicações. A medida está sendo tomada na Europa e no Canadá. O problema é que até ontem, sexta, 2, a decisão ainda não tinha sido oficializada aos municípios do Rio.
Na terça, 29, o vereador Renan Cury chegou a entregar um oficio à prefeitura solicitando que a secretaria de Saúde oferecesse a segunda dose da Pfizer às gestantes e puérperas que tomaram AstraZeneca. “Volta Redonda deve iniciar esse esquema sim. Apresentei um documento solicitando que isso seja feito”, comentou, esperando ser atendido.
Renan, que tem uma página de notícias no Facebook, acompanha de perto a vacinação na cidade, e usa o seu canal de comunicação para publicar orientações da vacinação. “Como vereador comunicador tenho passado diariamente, tanto no rádio quanto na internet, qual orientação para aquele dia. Também tenho ficado em cima das unidades de saúde que é onde encontramos uma quantidade maior de problemas”, acredita.
Para Renan, a logística do drive-thru é boa, mas a vacinação nos postinhos deixa a desejar. “Volta Redonda começou muito mal na imunização, causando megas filas nas unidades de saúde. Insisti muito num drive-thru para que pudesse amenizar os problemas e o prefeito Neto nos ouviu, fez e deu certo. Hoje o drive é muito bem executado, ágil e eficaz (…). Pra ficar 10, Volta Redonda precisa melhorar a Atenção Básica. Infelizmente existem informações que são divulgadas nos canais oficiais da prefeitura e da imprensa, mas que os próprios funcionários dos postinhos desconhecem”, reclamou.
Além da falta de informação, Renan citou o tratamento grosseiro de alguns funcionários das unidades de saúde. “Os funcionários do postinho do São Geraldo são ótimos, educados, espertos, engajados, estão de parabéns. Mas, em alguns postos que prefiro não comentar, mas que já foram denunciados à secretaria de Saúde, a grosseria e a falta de informações são muito grandes”, lamentou.
Sobre a vacinação das gestantes, lactantes e puérperas, Renan falou da necessidade de vacinar o grupo e lembrou que o número de óbitos de grávidas por Covid-19 nos cinco primeiros meses de 2021 em todo o Brasil, superou o ano de 2020. “Foram 554 óbitos em 2020 ante 911 de janeiro até o dia 26 de maio de 2021. A primeira vítima da variante Delta no país foi uma mulher grávida”, destacou, lembrando de um caso em Volta Redonda, em maio de 2020, de uma gestante de 33 anos que morreu após dar à luz no Hospital São João Batista. O bebê – uma menina – teve alta quase um mês. Infelizmente o Brasil e o mundo ainda não tinham vacinas para a Covid e muitas mulheres perderam suas vidas ou os seus bebês. “Esse caso de Volta Redonda mexeu muito com a gente”, concluiu.

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