‘Meu ouvido não é penico’

Covid-19 faz com que aumentem os abusos dos carros de som; VR já conta até com ‘drone do som’, com volume nas alturas

Roberto Marinho

Ovo, camarão, empadinha, peixe, galinha, promoção de supermercado, parquinho de diversão e mais um tanto de coisas, ao gosto do freguês. Só falta venderem coca, se já não estão. Com inflação e desemprego em alta, e vendas em baixa, grandes e pequenos comerciantes andam apelando para a velha perereca (carro de som) para tentar sobreviver. Esquecem dois detalhes: o primeiro, mais importante, é que a estratégia, apesar de barata, não oferece o retorno que jornais, rádios e TVs garantem aos seus anunciantes. Segundo, poucos aturam o barulho dos carros de som, que pioram a poluição sonora e tiram o sossego dos moradores.
Tem mais. Na ânsia de atrair fregueses, alguns acham que quanto mais alto o grito – ou melhor, o volume da propaganda -, mais eficientes serão os resultados. Não satisfeitos, alguns estão utilizando ‘drones de som’ para vender ‘diversão’ de um parquinho instalado ao lado do estacionamento do Shopping Park Sul, que sem a ajuda do céu vive promovendo constantes aglomerações, colocando crianças e adultos em risco de contrair a Covid-19.
Além de não ser exatamente uma boa tática de vendas, o som alto que sai dos carros de som atrapalha ainda aqueles que estão trabalhando em casa (home office), algo muito comum nesses tempos de pandemia. É o caso de um morador do Jardim Belvedere, que, quase indo à loucura com as propagandas escancaradas nas pererecas, ligou para o Ciosp (Centro Integrado de Operações de Segurança Pública) para denunciar um carro de som que passava pelas ruas do bairro vendendo camarão. Sempre em promoção, é claro.
“Literalmente o motorista (vendedor) berrava ao microfone. Ele estava a algumas ruas de onde eu moro, mas os gritos dele podiam ser ouvidos, de tão alto que estava o som. Nesse dia, minha paciência se esgotou, porque é recorrente. São vários carros de propaganda passando todos os dias, de manhã, à tarde e à noite”, desabafou.
Mas, segundo ele, pior que o barulho insuportável que é obrigado a ouvir todos os dias foi a resposta que recebeu da atendente do Ciosp. “A moça foi muito educada e cortês, mas disse que para ela acionar a GM (Guarda Municipal) era preciso que o carro de propaganda estivesse parado e que eu anotasse a placa. Argumentei com ela que seria difícil o carro estar parado, pois eles são pagos justamente para circular, e que o veículo estava em outra rua, e eu estava tentando trabalhar por isso não tinha como eu sair de casa e ficar correndo atrás do carro de som para anotar a placa”, afirmou.
Sua irritação aumentou quando a “atendente” não lhe deu nenhuma outra alternativa. “Eu salientei para ela que o carro vendia camarão, produto muito perecível, e talvez fosse o caso de acionar também a fiscalização da secretaria de Fazenda”, pontuou. Mas de nada adiantou. Além de ser incomodado pelo barulho, o morador ainda ficou indignado com o atendimento do Ciosp, que classificou como “lamentável”. “Me senti totalmente desassistido, como se os comerciantes pudessem fazer de tudo e aos moradores só restasse aguentar esse barulho infernal, todos os dias”, disparou.

Atendimento equivocado
O aQui encaminhou a queixa do morador à prefeitura de Volta Redonda, questionando se o atendimento do Ciosp teria sido correto e quais seriam as medidas que um morador pode tomar para denunciar um carro de som que esteja circulando com som muito alto, acima do que a lei permite. De acordo com a resposta enviada, o atendimento prestado no Ciosp na ocasião foi equivocado. Inclusive, segundo a prefeitura, depois da denúncia feita pelo aQui, foram feitas reuniões com os atendentes para corrigir a atuação deles.
“A Guarda Municipal de Volta Redonda afirma que a informação de que o carro tem que estar parado está equivocada, e que está sendo feita uma reunião com os atendentes para aperfeiçoar os atendimentos”, diz a nota, salientando, no entanto, que qualquer informação a mais – como locais de maior incidência, por exemplo – “é bem-vinda para que seja traçada uma operação para inibir ou sanar esse tipo de irregularidade”.
A nota informa ainda que desde janeiro está sendo feita uma fiscalização sobre “os veículos que utilizam som em volume que contrariam o artigo 228 do Código Brasileiro de Trânsito (CTB) – usar no veículo equipamento com som em desacordo – e que basta o agente da GMVR ouvir, sem necessidade de abordagem”, para que o motorista que esteja cometendo a irregularidade seja autuado. A GM também informou que nos últimos seis meses foram notificados 186 veículos com som abusivo, sendo que todos teriam sido multados em R$ 195,23 – infração de natureza grave – com perda de cinco pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH).
A GM ainda informou que os motoristas dos carros de som estão sendo orientados nas abordagens a procurar regularizar as licenças junto à secretaria de Fazenda (SMF), onde estarão passando por vistoria junto à GMVR e à secretaria de Meio Ambiente (SMMA), para definição do volume adequado a ser usado nas propagandas. Ou seja, oficialmente, não precisa correr atrás do carro do camarão. Basta ligar para o Ciosp. Mas, se não der certo, fica o alerta do aQui: bote a boca no trombone! Quanto ao ‘drone do som’, é torcer para que o bom-senso prevaleça. Ou que a GM crie um esquadrão de drones para vigiar os céus da cidade do aço.

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