quinta-feira, novembro 25, 2021
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Memória metalúrgica

Na próxima terça, 9, a greve de 88, que paralisou a CSN e provocou a morte de três operários, completará 33 anos. A princípio, não haverá nenhuma programação a respeito, apenas uma panfletagem do Psol na Passagem superior. Mas, para que a data não seja completamente esquecida, o aQui conseguiu acessar os arquivos do antigo e temido SNI (Serviço Nacional de Informações) e publica alguns detalhes do que os espiões do exército brasileiro escreveram sobre o que aconteceu na cidade do aço.

Por: Pollyanna Xavier

Estacionado em frente ao Escritório Central da CSN, o carro de som do Sindicato dos Metalúrgicos chamava a atenção de quem passava pela Vila. No megafone, o deputado constituinte José Juarez Antunes mobilizava os trabalhadores para um piquete contra a administração da siderúrgica. Era 7 de novembro de 1988 e a data marcaria o início da grande greve na Usina Presidente Vargas, que culminou com a morte de três operários dois dias depois. Na próxima terça, 9, o fato completa 33 anos.
Em seu discurso, Juarez (que já tinha sido presidente do Sindicato dos Metalúrgicos por dois mandatos) orientou os operários a desligarem os computadores e telefones do Escritório Central e cruzarem os braços. O Senge (Sindicato dos Engenheiros) também distribuía, ali perto, um boletim convocando a classe para a greve geral. Preocupada, a gerência de patrimônio da CSN mandou trancar os portões da passagem superior e bloquear o acesso à UPV com uma caminhonete tipo Veraneio. O carro pertencia à frota da empresa. Ninguém entrava e nem saía.
Do Escritório Central, o carro de som se dirigiu à Passagem Superior e parou paralelo à caminhonete. Marcelo Felício, que era o presidente do Sindicato da época e tinha o apoio de Juarez Antunes, “incitou os trabalhadores” a usarem a força para tirarem o veículo da frente. A Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros foram chamados e houve confronto. Os trabalhadores retiraram a caminhonete do caminho e empurraram o caminhão do Corpo de Bombeiros. No tumulto, a arma de um policial desapareceu e Marcelo Felício, que assistia a tudo de cima do carro de som, gritava para que os “trabalhadores resistissem” e se armassem com “barras de ferro e pedras”.
Os detalhes daquele dia, sob a ótica das forças militares, constam em um dossiê identificado com a sigla ACE – Arquivo Cronológico de Entrada – produzido pelo extinto Serviço Nacional de Identificação (SNI). O documento foi registrado, inicialmente, como confidencial e permaneceu assim até 2011, quando foi aberto pela Comissão Nacional da Verdade. Hoje, qualquer um pode ter acesso ao acervo gigantesco produzido pelo SNI, basta ter uma conta no Arquivo Nacional.
O aQui acessou esses arquivos e encontrou os documentos da Greve de 88 na CSN. Poucos detalhes daquele episódio não foram contados pela imprensa. Mas uma curiosidade chamou a atenção: todos os documentos estão rubricados. Não há nomes ou assinaturas legíveis identificando quem preencheu os papéis. Para a Comissão, trata-se de uma tentativa de impedir a punição aos autores de possíveis violações.
Foram nestes documentos que foi registrada a rotina da CSN naquele fatídico 9 de novembro de 1988. Tudo o que aconteceu dentro e fora da usina, e que era relevante aos agentes do SNI, foi anotado. É o caso, por exemplo, do episódio que relata a “infiltração” de Colombo Vieira de Souza Junior, um assessor do Sindicato na época, na massa operária que se amotinava para a Greve. Colombo estaria na porta da UPV e foi identificado na ACE como ex-militante da Ação Libertadora Nacional (ALN) – a mesma que 18 anos antes tentou sequestrar o avião Caravelle PP-PDX, da Viação Cruzeiro do Sul, no Aeroporto Galeão, no Rio.
Colombo não foi o único a ser espionado pelo SNI. A movimentação de todos os diretores e assessores do Sindicato dos Metalúrgicos foi vigiada pelo Estado. Há registros que mostram Vagner Barcelos de Souza, outro diretor sindical da época, às 21 horas do dia 8, conversando com um grupo de metalúrgicos na porta da usina. Ele teria informado aos operários que as tropas do Exército de Barra Mansa e Valença estavam a caminho e pediu que os metalúrgicos mantivessem a calma e enfrentassem os soldados. Quarenta minutos depois, o Exército iniciou a operação de entrada na UPV e Luiz Antônio Vieira Albano, outro personagem da época, teria gritado para que os operários corressem para a Aciaria e ficassem ali até as coisas se acalmarem.
Enquanto os metalúrgicos corriam para a área da Aciaria, João Campanário – advogado e figura popular no Sindicato, e que também teve os passos vigiados – teria invadido a gerência de Segurança da CSN, aos berros, “exigindo” falar com o coronel Mota. Queria conter a entrada dos militares e pediu que o oficial impedisse a invasão. Os documentos registram que Campanário agrediu um tenente e acabou detido.
Nos arquivos, há muitos detalhes sobre o emblemático 9 de novembro de 1988. Consta, por exemplo, que ainda na madrugada daquele dia, “depois de diversas tentativas pacíficas de o Exército acabar com o movimento”, os grevistas, desta vez liderados por Isaque Fonseca, teriam se armado com vergalhões, pedras, paus, coquetéis molotov e até garrafas com ácido sulfúrico. Com o aparato, promoveram diversos arrastões no interior da CSN.
Do lado de fora, por volta das 8h, quando ocorria a troca de turno, Juarez Antunes e Colombo Vieira falavam para um grupo de operários que tentava acessar a Passagem Superior que quem entrasse na fábrica não poderia mais sair. O movimento se estendeu por toda a manhã e alcançou o Escritório Central. Às 11h50min, uma Kombi da Alimenta – empresa que fornecia refeição para a Siderúrgica – tentou entrar na Usina, mas teria sido impedida e saqueada pelos grevistas.
Enquanto a comida era levada, o Sindicato disparava um boletim com o título “Aos trabalhadores – classe pisada deste país”. Os ânimos de todos estavam exaltados. Poucos minutos antes da invasão do Exército, tropas do 22° BIMTZ, 57° BIB e da Polícia Militar montaram guarda na porta da CSN. Ao invadirem, consta que os militares foram recebidos a pau, pedra, mesas, cadeiras, barras de ferro e ferramentas lançadas pelos peões. As tropas revidaram com tiro de munição real.
O relato da morte dos três operários é seco e frio. Os documentos dizem apenas que “ao final do conflito houve um saldo de três mortos, todos metalúrgicos, e diversos feridos”. Nos dias seguintes, a greve continuou, mas depois das mortes, a comoção tomou conta da cidade mobilizando a população inteira. Isto fica claro em duas situações diferentes: a primeira, no velório de um dos metalúrgicos mortos, que reuniu mais de 30 mil pessoas. O cortejo saiu da Vila Santa Cecília até o Cemitério do Retiro.
A segunda situação em que ficou claro o apoio da população à Greve aconteceu no dia 22 de novembro – dois dias depois do conflito –, quando, atendendo a um pedido do Sindicato dos Metalúrgicos, milhares de pessoas deram um abraço em torno dos 12 km de extensão da Usina Presidente Vargas. Os dois episódios – o cortejo e o abraço – foram registrados nas ACE de maneira corriqueira. Sobre Dom Waldyr, os documentos mostram que ele também foi vigiado pelo SNI. Mas quando o relato era sobre o bispo, os agentes eram cuidadosos e não atribuíram muitos adjetivos ao religioso.
A Greve de 88 na CSN entrou para a história de Volta Redonda e marcou o sindicalismo e a luta de classe no Brasil. Os documentos produzidos pelo SNI contam a história sob a ótica do governo e tratam os sindicalistas e trabalhadores como baderneiros e subversivos. Mas não é bem assim. O que os operários queriam era a garantia e o cumprimento dos direitos previstos na recém promulgada Constituição de 1988 – chamada de Carta Cidadã. A mesma que Juarez Antunes ajudou a redigir e que, do alto do carro de som do Sindicato, parado em frente ao Escritório Central, convocou os trabalhadores para lutarem pelos novos direitos. Justo!

Ato na Passagem Superior

Amanhã, terça, 9, das 6 às 20h30min, os movimentos de esquerda, liderados pelo FLLSF (Fórum de Lutas do Sul Fluminense), vão promover um ato político na Passagem Superior da Usina Presidente Vargas, na Vila, para relembrar a greve de 88 na CSN. O ponto alto do evento será às 17h30min, quando os trabalhadores que foram mortos durante a invasão – William, Valmir e Barroso – serão homenageados com coroas de flores, que serão colocadas no Memorial 9 de Novembro.
Durante o tributo, o compositor Ziza cantará uma música de sua autoria em homenagem aos operários. Já às 18h30min será realizado um Culto Ecumênico com a presença do Pastor Cláudio, representando a religião evangélica; Josy Leal representando as religiões Mafriz Africana e uma representante da religião católica. Por fim, às 19h15min, haverá a apresentação do documentário “1988, uma Greve Corações e Mentes”, de autoria do professor Erasmo Quirici e realização do Coletivo 9 de novembro.

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