quinta-feira, novembro 25, 2021

Barrados no baile

Por Vinicius de Oliveira

Na sexta, 29, o Auê House aproveitou o último decreto de flexibilização do prefeito Neto, que já estava em vigor para reduzir os rigores das medidas contra a Covid-19, para promover um megaevento de halloween nas dependências do Clube Umuarama, na Vila. Os organizadores não divulgaram a quantidade de público que atendeu ao chamamento, mas relatos dos presentes e fotos na internet dão conta de uma fila gigantesca, que dobrava quarteirões. Todos embolados e muitos sem máscara esperavam ansiosos pela abertura dos portões. Só que a Polícia Militar apareceu e acabou com a festa. “Na marra”, dizem. Resultado: centenas de jovens, muitos fantasiados, depois de ficarem pelo menos duas horas na fila, tiveram que voltar para casa. Tristes e decepcionados.
Testemunhas contam que o gerente-executivo do Auê, Fábio Fernandes, desnorteado e visivelmente abalado, antes de dispersar a multidão, explicou, ao lado do advogado Thalles de Medeiros, que é presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-VR, que a boate gay mais conhecida na região teria sido vítima de LGBTfobia institucional, ou seja, quando a violência é praticada não só por um indivíduo, mas pela própria instituição que representa ao reproduzir, por ação ou omissão, condutas discriminatórias ou hostis. “Foi horrível. As pessoas estavam gritando, achando que iriam abrir os portões. Mas aí o Fábio contou que já tinha mostrado os documentos, que estava tudo liberado e que não estavam deixando realizar o evento por preconceito e discriminação. Disse também que isso não ficaria assim e que, se não fosse no Umuarama, o evento aconteceria em outro lugar”, contou uma das testemunhas, afirmando que foi neste momento que o ataque LGBTfóbico teria ocorrido. “Eu estava perto do policial nessa hora e ouvi quando ele disse que não aconteceria, em lugar nenhum, evento de veado. Ele disse e virou as costas”, contou.
Fábio não quis confirmar a história e nem deu entrevista. Pessoas próximas afirmam que ele tem medo de que sua casa de show sofra outras represálias por parte da PM. Contudo, no dia seguinte ao fato, ele se manifestou através de nota, tentando esclarecer o que havia acontecido. “No horário exato de 21h10min a Polícia Militar se dirigiu ao Clube Umuarama sem apresentar qualquer documento formal, informando que o Halloween Festival não poderia ocorrer. Apresentamos toda a documentação, que inclusive foi toda verificada anteriormente pela prefeitura, que afirmou estar completa e de acordo com as normas vigentes (anti-Covid, grifo nosso). Ainda assim a proibição se manteve”, diz o empresário, que foi além. “Neste mesmo dia também apareceram no clube o Corpo de Bombeiros e a Vigilância Sanitária, que atestaram não haver irregularidades”.
No fim, a nota dizia que o Auê havia cedido seu “corpo jurídico para o Umuarama, e este estaria trabalhando intensamente para a resolução de toda injustiça realizada e todas as medidas cabíveis seriam tomadas e divulgadas”. De fato, a prefeitura confirmou a versão da casa noturna, embora tenha feito questão de permanecer distante da polêmica. “A Prefeitura de Volta Redonda informa que respeita a autonomia das instituições no trabalho de fiscalização de eventos em nossa cidade. Da mesma maneira, informa que, no que tange a questões documentais obrigatórias, as quais os organizadores deveriam retirar junto à administração municipal, estava tudo dentro do normal”.
A solução que Fábio encontrou foi levar o evento de Halloween para a clandestinidade, em Antônio Rocha, Barra Mansa. Nova data, horário e local foram divulgados por e-mail para que as autoridades não a reprimissem. “Tentaram nos derrubar, mas não foi dessa vez. A gente não vai desistir”, bradou uma das drags durante o evento, ovacionada pela multidão de pessoas sem máscara e aglomeradas.
Ao ser questionada, uma fonte de dentro da Guarda Municipal, que também faz parte da força-tarefa designada para monitorar eventos considerados clandestinos durante a pandemia, garantiu que, de fato, não havia qualquer motivo para impedir o evento gay. “Basta analisar o decreto do prefeito. Lá está liberando eventos do tipo, desde que a ocupação não passe de 70% do máximo”, afirmou, pedindo anonimato. “Ali no Eucaliptal, por exemplo, onde funciona o Bendito Boteco, nenhum PM aparece. Por que apareceu apenas no Umuarama?”, questionou a fonte da GM, inclusive citando reportagens anteriores do aQui tratando exatamente de eventos no bairro. “Lembro que teve direito a show de gente famosa e tudo. E isso no auge da pandemia”, comparou.
O coletivo ‘Frente pela Diversidade’ se solidarizou com o fato da população LGBTQIA+ sofrer ataques sistemáticos, contudo fez questão de afirmar que um evento da magnitude como seria realizado pelo Auê, mesmo voltado para o público homoafetivo, não deveria ter acontecido. “Não é novidade para nós que exista LGBTFobia institucional. Nós somos pessoas discriminadas em razão da nossa orientação sexual e de gênero em espaços públicos e privados. Não seria diferente neste caso. Inclusive, a Polícia agiu de forma discriminatória, mas também as próprias casas noturnas têm casos de discriminação contra pessoas LGBTQIA+ até dentro daquelas que dizem ser voltadas para nosso público. Todas as casas estão descumprindo normas da pandemia e sabemos que não é o caso de promover aglomerações porque a maioria da população, sobretudo a juventude que frequenta esses espaços, não foi vacinada. Por isso, entendemos que todas as aglomerações devem ser coibidas e não apenas aquelas que são destinadas à nossa comunidade como instrumento de repressão. A LGBTfobia deve ser combatida, nosso compromisso é esse, mas temos que ser coerentes”.
Nota da redação: O comando do 28º Batalhão da Polícia Militar foi procurado para esclarecer o caso, mas até o fechamento desta edição não se pronunciou.

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