Leitos especializados

Volta Redonda muda atendimento para pacientes com Covid-19

Roberto Marinho

A secretaria de Saúde de Volta Redonda anunciou uma série de mudanças no atendimento aos pacientes com Covid-19 na rede municipal. A partir de segunda, 26, quem estiver com sintomas da doença não será mais atendido no Hospital São João Batista (HSJB). A partir de agora, todos serão encaminhados para o Hospital do Retiro. A ideia, de acordo com a pasta, passa por liberar os leitos do HSJB para o reinício das cirurgias eletivas e atendimento ambulatorial. A unidade, a mais importante da região, terá apenas cinco leitos para pacientes com a Covid-19.
“O São João Batista poderá cumprir sua missão de ser referência no atendimento a traumas, recebendo vítimas da região e também de outros locais, como Baixada Fluminense, por exemplo. Essa demanda, muitas das vezes com pacientes em estado grave, acabava sendo comprometida devido às internações provocadas pelo novo coronavírus”, justificou a secretária de Saúde, Conceição Souza, em release aos jornais.
Para atender os casos de Covid-19, o Hospital do Retiro terá à disposição os novos 30 leitos do anexo da FOA, recentemente entregues, todos equipados com respiradores e monitores. Segundo Conceição, os novos leitos podem ser alternados entre (atendimentos) clínicos e UTI. “Diante da necessidade”, disse, anunciando que a ala do anexo da FOA será totalmente destinada a casos de Covid-19. Assim, segundo a pasta, o prédio principal da unidade hospitalar poderá ser usado para cirurgias eletivas.
Indagada sobre a necessidade, em caráter de urgência, de desfazer a estratégia de concentrar tudo no Retiro para liberar o São João Batista, a secretária de Saúde admite rever a sua posição. “Caso seja necessário, a rede poderá novamente sofrer alteração para aumentar a disponibilidade de leitos para tratamento da Covid. Caso contrário, faremos todas as cirurgias eletivas possíveis”, informou, acrescentando que os casos graves (de Covid) serão tratados tanto na unidade municipal quanto no Hospital Regional.
Tem mais. Ela garantiu que não há mais leitos alugados junto à rede privada de Saúde, e que as vagas de leitos para a Covid podem ser fechadas ou abertas se for o caso. “Diante da necessidade”, destacou, indo além: “A rede de uma maneira geral está melhor do que a que encontramos. Aumentamos o número de leitos, também de respiradores, cateteres de alto fluxo. Estamos fazendo consultas on-line e aumentando a nossa capacidade de testagem”, afirmou a secretária na nota enviada ao jornal.
Além do Hospital do Retiro, Volta Redonda também poderá utilizar o Hospital Dr. Nelson dos Santos Gonçalves (Cais Aterrado) e os postos de Saúde batizados de “polos Covid” para atender casos suspeitos do novo coronavírus. Os polos ficam nos bairros 249, São João, Volta Grande, Siderlândia e Vila Mury.

Entenda a necessidade da mudança

Por Pollyanna Xavier

Um dia depois de a prefeitura anunciar a mudança no atendimento aos pacientes com a Covid, o aQui enviou à secretaria de Saúde um questionário com cinco perguntas referentes ao assunto. Queria saber, dentre outras, se o descredenciamento de leitos da Covid no HSJB tinha sido oficializado junto ao Ministério da Saúde; se os novos leitos do Hospital do Retiro já estariam atualizados no Cadastro Nacional dos Estabelecimentos de Saúde (CNES); como ficaria o financiamento dos leitos; e se a secretaria estadual de Saúde teria sido comunicada oficialmente, já que a mudança sem aviso prévio poderia configurar um desrespeito à pactuação que o município fez com o Estado.
Só que as respostas foram totalmente furtivas. Na verdade, a secretaria de Saúde não respondeu diretamente a nenhuma das perguntas feitas, mas sinalizou o real motivo da mudança. Trata-se da impossibilidade de o SUS manter o financiamento dos leitos, pela ausência de orçamento do próprio Ministério da Saúde. Na teoria parece complicado, mas na prática é como se o governo Federal não levasse em conta que em 2021 o Brasil ainda estaria sob a pandemia. Por esse motivo, não manteve no Orçamento de 2021 a garantia dos recursos para o financiamento de leitos.
A coisa é bastante clara quando se analisa os registros do Conass (Conselho Nacional de Secretarias de Saúde). Lá, fica claro que até dezembro de 2020, o Ministério da Saúde financiou cerca de 60% dos leitos do SUS para a Covid em todo o Brasil. Mas em janeiro de 2021, o percentual caiu para 30% e, em fevereiro, despencou para 15%. Muitos leitos foram descredenciados pelo governo Federal no dia 31 de dezembro de 2020, justamente quando acabou a vigência do decreto de estado de calamidade, que permitia o repasse de recursos extraordinários. E nessa leva, tudo indica que os leitos de Volta Redonda também teriam sido descredenciados.
A conta, inclusive, é bem simples. Considerando que até o final do ano passado, o Ministério da Saúde garantia o repasse de R$ 1.600,00 pela diária de cada leito da Covid e que em 2021 esse repasse cessou, obrigando os municípios a pagarem sozinhos a conta, o cenário fica bem mais fácil de ser desenhado. “Sem a garantia do financiamento, foi praticamente impossível para muitos gestores municipais manter os leitos”, analisou o presidente do Conass, Carlos Lula, em entrevista à imprensa. Com o descredenciamento de leitos por parte do próprio Ministério da Saúde, houve uma pressão dos estados e municípios para que a questão fosse revertida. Foi quando o governo Federal liberou quase R$ 154 milhões para custear mais de três mil novos leitos de UTI em 150 cidades brasileiras. Volta Redonda, porém, não entrou nessa lista. Na região, apenas Vassouras foi contemplada com um repasse de R$ 1,9 milhão para a manutenção de leitos no Hospital Universitário. Nem mesmo o Hospital Regional – unidade de referência na regulação de pacientes da Covid – foi contemplado. Isso explica o fechamento, em fevereiro, de uma UTI inteira e o descredenciamento de cerca de 40 leitos.
Ainda acerca do questionário enviado pelo aQui, a secretaria de Saúde de Volta Redonda se limitou a dizer que “o Hospital São João Batista, assim como demais unidades do município, não conta com leitos ofertados ao tratamento de pacientes acometidos pela Covid-19 com financiamento diferenciado”. E que o “credenciamento foi ofertado pelo SUS em 2020 e Volta Redonda não aderiu a este financiamento para 2021”, revelou, deixando claro que a falta de repasses para a manutenção dos leitos do HSJB foi crucial para o descredenciamento. Por outro lado, há controvérsias quando a secretaria diz que “Volta Redonda não aderiu ao financiamento para 2021”. Na verdade, ela pode não ter tido escolha.
Outra questão é que a cidade do aço oferta atualmente 30 leitos para internação de pacientes com Covid, mas nem todos estão no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES). Em levantamento feito pelo aQui no CNES, existem 10 leitos de Covid no HSJB e seis no Hospital do Retiro. E só. Esses números, segundo a secretaria de Saúde, já foram bem maiores. “Em meio ao segundo pico de casos em nosso município e com a superlotação do Hospital Regional, a SMS chegou a ofertar acima de 60 leitos para atendimento à população”, contou, acrescentando que a oferta dos atuais 30 leitos está adequada à realidade do município neste momento.
Por fim, a secretaria de Saúde informou que já entrou com o pedido de credenciamento dos novos leitos no Ministério da Saúde. Mesmo que o processo não esteja concluído, eles podem ser usados normalmente. A gente torce pra que não seja preciso, afinal, a prefeitura assegura que os casos de Covid-19 estão diminuindo e Volta Redonda já não registra óbitos pela doença há dois dias. Que assim seja!

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