Dois pesos e duas medidas

Neto anuncia exposição para a Ilha São João; e fiscalização de eventos clandestinos, que não dá conta do recado, pode ser afetada com liberação de shows em bares de Volta Redonda

Volta Redonda é o único município fluminense com até 300 mil habitantes a ultrapassar a triste marca dos mil óbitos pela Covid-19. Com uma população estimada de 273.988 habitantes, a cidade do aço já perdeu, até quinta, 22, 1089 pessoas e lidera o ranking. Segundo dados do Centro de Informações Estratégicas e Resposta de Vigilância em Saúde (CIEVS-RJ) da secretaria estadual de Saúde, apenas municípios superpopulosos como Campos dos Goytacazes (507.548 habitantes e 1597 óbitos), São Gonçalo (1.084.839 habitantes e 2789 óbitos), Nova Iguaçu (821.128 habitantes e 1774 óbitos), Petrópolis (306.191 habitantes e 1320 óbitos) e Duque de Caxias (919.526 habitantes e 1519 óbitos) ultrapassaram as mil mortes. A pandemia matou mais gente em Volta Redonda do que em toda a baía da Ilha Grande (715 óbitos) ou todo o noroeste fluminense (853 óbitos).
Mesmo assim, o prefeito Neto entende que as coisas vão bem no município. Em entrevista a Dário de Paula na quinta, 22, avisou a todos os ouvintes que pretende oferecer um almoço para cerca de 35 pessoas em sua casa para comemorar a volta dos grandes eventos na Ilha São João, a começar por uma exposição de cavalos no dia 15 de setembro. “O vereador Neném (que já teve Covid, grifo nosso) falou que vai fazer um almoço para algumas autoridades no Clube dos Cavalos com 20, 25 pessoas. Aí eu falei pra ele que cabia na minha casa, que nós já tínhamos recebido até 45 pessoas. Então tá fechado: o almoço da abertura do evento vai ser na minha casa, comida árabe, para 30/35 pessoas”, detalhou Neto.
A benevolência do prefeito e a crença de que o pior da pandemia já passou e vai acabar até o dia 15 de setembro, mesmo com uma nova variante do coronavírus, a Delta, estar rondando a região, podem acabar incentivando a realização de novos eventos pela cidade. Sem garantir as medidas de segurança necessárias, as aglomerações tendem a aumentar o número de infecções e, por consequência, o de mortos.
Só para se ter uma ideia, está marcado para o próximo sábado, 31, um show com o cantor Anderson Leonardo, ex-vocalista do grupo Molejo, no Bendito Boteco, do Eucaliptal. “Todo final de semana a rua em frente a esse bar fica intransitável. Não dá nem pra passar de carro. É uma multidão de gente sem máscara e sem respeitar o distanciamento”, contou uma moradora que não quis revelar sua identidade.
E será quase impossível o evento não superlotar. Segundo os cartões de divulgação que circulam nas redes sociais, a bebida será liberada para mulheres, e os homens poderão comprar combos de Gin ou Vodca com energético por apenas R$ 10. “Embora os organizadores avisem que a entrada é limitada e o uso de máscara é obrigatório, ninguém respeita. E quem não consegue entrar fica do lado de fora, se aglomerando do mesmo jeito. Todo final de semana tem apresentação de algum DJ”, revelou a vizinha do bar. “Se quiser ver como fica abarrotado de gente, é só passar por aqui nos finais de semana à noite”, sugeriu.
Ela não é a única a reclamar dos eventos que estão sendo realizados sem que a prefeitura tome providências. Prova foi o que aconteceu no último final de semana. Segundo um leitor, que também prefere não se identificar, uma superfesta foi promovida em um sítio nas redondezas da Fundação Beatriz Gama, no Retiro. A força-tarefa da prefeitura de Volta Redonda até esteve no local, permaneceu por cerca de 40 minutos, e foi embora crente que tudo tinha acabado. Ledo engano. “O batidão clandestino voltou com tudo e foi até as 6 horas”, revelou, indo além. “No sábado (17) aconteceu mais uma edição da festa clandestina After dos Crias. Foi em um sítio perto da Fundação Beatriz Gama”, acrescentou. “Na sexta, enquanto a força-tarefa agia no Retiro, acontecia, em um sítio atrás da FOA, outra festa clandestina, a Secret Party II, que seria dos mesmos organizadores do After dos Crias”, detalhou.
Para ele, a impunidade está fazendo com que produtores de eventos de cidades vizinhas adotem Volta Redonda para promoverem ‘eventos clandestinos’. “Uma famosa boate também realizou uma festa clandestina na quinta-feira, 15, em um sítio em Santa Rita do Zarur e não foram importunados pelos órgãos de segurança”, denunciou.
Quem vê de fora não sabe como é dentro
Coincidência ou não, a Guarda Municipal, acusada de fazer corpo mole na fiscalização dos eventos clandestinos, vive uma grande crise interna. O comandante, João Batista dos Reis, tem sido acusado constantemente de abuso de poder e assédio moral. O vereador Sidney Dinho, inclusive, já usou a tribuna da Câmara para denunciar o modo virulento que Batista se comporta no cargo. Desta vez, no entanto, quem fez a denúncia foram os próprios GMs.
Sem se identificar a fim de evitar retaliações, pediram socorro através de uma carta aberta que foi parar nas redes sociais. “Nós, Guardas Municipais de Volta Redonda, viemos a público manifestar nossa indignação e nosso pedido de socorro, em decorrência do comportamento antiprofissional, abusivo e de extrema covardia imposto pelo sr. João Batista dos Reis, comandante da Guarda Municipal de Volta Redonda”, escrevem.
De acordo com os denunciantes, Batista estaria perseguindo, assediando e humilhando seus subordinados. “Não podemos concordar com as PERSEGUIÇÕES, o ASSÉDIO MORAL, HUMILHAÇÕES e ABUSO DE AUTORIDADE imposto aos agentes da Guarda Municipal de Volta Redonda. O atual comandante vem perseguindo e punindo de forma covarde e irregular os agentes da Guarda Municipal, já foram emitidos em 1 semana, mais de 80 documentos de defesa (documento que precede a punição) e várias suspensões a pais de família, que já são mal remunerados e de forma covarde tem sua ficha funcional manchada por atos covardes e abusivos”, finalizaram.
Só para o leitor ter uma ideia, na última edição do ‘VR em Destaque’, pelo menos 11 portarias de punição a GMs foram publicadas pela prefeitura. “Não é novidade pra ninguém que eu não concordo com este extremismo de punição. [Esta carta] é um desabafo de quem está sendo punido e eu acho que quem se sente injustiçado deve procurar o Ministério Público e denunciar o possível abuso cometido”, comentou o vereador Dinho. “Vou conversar com os outros integrantes da Comissão de Segurança Pública também de Justiça da Câmara com o objetivo de fazer com que o responsável pela pasta possa nos explicar o porquê de tantos documentos de defesa”, avisou o parlamentar. Que já quis convocar Batista para prestar esclarecimentos em outra oportunidade, mas ainda não tinha conseguido.
O que diz a prefeitura
Questionada sobre os eventos clandestinos, a secretaria de Comunicação emitiu a seguinte nota: “As atividades econômicas estão autorizadas a funcionar em conformidade com o acordo coletivo previsto no comércio local, se submetendo às regras de segurança estabelecidas no decreto municipal de combate à Covid-19. Bares, restaurantes e congêneres podem executar música ao vivo e som ambiente, desde que licenciados para este fim, com o término das atividades até às 23h59, com tolerância de uma hora para seu encerramento total. Não pode haver pista de dança”.
A nota continua, afirmando que “também está previsto em decreto que é preciso haver um distanciamento social, de no mínimo, 1,5 metro entre mesas, respeitando a lotação máxima de seis pessoas por mesa. Além de ser proibida a permanência de pessoas em pé. A força-tarefa que fiscaliza as regras de prevenção à Covid-19 é formada por servidores da secretaria Municipal de Fazenda (SMF), da Vigilância Sanitária, da Guarda Municipal (GMVR), e conta com apoio da Polícia Militar (PM) e do Corpo de Bombeiros”.
Sobre o evento do Bendito Boteco, a secretaria de Comunicação afirmou que “as ações de fiscalização da força-tarefa serão intensificadas neste local no dia do evento. Visando que não haja desrespeito ao decreto. Em caso de aglomeração de pessoas e festas clandestinas, os moradores devem ligar para o 156 (Central de Atendimento Único), 153 da Guarda Municipal ou 190 da Polícia Militar”.
O órgão de imprensa não quis comentar a denúncia de abuso de poder e assédio moral por parte do comandante da Guarda Municipal.
Nota da redação: O Bendito Boteco foi procurado para que pudesse explicar como consegue garantir as regras de distanciamento social e o uso de máscara por parte dos clientes dentro do estabelecimento, mas até o fechamento desta edição ninguém havia retornado os contatos feitos pelo jornal.

 

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