Por Pollyanna Xavier e Mateus Gusmão
Não é de hoje que Edimar Miguel, até então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, e o G5 (grupo de cinco dos seis diretores que compõem a Executiva) não comem na mesma mesa. A indigestão era certa! O racha entre eles completou um ano no final de fevereiro, com um escândalo que culminou com a demissão do assessor jurídico, Tarcísio Xavier, e o ‘remaneja- mento’ de Edimar da presidência. A mudança, classificada como “golpe” por Edimar, e “necessária” pelo G5, aconteceu na quinta, 29, vejam só, na hora do almoço. O prato principal foi a transferência do então presidente para a Secretaria de Organização por Local de Trabalho. Como sobremesa, Edimar precisou engolir a posse de Odair Mariano como novo presidente do Sindicato.
Edimar foi convocado para a reunião e surpreendeu ao ir (ele andou faltando a muitas outras), mas quando soube que a executiva colocaria em votação a sua saída da presidência, deixou a sala antes do pleito. Tudo de- vidamente filmado em seu celular. Ele foi acompanhado de Edson Dias, que, na dança sindical das cadeiras, deixou o cargo de diretor de Organização por Local de Trabalho para assumir a Secretaria de Saúde Ocupacional. Em ata a que o aQui teve acesso, o G5 justificou que o remanejamento estaria fundamentado no Estatuto do Sindicato, com o claro objetivo de “priorizar a organização sindical e a pacificação das relações políticas, às vésperas das campanhas salarial e de PLR das empresas da base”, leia-se a CSN.
De fato, nos próxi- mos dias, o Sindicato vai dar o pontapé na cam- panha salarial da CSN e nas negociações para o pagamento da PLR/ Abono. E, para não correr o risco de passar pelo mesmo fiasco que foi a campanha do ano pas- sado, com Edimar cance- lando o resultado da vo- tação dos trabalhadores – porque não era o que ele queria –, o G5 decidiu pelo remanejamento de cargos dos diretores. Motoco para isto, o grupo tevê de sobra: Edimar é acusado pelo G5 de nepotismo, estímulo a oposição da taxa negocial, violação de deliberação da diretoria sobre adiamento de audiência para correção de petição inicial, recuda ao levantamento de alvará judicial em favor do Sindicato no momento de bloqueio da conta bancária da entidade e bloqueio do cartão bancário do secretário de Finanças. Tudo registrado em ata.
Após a reunião que terminou com o remanejamento de todos os diretores, exceto do diretor Jurídico, Leandro Vaz (o único advogado do grupo), a imprensa foi convocada para uma entrevista coletiva. No horário marcado, houve disputa para saber quem falaria primeiro, se Edimar ou o G5. O grupo de diretores foi priorizado e contou os motivos que levaram os cinco diretores a tomar a decisão inédita de tirar o poder das mãos do presidente. “Há uma cortina de fumaça entre Edimar e nosso diretor Financeiro, Alex Clemente, com denúncias infundadas de que Alex estaria malversando o dinheiro do Sindicato, que Edimar tinha o total conhecimento de tudo o que estava sendo feito e realizado”, esclareceu Leandro Vaz, que conduziu a coletiva.
Em seguida, ele frisou que o racha teve orivem quando Edimar co- locou a esposa, a filha e até a irmã para trabalharem no Sindicato, não aceitando quando o G5 pediu a saída de seus parentes da entidade. “Essa mamata acabou, e a partir daí começaram as perseguições políticas contra o G5. Não só o nepotismo, mas o Edimar também vem impedindo a entidade de andar, deixando -a estagnada. Ele vem descumprindo o Es- tatuto e violando as prer- rogativas estatutárias (…) Um dos papéis do presidente é cumprir as deliberações da diretoria executiva, mas ele vem violando essas deliberações”, revelou Leandro, citando muitas outras situações
que aconteceram no último ano no Sindicato.
Na vez de Edimar falar, ele começou contando que foi vítima deumgolpeedeuma manobra articulada pelo G5, para evitar que o diretor de Finanças, Alex Clemente, esclareça os 142 saques feitos na conta do Sindicato, totalizando um rombo de R$ 670 mil. Acontece que, apesar de Alex também ter sido removido da cadeira do Financeiro, ele não está livre de dar transparências às contas do Sindicato. Na próxima quarta, dia 6, Alex vai apresentar ao Conselho Fiscal do Sindicato as justificativas e provas dos saques feitos, todos, segundo ele, com o aval de Edimar Miguel.
Sobre o nepotismo, Edimar confirmou que a esposa e a filha trabalha- ram no Sindicato – o que chegou a desmentir ao aQui há algum tempo – e que entraram na entidade para ajudar, já que não houve transição da antiga gestão para a nova. “Minha esposa passou por aqui num momento muito ruim do Sindicato. Não tivemos transição da diretoria, nós recebemos as chaves dos próprios funcionários. Então, ela veio para ajudar”, justificou.
Quanto à filha, Edimar revelou que ela foi convidada a trabalhar no Sindicato pelo diretor jurídico, Leandro Vaz, que a lotou no seu departamento. “Eu gostaria que eles fossem homens para assumir o que fizeram. Sabe quem convidou minha filha para trabalhar aqui? O diretor jurídico. Ela largou o trabalho dela para aceitar o convite do diretor, e hoje ele critica a vinda dela”, alfinetou.
Sobre a sua saída da presidência, Edimar engrossou. Disse que levará o caso à Justiça e à apreciação dos trabalhadores em assembleia, porque as coisas teriam sido conduzidas na contramão do que determina o Estatuto. “Os 5 não são os únicos diretores do Sindicato. Aqui tem 40 diretores. Só os cinco que mandam? Cadê os outros 35? O Estatuto fala que a decisão majoritária do Sindicato é a assembleia geral. (Minha saída da presidência) de- veria ser levada a uma assembleia para que a categoria e os trabalhadores decidissem”, disse Edimar, acrescentando ainda que Alex teria mentido ao dizer que a presidência sabia dos saques bancários. “O pagamento de funcionários é por transferência de contas, não precisa de saque. Como ele fez os saques sozinho, se precisa da minha assinatura? Para onde foi essa verba? Ele passou esse dinheiro pra quem?”, questionou.
Ainda na coletiva, Edimar aproveitou para levantar situações duvidosas e irregulares, que teriam sido praticadas pelo G5. Como, por exemplo, um pedido para abrir mão de uma ação ajuizada na Justiça do Trabalho ainda na gestão Silvio Campos, exigindo a prestação de contas do Sindicato. Com a mudança de gestão, o processo perdeu o sentido, e Edimar teria sido orientado pelo Jurídico a pedir o arquivamento para otimizar as ações do Sindicato e organizar processos prioritários. O pedido foi interpretado por Edimar como uma forma de não dar publicidade às atuais contas do Sindicato.
Cortina de Fumaça
No caldeirão de brigas e intrigas internas do Sindicato, a situação tem tudo para respingar nos trabalhadores e nas prócimas negociações com as empresas da base. Isto porque Edimar pretende requerer na Justiça o direi- to de voltar à presidência doórgão,eoG5vai defender a legitimidade do remanejamento. Nesta disputa pelo poder, os trabalhadores poderão ser os mais prejudicados, porque as empresas po- dem se recusar a negociar com uma diretoria dividi- da. Se chegar a esse ponto, a Federação das Indústrias Metalúrgicas pode assu- mir, legalmente, as nego- ciações, inaugurando o fim desta gestão (indi- gesta) do Sindicato.

