quarta-feira, maio 25, 2022
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Falso positivo

Irmã do presidente do Umuarama teve contas bloqueadas pela Justiça; por engano

Roberto Marinho

“Foram 15 dias de desespero, uma luta enorme. Nunca esperei passar por isso na minha vida”. Foi assim que Fabíola Prieto Alberto definiu o período em que teve suas contas bancárias bloqueadas, por engano, pela Justiça do Trabalho, em um processo que envolve o Clube Umuarama e um ex-funcionário, já falecido. Fabíola é irmã de Fábio Prieto, presidente do clube, que é réu no processo trabalhista movido pela família do ex-funcionário, que pretende receber R$ 10 mil de indenização (atualizado, chega a R$ 50 mil, grifo nosso), de uma decisão, de 27 de julho de 2017, do juiz do Trabalho Nikolai Nowosh. Na época, o autor da ação ainda era vivo e o clube teria oito dias para realizar o pagamento.
O Umuarama recorreu e, depois de inúmeras tentativas de fazer o clube pagar o valor devido, o juiz titular da 3a Vara da Justiça do Trabalho, Renato Abreu Paiva, determinou a penhora on-line das contas de Fábio Prieto. Isso ocorreu em 16 de dezembro de 2021. Mas a determinação só foi cumprida em março de 2022. Foi aí que começou o tormento de Fabíola, que, por algum engano no processamento da ordem judicial, virou alvo do bloqueio.
“Foi desesperador: eu estava no banco e, de repente, minha conta estava zerada. Eu não entendi nada, sempre fui muito correta, tenho minhas coisas direitinho, pago minhas contas em dia. Sou vendedora e estou licenciada porque vou fazer uma cirurgia na próxima semana, e além de receber pelo INSS na minha conta bancária, também recebo nessa conta a pensão do meu filho de 13 anos – eu sou divorciada. De repente, tudo estava bloqueado e minha vida parou”, explicou.
Aflita, Fabíola procurou a gerente do banco, que lhe perguntou se ela tinha alguma empresa. “Eu disse que não, nunca tive nada em meu nome, só o meu carro, que é financiado”, relatou. Segundo ela, a gerente lhe explicou então que não poderia dar mais informações – por causa do sigilo da decisão judicial -, mas que sua conta bancária havia sido bloqueada por conta de dívidas de R$ 50 mil em um processo trabalhista. “Nesse momento eu desmaiei”, contou.
Fabíola estava acompanhada de uma amiga que a amparou, e o prejuízo já começou naquela hora. “Quando desmaiei, caí em cima do meu celular, que quebrou. Estou conversando com você pelo celular do meu filho”, disse ela, informando que foi ao Fórum procurar informações. Lá, foi encaminhada à sede da Justiça do Trabalho. “Também não consegui muita informação e contratei uma advogada, que me ajudou muito, mas era uma coisa que não estava nos meus planos”, relatou. Fabíola disse que os prejuízos – além do celular quebrado – foram inúmeros: “Eu paguei todas as minhas contas com juros. Como vivo com tudo muito contado, tive que pegar dinheiro emprestado para pagar essa diferença. O financiamento do meu carro eu ainda não consegui pagar, estou correndo atrás, mas também vai ter juros”, disse.
Com a confusão, várias pessoas questionaram se Fabíola não teria assinado algum documento relativo ao Umuarama, clube do qual seu irmão é presidente há 20 anos. “Não assinei nada. Meu avô, meu pai e agora meu irmão – que foi colocado no clube pelo meu pai – sempre atuaram na direção, nós somos sócios remidos e eu frequentei lá a vida inteira, mas nunca participei de nada da direção. Não há nada que me ligue ao clube nesse sentido”, garantiu, acreditando que seu nome foi incluído no processo por engano.
Uma decisão judicial do dia 20 de março de 2022 corrobora a versão de Fabíola. No despacho, o juiz do Trabalho, Thiago Rabelo da Costa, afirma que houve um engano no bloqueio das contas bancárias dela. “No caso em análise, o bloqueio da conta de Fabíola Prieto Alberto se deu por equívoco, já tendo sido formalizado o desbloqueio”, relatou. No mesmo despacho, Costa reafirma que Fábio Prieto, como presidente do Umuarama, deveria pagar a indenização do processo trabalhista.
Boletim de Ocorrência
Depois do ocorrido, Fabíola procurou o irmão para saber se ele sabia a razão do bloqueio, e ainda para pedir o ressarcimento dos prejuízos causados pela situação. “Ele se exaltou comigo, ameaçou me processar, foi horrível. Fui orientada pela minha advogada e outras pessoas a fazer um Boletim de Ocorrência contra ele, por ameaça, o que foi feito”, comentou, temendo represálias do irmão.
“Agora tive que contratar uma advogada para ver se tem mais alguma coisa com o meu nome. Sei que existem diversos processos trabalhistas contra o Umuarama, várias pessoas me falaram, enquanto eu tentava resolver essa confusão. Meu medo é ter mais alguma surpresa lá na frente. Quem me conhece sabe que sou correta, trabalhadora, e tenho minhas coisas muito certas. Nunca faria nada errado, nenhuma fraude”, disse, acrescentando que irá acionar à Justiça para reaver o prejuízo sofrido.
Em relação à confusão envolvendo o nome do seu irmão e o Umuarama, Fabíola disse que afeta toda a família. “Nós saímos na rua e as pessoas olham atravessado, ficamos constrangidos. Meu avô – Antônio Prieto – era um homem muito correto, fez muito pelo Umuarama e deixou um legado enorme. Assim como meu pai, que também atuou no clube. Essa situação toda nos deixa muito mal, e causou até problemas de saúde no meu pai”, relatou.
Fábio Prieto foi procurado para dar a versão dele e afirmou ao aQui que não teve culpa nenhuma no bloqueio judicial das contas da irmã. Tem mais. Disse que vai processá-la por danos morais. Em um primeiro momento, negou que Fabíola o tivesse procurado, mas depois se “lembrou” do fato, contando que chegou a ir à delegacia para prestar esclarecimentos. “Ela (Fabíola) que chegou na porta da minha loja me agredindo”, alegou.
Em relação ao pagamento da indenização neste processo trabalhista específico, Fábio disse que o faturamento do clube foi prejudicado pela Covid-19 – esquecendo que a decisão judicial é de 2017, três anos antes da pandemia. Também afirmou que “todo mundo tem processos tra-balhistas” e não seria diferente com o Umuarama. Fábio ainda discordou do conteúdo das reportagens do aQui sobre a situação do clube e se recusou a falar sobre a ação movida pela CSN contra o clube. “Isso está sendo tratado na Justiça. É a única coisa que posso comentar”, afirmou.
Por fim, Fábio ressaltou que o Umuarama “tem 89 anos e uma história na cidade” e que a sociedade local deveria defendê-lo. Segundo ele, o clube presta diversos trabalhos sociais, como oferecer o espaço a uma ONG que atende pessoas com síndrome de Down, e permitir o uso da piscina por grupos da secretaria de Ação Comunitária (Smac). “A sociedade precisa saber disso”, concluiu.

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