‘Eu te odeio’

Não faz muito tempo, o Sul Fluminense teve que digerir crimes absurdos contra as mulheres. Homens, tomados pelo ódio, atacaram as companheiras ou ex com paus, garrafas, facas e até utensílios de cozinha. Dentre aqueles que foram expostos à opinião pública dado à selvageria, dois crimes chocaram. O primeiro foi em Angra dos Reis, em janeiro, quando uma adolescente teve o rosto quebrado pelo namorado, que avançou sobre ela com uma pá de pedreiro. Já em Barra Mansa, dois meses mais tarde, uma grávida foi espancada pelo marido, com chutes na barriga, até não suportar mais. Ela morreu poucos dias depois do parto, mas, felizmente, a criança sobreviveu.

Esses são apenas dois ‘crimes de ódio’ em meio a uma infinidade de casos em terras fluminenses. Segundo levantamento do Inspe (Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro), apresentado no ‘Dossiê Mulher’, em 2018, 1.064 mulheres tiveram sua dignidade vilipendiada de alguma forma bruta e violenta. “Esse ano em Barra Mansa foram vários casos de violência com requintes de crueldade, desde mulher desfigurada com golpes de socador de alho, grávida agredida ao ponto de dar à luz prematuramente e vir a falecer em seguida, esfaqueamento, golpes de foice e um dos mais recentes: mulher atacada com óleo quente pelo companheiro”, enumera Adriana Bitencourt, presidente do Psol Volta Redonda, que atuou como porta-voz do setorial de mulheres.

Esses e tantos outros casos – muitos nem sempre contabilizados – motivaram a Guarda Municipal Priscila Rocha a criar, com o aval da prefeitura de Barra Mansa, a ‘Patrulha da Mulher que conta com um emblemático veículo rosa para atender denúncias e evitar possíveis feminicídios. Não resolve, mas está um passo à frente de Volta Redonda que até hoje não desenvolveu medidas a fim de combater o problema, embora ostente números piores que o município vizinho.

De acordo com o dossiê, 1.721 mulheres que sobreviveram aos maridos e namorados procuraram a delegacia ou algum órgão competente para denunciar seus companheiros por agressão ou ameaça. Em 2017 os números já preocupavam: foram 1.007 casos de violência contra pessoas do sexo feminino. Estupros também aterrorizam essas mulheres e engrossam, cada vez mais, as estatísticas. “No dia 25 de outubro fomos surpreendidos com a terrível notícia de um estupro dentro da usina em Volta Redonda; o setorial de mulheres do Psol acredita que precisamos fazer mobilização e mostrar nossa indignação perante esse e os outros tantos casos de violência inaceitáveis”, relembra Adriana.

Para piorar, conforme denunciou uma fonte ligada à secretaria de Políticas Públicas para Mulheres, Idosos e Direitos Humanos de Volta Redonda (Smidh), as instituições que deveriam se alinhar a fim de elaborar planos de ação eficazes parecem caminhar em lados opostos, individualmente. “A Smidh tem dificuldades para saber dos casos registrados na Delegacia da Mulher. A delegada praticamente não dá atenção à secretária (América Tereza). Se não cobrar, não mandam os dossiês e a prefeitura fica sem saber quem são as vítimas, onde moram e como protegê-las”, reclama a fonte, pedindo anonimato.

Mas, conforme observou a deputada estadual Dani Monteiro (Psol), mesmo sem contar com a habilidade da Deam de trabalhar em rede integrada com a prefeitura, as mulheres voltarredondenses são, de certa forma, privilegiadas dado o fato de que dezenas de municípios – milhares de vezes mais violentos do que Volta Redonda – sequer contam com uma delegacia especializada. “Municípios da Baixada Fluminense e da Região Litorânea, que estão entre os mais hostis ao sexo feminino, descumprem prontamente a Norma Técnica que prevê a instalação de Deams de acordo com a densidade populacional de cada área”, denuncia a parlamentar.

“Com base no ‘Dossiê Mulher 2019’, que reúne os registros sobre violência doméstica nas Áreas Integradas de Segurança Pública, constatamos que os municípios que apresentam o maior número de registros de crimes, que vão de homicídio doloso a estupro, estão localizadas em quatro Aisps distintas: três na Baixada, uma na região dos Lagos. Juntas, essas áreas comportam 16 municípios. Duque de Caxias, campeã em tipificações, pelo tamanho de sua população, deveria ter quatro delegacias de atendimento à mulher; tem apenas uma. A mesma conta vale para Nova Iguaçu. Já cidades como Cabo Frio, Armação de Búzios e Arraial do Cabo, que deveriam oferecer pelo menos uma delegacia, não têm sequer projeto de que serão instaladas”, completa Dani, revoltada.

Vale lembrar que as mulheres não são as únicas vítimas do ódio alheio. Da mesma forma que elas, homossexuais da região são atacados indiscriminadamente com métodos variados de tortura. Segundo depoimento recente do coordenador da ONG Volta Redonda Sem Homofobia, Natã Teixeira Amorim, há registros de gays degolados, espancados e mutilados no Sul Fluminense. Isso sem contar, lembra o ativista, os casos de jovens expulsos de casa por seus pais, após sofrerem agressões físicas, verbais e psicológicas.

Natã garantiu que em 2018, de janeiro a dezembro, três homossexuais morreram. Na época, como o Superior Tribunal de Justiça (STF) ainda não havia tipificado como racismo crimes motivados por homofobia, as três mortes em questão se perderam nos números da violência como se fossem assassinatos comuns e não motivados pelo ódio. “Mas nós não esquecemos, jamais”, afirma o coordenador da ONG.

Neste ano, ainda de acordo com os levantamentos apresentados pelo VR Sem Homofobia, os crimes contra a população LGBT da região deram um salto. De janeiro a maio já morreram cinco homossexuais. “Um dos principais segmentos que a gente usa para identificar o crime de homofobia, quando se trata de um LGBT, é a forma como essa pessoa foi assassinada. A gente tem casos de pessoas serem degoladas, mortas a pauladas e casos de pessoas que são mutiladas”, explica Natã.

O medo pela vida também aflige religiosos de matriz africana, principalmente os negros. Menos notificados, mas tão nocivos quanto, os crimes contra a fé alheia, que se misturam ao racismo, rabiscam com sangue a história do Sul Fluminense. Neusa Perez Rosa, de Volta Redonda, conta que seus vizinhos pararam de falar com ela quando começou a sair de branco (indumentária comum aos praticantes do candomblé e umbanda, grifo nosso). “Aconteceu no início deste ano”, lembra.

Ela não é a única e seu caso nem é o pior. O baiano Eleasar Macedo Ramos, que vive em Volta Redonda, conta que foi rejeitado pela própria família ao se converter para a vida de axé. “Meu casamento de dez anos simplesmente acabou. Hoje sou privado de ver meus filhos. Eles não podem frequentar minha casa por causa da minha ‘religião do demônio’. Meu pai chegou a dizer que preferiria me ver morto a me ver na ‘macumba’”, lamentou, garantindo que, mesmo assim, resiste. “Eu saio na rua com minhas guias, ando de turbante. Me visto como o santo pede, independente da minha família neopetencostal”, pontua.

O mais chocante das histórias, forjadas a partir do ódio, é que elas têm aumentado e se tornado cada vez mais comuns, e refletem uma realidade nacional. A ONG Words Heal the World observou que em 2018 o Brasil registrou nada mais nada menos do que 12 mil crimes de ódio contra pessoas consideradas diferentes. “Isto significa que, a cada dia, 33 crimes motivados por ódio foram registrados pelas polícias dos estados brasileiros e do Distrito Federal”.

O levantamento, que resultou no documento ‘Mapa do ódio no Brasil’, coletou dados oficiais de crimes motivados por preconceito baseado em raça, orientação sexual (tendo como alvo a comunidade LGBT), religião, origem e gênero (feminicídio). “O ‘Mapa do Ódio’ é um documento inédito no país e tem o objetivo de colocar em evidência a importância do combate aos crimes de ódio no Brasil”, definiu a ONG Words Heal the World.

Para Renata Mielli, coordenadora geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação e secretária-geral do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, os grandes conglomerados de comunicação foram cruciais para fortalecer o discurso de ódio que hoje amedronta o país em forma de crimes hediondos. “Quando o discurso de ódio ganha escala e é de alguma maneira chancelado e até estimulado por grandes meios de comunicação de massa, o que se produz em consequência é a proliferação desse ódio, contaminando o tecido social até que o ódio discursivo se materialize em violência. Isso ocorreu porque os meios de comunicação de massa, ao adotarem de forma explícita uma posição na disputa política, deixaram de fazer jornalismo para informar, e passaram a construir um discurso para validar sua posição”, explicou.

Para a especialista, atualmente o representante desse discurso é o presidente Jair Bolsonaro. “Desde 2013, o principal porta-voz desse discurso de ódio e dessas posturas tem sido Jair Bolsonaro. O militar da reserva se orgulha de fazer apologia a torturadores, não cansa de tecer elogios ao regime militar e às Forças Armadas, defende abertamente a liberação do porte de armas, tem atacado deliberadamente direitos humanos, reiterando preconceito contra pobres da periferia, negros, LGBTs, mulheres e estimulado o ódio contra ativistas de esquerda, falando sem pudor que é preciso exterminar essa gente. Seus discursos jogam combustível num ambiente político já em chamas”, opina Renata.

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